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Estórias na Caixa de Pandora

Era suposto?

No fim de semana deu-me para aplicar no rosto uma máscara de argila verde. Lá estive eu, verde, como se tivesse andado a chafurdar na lama, em pose. Depois de lavar bem lavadinho o rosto, a pele estava com um toque de seda. Uau, devia fazer isto com mais regularidade - pensei com os meus botões.

Mas eis que ontem vi pequenos vesúvios a romper na testa. Então mas a máscara não é suposto limpar a pele e evitar estas erupções vulcânicas na testa?

 

Então, Pandora, como vai a vida?

Vai andando. Resposta tipicamente tuga.

Na semana passada andei com uma gripe meia chata, felizmente não foi muito forte, mas deu para uns dias a anti-histamínico e lenços de papel, para não falar no certo mau estar geral, de muito sono, também causado pelo cansaço. Em cinco dias saí a horas um dia, tive uma sexta feira demoníaca, com casos urgentes a tratar, que me fizeram andar numa roda viva e os níveis de stress dispararam. As minhas horas de almoço eram mais curtas, literalmente a vir a casa engolir qualquer coisa porque tinha de comer. Várias tardes sem parar para lanchar, o apetite não era muito, mas a fraqueza sentia-se, o que agravava o estado de cansaço.

Lá me vou integrando nas novas funções, aceitando que vai levar tempo até me sentir mais segura e autónoma, mas até ver, estou a desenrascar-me bem e sem grandes acidentes. A integração na nova equipa também levará o seu tempo, sabendo de antemão que não será como a minha anterior equipa. As pessoas são diferentes, a postura também e, verdade seja dita, o ambiente e dinâmica da equipa não tem nada a ver com aquela de eu onde venho e já estava habituada, também por me identificar mais com o espírito de equipa. Há pormenores que fazem a diferença, como por exemplo, na minha anterior equipa o material partilhava-se. Não era necessário cada um ter na sua mesa um agrafador. Isso estava junto ao armário do arquivo, acessível a todos, onde era preciso. Na minha atual equipa, cada um tem o seu agrafador na sua mesa e eu, para não andar sempre a pedir o das colegas, lá fui ao economato buscar um para mim. Na minha anterior equipa havia uma pasta partilhada à qual todos tínhamos acesso a ficheiros e mapas para trabalhar e consultar. Na atual equipa cada um guarda as suas coisas no seu ambiente de trabalho, disponibilizam aos outros o que querem, e é um favor que fazem. Tive de andar atrás da informática para entrar no computador de uma colega que está de baixa para conseguir aceder a material de trabalho que preciso. Maravilhoso (só que não!). Na minha anterior equipa havia um pote de bolachas comunitário: todos levavam bolachas e punham lá para todos irmos petiscando. Na atual equipa cada um leva os seus frutos secos (é malta toda muito fit) e as suas bolachas e snacks. Partilham se querem, ou quando alguém tem lata de pedir uma. Dá para ver as diferenças, não dá? Pronto. Nada que já não estivesse à espera, mas senti-lo na pele é toda outra sensação.

Com o stress, o sistema nervoso nos píncaros e ainda a juntar a gripe que me visitou, noto-me mais magra. Na última consulta de nutricionista já tinha perdido peso, esta semana volto lá e não me admiraria que os ponteiros da balança baixassem desde a última visita. Podia estar toda contente, mas emagrecer nestes termos não é de todo agradável.

Os fins de semana resumem-se a tarefas domésticas e descanso. Tenho visto filmes, as séries estão em dia e finalmente comecei a ler o livro. Não me tem apetecido ligar o computador, até porque a inspiração para escrever o que quer que seja anda a níveis abaixo de zero.

Portanto a vida vai indo, vai-se andando, vai-se gerindo. 

Hoje o dia foi mais calmo, comparado com os da semana passada, o que dá para respirar um pouco e sentir que começo a ter as coisas organizadas e a ganhar métodos e rotinas nas novas funções, que por si só são mais stressantes que as anteriores.

Ainda me sinto um peixinho de aquário a tentar sobreviver num tanque de tubarões. Mas para já foco-me numas sábias palavras que uma amiga me enviou em jeito de força:

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E só posso sentir uma enorme gratidão por ter amigas que, a kms de distância, conseguem amparar-me os medos e abraçar-me a alma. 

 

 

Duelo na cozinha

Ontem jazia eu, já meia entupida, no sofá, debaixo da manta de pelo e dos gatos, quando o rapaz teve desejos. Panquecas. Ah e tal até as queria fazer. Ups, não havia farinha. Ainda apelei a fazer panquecas de aveia, que não. Saiu para ir comprar farinha e eu arrastei-me até à cozinha decidida a finalmente fazer crepioca, já que tinha no armário o polvilho doce e ainda não tinha experimentado essa mega tendência do mundo fit, a crepioca.

Ele vai e volta com a farinha e eu com as crepiocas a sair do lume. Teimoso, lá fez as panquecas que tanto lhe apeteciam. Note-se, com maçã caramelizada. Acho que ele anda a ver demadiado 24 kitchen. 

Crepiocas da Pandora vs panquecas do Gandhe. Gostei mais das crepiocas. Ele não deu o braço a torcer, mas agora andam ali panquecas para o resto da semana. As crepiocas, nem uma para contar história. 

 

Planos suspensos

Cliché traçar planos de ano novo que, ainda nem ao fim do mês de janeiro, já se encontram esquecidos ou em incumprimento.

Cliché me assumo, que mesmo não tendo traçado uma lista de planos para o novo ano, o pouco que tinha em mente de levar avante está em modo suspenso. 

Leituras: pois que há quase três semanas que não pego num livro. Quando acabei a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, de Zafón, senti-me meia vazia, não seria qualquer livro a prender-me. Pedi emprestado o livro que ofereci a uma amiga, certa que não seria um balde de água fria. Prontamente a amiga mo emprestou e vergonhasamente ele jaz na minha mesinha de cabeceira. Desde que recebi a notícia da mudança de funções que, não só a cabeça anda a mil, como os nervos e a ansiedade fazem mossa no meu estado de espírito e disposição. Além disso, andei a levar documentação para ler em casa, e ando em esforço para cumprir o horário de trabalho, sem sair muitos dias fora de horas (facto que é apreciado na atual equipa: sair mais tarde é sinal de dedicação e empenho... os vómitos que esta mentalidade peregrina me dá).

Destralhamento: estava eu com planos para começar a operação limpeza, destralhamento e arrumação da garagem. Até seria uma ótima terapia, que comigo estas arumações e limpezas radicais ajudam-me a arrumar ideias e ocupar a mente para não me deixar levar pela ansiedade. Então o que me tem impedido? Ora bem, está a chover. E a chover eu estendo a roupa na garagem. E com roupa a secar na garagem não vou andar a desvirar caixas e mais caixas, a revirar tralhas, a separar o que vai, o que fica. Obviamente ia levantar pó, no mínimo, e ali com a roupa lavadinha estendida, não é lá muito boa ideia.

Alteração do quarto/escritório: depois de uma primeira ideia, com pedido de orçamentos, trocámos novas ideias, pensámos noutras soluções, chegámos a um consenso (e o que custa chegar a um consenso, porque nós os dois temos diferentes pontos de vista em decoração e o Gandhe não é dos que delega estas questões à gaja), e vai de pedir novos orçamentos. Resultado, ainda não temos os novos orçamentos, tão pouco estão os móveis a ser feitos, pelo que não faço ideia de quando terei a "remodelação" feita. Era suposto ser ainda no primeiro semestre do ano, mas a ser realista, estou a prever que seja mais tarde.

 

E é isto. A recuperar da crise de ansiedade, a construir novo método de trabalho e implementar nova rotina, às voltas com os planos que ficam suspensos. Um dia de cada vez e tudo se há-de resolver. 

 

Pandora em (re)construção

Sou daquelas pessoas a quem a mudança custa. Há um certo friozinho na barriga, borboletas que esvoaçam, numa ténue excitação pela mudança, pelo desafio a superar, enfim, a mudança que seja para melhor e apesar de ter noção que custa ao início, é para crescer, aprender e melhorar. Mas custa. Umas pessoas a mais que outras e a mim custa-me horrores. Tirarem-me da minha zona de conforto, das rotinas confortáveis, é como arrancar-me o chão debaixo dos pés. Sinto-me em queda livre. 

Juntar isto da mudança ao facto de eu não ser a pessoa mais confiante do mundo, a anos luz disso, há o medo. Medo de falhar. Ponto. Sou demasiado, excessivamente exigente comigo própria. Tenho um terrível medo de falhar e defraudar expetativas alheias. Ora, quando me recrutaram para a atual equipa com o argumento de ser um reforço "especializado", um excelente reforço para a equipa e o trabalho a desenvolver no dito plano de melhoria contínua (ahhh a filosofia Kaizen a imperar o modus operandi), eu sinto pressão. Tendo noção que tenho muito a aprender até ter algum domínio e, consequentemente, autonomia nas tarefas, este discurso que bem sei que é motivador e encorajador, em mim bate com uma repercussão de pressão: Pandora, vais falhar e vão ver que estavam enganados a teu respeito. Pumba. Assim. Verdade, confesso-me: sou a última a acreditar ou confiar em mim, a ver as mesmas capacidades e competências que os outros me atribuem. Lido melhor com a crítica que com o elogio. Freud explicaria, provavelmente, pela minha história de vida, a educação que tive, a infância dolorosa que enfrentei, os pais que sempre me exigiram uma perfeição que não existe, tão imperfeitos eram eles. Sei bem que são as marcas forjadas em mim, ao longo do meu desenvolvimento pessoal e afetivo.  Tenho de lidar com isso. Vou tentando, mas em situações limite, como esta, que me arrancam do meu porto seguro e me atiram a um tanque de tubarões, todos os meus medos e inseguranças vêm ao de cima, dominando o meu pensamento.

Portanto, com estes ingredientes pouco mais faltava para ter a receita completa de um verdadeiro cocktail molotov emocional. Junte-se a chefia que me ignorou durante um bocado até me mandar sentar ao pé das colegas para as ver trabalhar e ambientar-me, ao facto de no meu segundo dia naquela equipa me caírem perto de 400 processos que estão em atraso, que uma equipa de x pessoas não teve tempo de tratar nos últimos seis (ou mais) meses e agora caem-me para eu ir recuperando trabalho, à medida que vou aprendendo. Bonito.

Resultado? Um belo de um ataque de pânico e ansiedade que me atirou a um choro compulsivo, falta de apetite, vómitos (tais eram os nervos), umas noites em claro, e a verdadeira sensação de pânico, de gritar que não sou capaz e nem vale a pena insistir.

Vale-me que isto vem, explode, queima, mas depois encarno a Fénix que há dentro de mim e renasço das cinzas. Recupero um pouco a calma, domino a ansiedade e aceito que tudo isto é o caos de um início, que é normal que seja um enorme novelo de lã embrulhado e cheio de nós, que até achar uma ponta e começar a fiar, devagarinho, a aprender e a apanhar o ritmo, leva o seu tempo. Afinal Roma e Pavia não se fizeram num dia, e eu não sou a super mulher, com super poderes, tão pouco sou uma espécie de D. Sebastião que chega numa manhã de nevoeiro e salva o mundo do caos. 

Está a custar. Sim. É complicado estar ainda muito dependente das colegas, que me vão passando informações e procedimentos à medida que eu vou olhando para os processos que me atribuíram, os analiso, e começo a chegar às minhas conclusões para lhes poder dar seguimento. O caminho a percorrer é longo, muito longo. Aceito. E aceito-me nas minhas limitações, comuns a qualquer mortal. E as colegas acabam por ir partilhando comigo as suas experiências e dificuldades de quando ali começaram. Uma confessou-me que durante dias, senão semanas, chorava todas as manhãs antes de ir trabalhar. E hoje está ali como uma das mais experientes na área. Tempo. E paciência. 

Espero chegar o dia em que recorde estes primeiros dias de fevereiro de 2017 com um humor negro, a gozar comigo mesma, com o drama queen. Quando esse dia chegar, sei que ultrapassei as dificuldades e estou a superar o desafio. Até lá, venha a sabedoria nas ações e a fé em mim própria. Do desesperante "eu não sou capaz" que venha um esperançoso "sim, eu consigo"!

 

Nos entretantos, de tão absorvida que ando, não há cabeça ou disponibilidade para blog e leituras blogosféricas, para o livro que estava tão entusiasmada para ler e tem estado ali, em modo pausa, entre outras coisas, as pequenas coisas que me servem de escape para o dia a dia. Também isto precisa de ser ajustado ao novo ritmo, à nova rotina. Ou até eu conseguir ter novamente um ritmo e rotina instalados, para que possa dispersar a minha atenção para outras vertentes, como quem faz uma pausa para um café. 

Por ora, fico-me pelo desabafo, como quem procura organizar as ideias e o caos em que a mente mergulhou...