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Estórias na Caixa de Pandora

Vou-me meter em alhadas

Hoje apetece-me dissertar sobre um fenómeno da moda (pois claro), a última coca-cola do deserto, a última bolacha do pacote, o milagre da eterna juventude... milénios de história e evolução da humanidade para agora a cura milagrosa de todas as maleitas estar (rufos de tambores)... no Paleolítico.

Dieta Paleo é moda, como tantas outras dietas tiveram o seu auge e estiveram na ribalta durante o seu tempo, assim como o Bailando já foi hit de verão e o Despacito um fenómeno de popularidade. Acredito que a dieta paleo estará para a alimentação atual como o Despacito para o verão 2017.

Adiante, não me compete discorrer exaustivamente sobre o assunto. Isto é tema que dá para uma tese de mestrado, doutoramento e especializações várias. 

Já ouvi falar deste tipo de alimentação há algum tempo e sim, confesso, ao início fiquei deslumbrada com tamanha lista de vantagens e saúde para dar e vender. Comentei com a minha nutricionista que me deu logo um safanão, explicou-me umas quantas coisas e lá se foi o deslumbramento pela anunciada 9ª maravilha do mundo.

Ainda assim, curiosa como sou, lá fui pesquisando e acompanhando o famoso grupo de Facebook, Paleo Descomplicado. E como em tudo neste mundo, há todo o tipo de seguidores. Dos mais descomplicados, aos mais radicais, dos mais sensatos aos mais extremistas. 

Se sigo a dieta paleo? Não.

Se tiro ideias? Muitas.

Se é para perder 10 kg em 3 meses? Não. É porque, não tendo eu qualquer intolerância alimentar, tenho baixa tolerância a uma série de alimentos, pelo que sou obrigada a variar bastante a alimentação, tendo cuidados especiais no consumo de determinadas proteínas (glúten), hidratos (lactose) e gorduras. Desde tenra idade que devido aos problemas do meu aparelho digestivo que a minha alimentação é muito à base de carnes magras e peixes, muitos legumes, tudo grelhado ou cozido. Maioritariamente. Se me perco por batatas fritas? Sim. Se as como? Oh sim. E um esparguete à bolonhesa?? Maravilha. E um risotto? Venha ele. Sei é que se abuso, sofro consequências. 

Porque me lembrei de abordar este tema, pondo-me a jeito para ser queimada qual bruxa herege?

Ontem, estava eu em amena cavaqueira com uma amiga, tão doida quanto eu, a comentarmos os extremismos de hoje em dia, as opiniões inflamatórias que são rastilho de pólvora seca, presenteando cada dia com uma nova polémica. Começámos pelo tema da amamentação, sobre o qual ela escreveu recentemente, e como concordamos no ponto em que o problema está nos extremistas radicais, fomos alargando a lista de temas polémicos onde o extremismo é flagrante. Das bimbólicas às musas do fit, das magras às gordas (sendo que nem sempre as fronteiras de tais conceitos estão assim tão definidas e claras), das Capazes às Maries Kondos desta vida, o que não falta são grupos temáticos com potencial para alimentar e fazer crescer estes monstrinhos radicais, com opiniões extremistas sobre qualquer merda que acham a verdade universal, tão importante como a descoberta do fogo, a invenção da roda e a cura para o cancro.

E eis que aqui a Pandora se lembra da alimentação paleo, de como acha absurdamente ridículo que no tal grupo apareçam os deslumbrados principiantes com dúvidas e questões, e partilhem as fotografias das suas primeiras compras paleo e perguntem, qual crianças de três anos, se podem ou não podem. E o que me vou rindo com certas incongruências, disparates e coisas que tais.

Então vejamos: dieta do paleolítico como o próprio nome indica, é uma dieta inspirada na era do paleolítico, onde a agricultura ainda nem existia. Os homens das cavernas comiam o que caçavam e colhiam. Os alicerces desta dieta estão, então, no consumo de proteína e gordura animal (proveniente da caça) e de frutos e vegetais que colhiam. 

Leite de vaca não pode. Mas pode leite de coco, ou de amêndoa, ou de... e eu a imaginar os australopitecos a ordenhar cocos à porta da caverna.

Amendoim não pode, porque é raíz. Mas manteiga de amendoim às colheradas pode. Imagino as australopitecas com as bimbys paleolíticas a transformar as raízes em manteiga.

Farinha de trigo não pode. Um cereal com milhares de anos não pode. Ah porque a farinha de trigo é processada e tem glúten, e os paleo não comem comidas processadas... ah mas espera, e farinha de coco ou de amêndoa ou de milho, já pode?? Não passou também por um processo de transformação do alimento do seu estado original para o estado em forma de farinha? Não tem glúten. Pronto. Os paleo são todos celíacos. Paz à sua alma.

Café também pode. A sério??? É que o café data do séc. IX (d.C.).

Então e arroz?? Ahhhh arroz não pode. Ah mas espera, o arroz já existe há milénios. No 3º milénio a.C. houve uma expansão do cultivo do arroz, sendo que bem antes disso havia arroz selvagem, que os homens primitivos colhiam para alimentação.

E batata? Ahhhhhhhhhhhh batata não pode. Mas pode batata doce. É a puta da lógica da batata. Estou a ver os australopitecos na época da sementeira da batata... doce. 

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Ah esperem, nesta altura já era o homo erectus e começava a revolução agrícola (ou seria a industrial, dos alimentos processados??). Paleo que é paleo só come o que caça e colhe nas prateleiras das mercearias de bairro e mercados biológicos.

 

Ah, como são belas as mentes radicais extremistas. Qualquer dia é ver um terrorista da dieta paleo a lançar farinha de trigo pelos ventiladores de um centro comercial, e contaminar os infiéis da fast food com glúten. Ou terroristas da amamentação a lançar biberões à multidão que vai aos saldos da Zara. Ou as bimbólicas a fazerem greve de fome à porta da Worten e do Continente.

 

Nota mental: quem não souber ler este texto com a ironia que lhe está subjacente, e não interpretar como paródia, há ali em cima, canto superior direito, um botãozinho com X. É clicar, sim?! Agradecida. 

 

 

E depois das férias...

O regresso ao trabalho.

Foi mais calmo do que tinha imaginado. Ou porque imaginei uma espécie de fim do mundo, onde só me apeteceria cortar os pulsos e agrafar os olhos. 

O regresso às rotinas faz-se devagarinho, ainda em certa velociadade cruzeiro, já que outras atividades que tenho só retomam em setembro. 

Vou saboreando esta calmaria, que sabe pela vida depois da tempestade. Tempo para respirar. Profunda e pausadamente.

Retomei alguns dos meus pequenos deleites que havia deixado para trás. Ando a cozinhar com maior prazer. Regressei às leituras. Vi filmes. Tenho procurado esplanadas simpáticas e longe da confusão dos turistas de agosto para uma bebida fresquinha e dois dedos de conversa. Entro em casa e deixo de olhar para as horas, as coisas vão-se fazendo sem ser a contra-relógio. Pequenos pormenores que ajudam a gerir o stress dos últimos meses, que se acumulou e atingiu níveis pouco saudáveis. Para mim e para os que me rodeiam. 

 

 

 

Na reta final

Custam tanto a chegar e vão-se num instante. O que vale é que começo na labuta segunda, e terça é feriado. 

Não posso dizer que foram umas férias fantásticas. Não foram. Desliguei totalmente do trabalho, mas para isso também muito contribuiu a fase complicada que vivi em termos pessoais e afetivos nestas últimas semanas, esgotando toda a réstia de energia que ainda tinha. O saco vai enchendo e um dia rebenta. Rebentou em pleno início de férias, instalou-se um estado de espírito depressivo que arruinou qualquer tipo de planos, que a bem dizer, também não os havia muito.

A ajudar à festa, apanhei dias de frio e vento quando era suposto ir estender as banhas no areal e relaxar ao som das ondas, com o mar como horizonte.

Portanto não há relatos de dias de praia ou piscina, nem de viagens inesquecíveis ou leituras contagiantes. Foram dias difíceis e não vou pintar o cenário de rosa flamingo e unicórnios. As férias foram uma merda, no geral. Em particular salvaram-se alguns momentos e (re)encontros com amigos que me fazem sempre bem, regressar a locais que me são tão especiais, ainda que o estado de espírito não fosse o melhor para aproveitar esses pequenos prazeres.

O resumo mais positivo das férias é feito numa palavra: comer. Estou uma pequena bolinha, mas que se lixe. 

Agora que as coisas acalmaram um pouco e parecem seguir um (re)começo, era mais uma semaninha de férias para desfrutar da paz finalmente (espero eu) alcançada. Não podendo ser, que venha o trabalho, as rotinas, e acima de tudo que eu tenha a calma e a sabedoria necessárias para esta nova fase, este (re)começo.

Há alturas que dava tanto jeito fazer um reset à vida. Apagar, esquecer, deixar para trás definitivamente aquilo que desequilibra, desgasta, pressiona, derruba. Faz-se o melhor que se pode, o melhor que se consegue, tem-se fé nas decisões tomadas, desejando que tenham sido as melhores. O tempo o dirá.

Adeus férias, estas não deixam saudades. 

 

Isto de ir ao Alentejo...

Nem uma semana ainda se tinha passado (quase) e uma tia dos nossos amigos vê-me pela segunda vez. Com um ar de felicidade estampado no rosto, pergunta-me com entusiasmo:

- Ai, está de bebé?! (viu-me uns dias antes e não se apercebeu de nada, pensava ela).

- Ah não, isto é o resultado das migas, dos secretos e miminhos de porco preto, do pão alentejano, do queijinho, do chouriço de porco preto, do gaspacho com peixe frito, da sericaia... (e achei por bem parar porque a senhora já estava com ar de quem não sabia onde se enfiar).

Para quem achar que esta barriga é de grávida, aviso já que o pai da criança é raça porco preto alentejana. 

 

E ainda me falta ir à Feira Medieval de Santa Maria da Feira e ao Festival do Bacalhau em Ílhavo.