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Estórias na Caixa de Pandora

Crónica para o grupo de escrita criativa (saiu, porra!)

Terminadas as mini férias da páscoa, eis que foi dia de regressar ao ativo. Dia de trabalho que acabou com aula de ginástica.

Sendo que eu estou para o exercício físico como os vegetarianos estão para a carne, é fácil perceber que vou para a aula em modo mandrião, como se uns carrascos invisíveis me arrastassem para uma sessão de tortura medieval. 

Lamento, mas não tenho o fit no meu código genético. Nunca serei como aquelas musas das redes sociais, que publicam fotos à velocidade da luz em trajes (menores) desportivos coloridos e apelativos à vista, que divulgam os seus vídeos a fazer levantamentos e agachamentos com a mesma facilidade com que eu barro manteiga no pão pela manhã. Manteiga de amendoim. 100% amendoim, sem aditivos, conservantes e outras cenas. 

Lá me arrastei para a aula. Cheguei cedo. Juntei-me a colegas e uma andava a distribuir pequenos ovos de chocolate, os resquícios da páscoa. Chega a professora e topa-nos a lambuzar os dedos de chocolate. Tremi. Estava com cara de Hitler, de quem nos ia fazer arrepender daquele inofensivo ovinho, de todas as amêndoas que andei a degustar nos últimos dias. Ah e o leitão assado com batatas fritas!!! Comi salada. Muita alface e laranja. Mas lambi os dedos com o leitão e as batatas fritas. Shiu!

Aula a começar. Quase me benzo, qual jogador da bola a entrar em campo. 

A primeira parte da aula é cardio e a Hitler de leggings fez coreografias softs. Sem grandes agachamentos e pulos que nos põem de língua de fora, a suar que nem... poupo-vos a imagem pouco sexy.

Colchões. Anuncia aquela voz de trovão. Bebo um gole de água, enquanto penso que dava jeito começar a levar uma garrafinha de oxigénio também para a aula. 

Hoje serão só abdominais. - Céus, morri e fui parar ao inferno. Por pouco os olhos não se soltaram das órbitas quando a vi a demonstrar os diferentes abdominais que teríamos de fazer. Em especial um, que por mais que eu tente, não há como atinar com aquilo, desequilibro-me e tombo para o lado, para além das dores. Não podia ser. Maldito ovo. Malditas amêndoas. Que se dane os buracos de celulite e o rabo da Sara Sampaio, que me deixa sempre a babar quando aparece nos anúncios dos biquínis da Calzedónia, enquanto a pequena morsa aqui lambe um magnum amêndoas.

E começa a tortura. Concentra-te. Respira. Não te esqueças de respirar. E vai contando. Porra, não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Está quase. Próximo. Daaaa-se, afinal ainda foi só O PRIMEIRO exercício. Da PRIMEIRA série. Hoje saio daqui de maca. E seguiu-se outro e mais outro, aquele do demónio é dos últimos. Como???? Já não aguento mais. Inspira. Expira. Concentra. Aperta a barriga! -  grita a Hitler de leggings tonificadas, com rabo de fazer frente à Sara Sampaio. 

E eis que chegou a vez do mais que temido. Aquilo é para levantar as pernas, bem esticadas, em direção ao teto, até levantar rabo e ficar só apoiada nas costas, depois baixar enquanto se levanta o tronco, depois recolhe as pernas para novo balanço e tá a levantar. Bem alto. Rabo também. Levanta tudo. Ai que caio, vou tombar, je vais tomber... não tombei. Oi? Fiz tudo? A sério?! Pela primeira vez?! Se conseguisse, corria para festejar. Corria dali para fora, entenda-se. Porque vai começar nova série e tá a repetir TUDO!!!! 

Alienei. Já pouco sentia. Só queria manter a respiração, para ter certeza que ainda estava viva. E terminou. UFA!!!!!

Alongar. 

Oh porra. Uma pessoa pensa que chega o descanso digno do guerreiro, e afinal ainda falta esticar o esqueleto até aos limites da dor. E puxa. E respira e vai mais abaixo. E onde eu tinha a cabeça para me meter nisto??? Deixa estar os buracos de celulite em paz.  

Acabou. Acabou. A-C-A-B-O-U! Estou viva. Mal me mexo, mas respiro e sinto dor. Estou viva, certo?!

Enrolo o colchão, bebo um gole de água, visto o casaco, agarro na mochila, e despeço-me com um: até quinta! De sorriso nos lábios. Só faltou a selfie pra espetar no Instagram, mas achei que ia assustar o pessoal, com o meu ar pouco fresca e pouco fofa. E nem as leggings pouco tonificadas me iam salvar a foto.

 

Ma-So-Quis-Ta! It's my middle name!

 

Qualquer semelhança entre ficção e a realidade experienciada pela minha pessoa na última aula de ginástica, NÃO é pura coincidência.

Enquanto o vento uiva lá fora

Eu conclui o raio da crónica para apresentar amanhã no encontro do grupo de escrita criativa.

A dificuldade é escolher um tema. Escolhido, é soltar os dedos e deixar fluir. Mais ou menos, vá.

Sou demasiado perfecionista e leio e releio e não acho nada de especial. Mas pronto, está escrito, dei voltas à cabeça, deixei fluir, ainda me ri, fiz algumas correções no final, uns retoques aqui e ali, e não mexo mais.

A dita já está ali nos rascunhos, à espera de ser revelada também aqui. Ainda mais depois de me aturarem com a neurose da falta de criatividade ou imaginação. 

 

O Jogo do Anjo: o meu primeiro desafio de leitura

Depois de ler A Sombra do Vento e ter ficado rendida à escrita de Zafón, eis que recebo um convite para participar num desafio de leitura. Ler em simultâneo com um grupo de ávidas leitoras e admiradoras de Zafón O Jogo do Anjo. Agradeço à Magda pelo convite, agradeço a todas as participantes a oportunidade de pertencer a tão excelente grupo de leitura. Comecei bem o desafio, que no fim-de-semana em que arrancou a leitura, eu devorei mais de 300 páginas. Depois o tempo disponível abrandou-me o ritmo, e o próprio livro começava a irritar-me: tanto mistério, andar ali às voltas, respostas nem uma, e já achava que aquilo era uma grande loucura, e não me admirava que chegasse ao fim e o protagonista acordasse de um pesadelo qualquer, de um devaneio, e eu ficava ali, com vontade de espancar o narrador. Não foi assim que aconteceu, mas confesso, fui a última a cumprir o desafio. Vale que é daqueles desafios em que não há vencedor nem vencidos, tão pouco pódio com medalhas para distribuir. Ainda assim, Pandora foi a última a cortar a meta. 

 

Sobre este livro de Zafón... 

o_jogo_do_anjo_2016

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto sobre a cabeça, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.

 

Assim começa O Jogo do Anjo. Uma narrativa de primeira pessoa. O nosso narrador é o protagonista deste enredo denso, um jovem escritor, David Martin, que não me criou a mesma empatia que o protagonista de A Sombra do Vento, Daniel Sempere. O cenário continua a ser Barcelona, nas décadas de 20 e 30. Uma Barcelona escura, misteriosa, gótica: a cidade dos malditos, citando o narrador protagonista. Para quem já leu A Sombra do Vento vai reencontrar locais conhecidos, como o mágico Cemitério dos livros esquecidos e a livraria de Sempere. Cronologicamente, O Jogo do Anjo acontece antes da ação de A Sombra do Vento, já que o nosso conhecido Daniel Sempere aparece referido no final do Jogo do Anjo como tendo nascido e ficado orfão de mãe aos 4 anos. Portanto, é interessante revisitar locais e algumas personagens já cohecidas, mas num tempo anterior, como se assim pudessemos conhecer o seu passado. 

Na linha de A Sombra do Vento, o autor mistura vários géneros: romance, mistério, suspense, crime. Nas palavras do próprio: é novamente uma história de livros, de quem os faz, de quem os lê e de quem vive com eles, através deles e até contra eles. É uma história de amor, amizade e, em alguns momentos, sobre o lado obscuro de cada um de nós.

Na leitura que fiz, do que me ficou, predomina o mistério e o suspense. A história de David Martin é trágica, como se ao nascer já estivesse condenado a uma vida de sofrimento, destino ao qual não consegue fugir por mais que tente. É um lutador. Abandonado pela mãe, filho de um pai violento e alcoólico, viu-se sozinho no mundo muito novo. O seu amor pelos livros foi a sua salvação. E provavelmente a sua maldição. Num relato alucinante, os mistérios sucedem-se, os crimes também. Mistério sobre mistério, becos sem saída, um suspense de cortar à faca. Chegamos a duvidar da sanidade do nosso protagonista narrador, principalmente quando há outras personagens com versões diferentes dos mesmos factos. Um amor trágico, amizades incondicionais, daquelas "até que a morte separe", o mistério e obscurantismo de algumas personagens, tudo parece conduzir David ou a um final trágico ou a um final de glória. Apostaria mais no trágico, porque o próprio encadeamento dos acontecimentos assim o faz prever. David Martin perde tudo o que ama, e perdeu-se a si próprio no dia em que aceitou a proposta do misterioso Andreas Corelli. Mais não posso dizer, e creio já ter dito muito... 

Confesso que o final me deixou um doce amargo. Se houve mistérios que foram minimamente desvendados, outros ainda se adensaram mais. Como leitora que gosta de descobrir a lógica dos acontecimentos narrados, confesso que este livro me deixou à deriva em muitos aspetos. Não tivesse eu esperança de encontrar respostas nos próximos livros da saga, e estaria de facto desiludida com este desfecho. Assim, só estou completamente viciada na saga de Zafón e ansiosa por ler o próximo. Se este é o objetivo do autor, prender os seus leitores desta forma tão intensa, missão cumprida. 

 

Para quem quiser confrontar as opiniões das restantes participantes deste desafio, deixo aqui a lista das meninas, a quem agradeço novamente pela oportunidade:

Magda; JP; M*Me, myself and I; Just Smile; Sofia e a Nathy

 

Espero não me ter esquecido de alguém, se sim, por favor digam-me, para eu completar a lista.

 

 

Um pontapé na criatividade

Quando fiz o curso de escrita criativa, tive a sorte de pertencer a um grupo de alunos muito boa onda. Chegaram a organizar alguns almoços para convívio dos Canecos, assim fomos batizados, almoços esses que por vicissitudes da vida não pude ir (foram sempre na zona de Lisboa e aconteceram na minha altura de desemprego, ir de Aveiro para Lisboa para almoçar não sai propriamente barato). Criámos um grupo secreto no facebook e durante uns tempos aquilo era bem animado, gente a publicar, outros a comentar, partilhas animadas...

Com o tempo foi esmorecendo. 

Semana passada um dos ilustres Canecos lançou o repto de reativar o grupo. Temos marcado um encontro online por semana, escrever uma pequena crónica semanalmente para partilhar e comentar, trocar ideias. 

Eu gosto disto. Mesmo. Mas o tema da primeira crónica é tema livre, o dia do encontro está a chegar e eu sem nada escrito para publicar. 

O meu drama da folha em branco, com um vazio imenso e um eco enorme.

Vou escrever sobre o quê? Ai balha-me o santíssimo das causas perdidas! 

Num dia de férias chuvoso

Assim que me sentei no sofá a meio da tarde, na companhia dos gatos, indecisa entre ver um filme ou ler o livro que tinha em PDF e que estava tão ansiosa por ler, a escolha não foi difícil. Descarreguei o PDF no tablet e foi começar na primeira e só parar na última página.

Já não me lembro da última vez que li assim, de uma assentada, um livro.

 

Sobrevivi

A semana passada foi esgotante. A nível emocional. O convite da sogra, a minha recusa, ele querer ir fez com que a relação terminasse. E ressuscitasse. Falámos como nunca falámos sobre o assunto. Chorámos ambos como nunca chorámos. Juntos. A compreensão da parte dele pelo que tenho vindo a acumular ao longo dos anos, como me sinto, a confissão que ele próprio já se pegou com a mãe porque ela tem de respeitar e aceitar a pessoa de quem ele gosta e escolheu apanhou-me, em parte, de surpresa, em parte não. No fundo eu sabia que ela fazia esse jogo com ele: falar mal de mim, convencê-lo que não era mulher para ele. Se na minha cara já disse e fez certas coisas, nas minhas costas então, seria mais que previsível.

Depois argumentou, como menino ferido, que já perdeu o pai e terá sempre a angústia com ele de não ter aproveitado o tempo que teve para estar com ele. Não quer que aconteça o mesmo com a mãe, independentemente do feitio dela. Nem com a avó, que tem quase 90 anos e não se sabe quando é o último convívio de família que terá com ela. Que faz questão destes convívios de família com as pessoas de quem gosta, eu obviamente incluída, e que lhe ia custar muito ir sozinho, sem saber o que dizer à avó sobre a minha ausência.

Cedi. Por amor cedi. Enterrei o machado de guerra e acompanhei-o ao almoço. Estive com a avó dele, conheci o namorado da mãe, pouco liguei à sogra, e por umas horas hastearam-se bandeiras brancas. É possível. 

Hoje tirei o dia de férias. Ele não conseguiu. Estou sozinha em casa, já despachei umas quantas coisas como estender roupa, passar a ferro, limpar cozinha. A seguir almoço e dou um salto ao supermercado. Se estivesse sol era provável ir até à praia, tomar um café comigo mesma, com o murmúrio do mar no fundo. Está de chuva e apetece-me sofá, gatos e um filme, enquanto a chuva cai lá fora e eu sinto-me em paz, depois da tormenta.

 

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