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Estórias na Caixa de Pandora

Não pode ser tudo mau

Tenho aquela cena chata chamada retenção de líquidos. Depois como se não bastasse, ainda tenho má circulação. Um duo perfeito para multiplicar a celulite pelas pernas acima. 

Ah sua desmazelada, gorda, preguiçosa. Bem, nem por isso. Cuidados alimentares a que a saúde obriga desde nova, não sendo fitaddict, lá vou exercitando o esqueleto, três vezes por semana (tenho falhado, por motivos profissionais, quando saio tarde e más horas, mais ko e espremida que um carapau seco). Já tomei suplementos, drenantes, cenas para retenção de líquidos, chás disto e daquilo, já fiz tratamentos, massagens, drenagens, o diabo a nove. É crónico. Ponto. Não escolhi ter celulite aos molhos e às crateras, não escolhi inchar ao longo do dia, tem piorado com a idade e com o calor, não é, de todo, opção minha ter má circulação, ficar logo com uma pisadura feia quando bato numa esquina qualquer e andar com a nódoa negra durante três semanas. Em compensação, quando vou tirar sangue, as veias notam-se bem, muito bem, tão bem que fosse eu toxicópendente tinha a vida facilitada.

Mas o criador não me podia pôr só estas coisas chatas no lombo. Agradecida, hã! Então uma das coisas boas que tenho é uma pele abençoada. Um par de horas de praia, todinha besuntada com protetor solar 50, num dia meio manhoso, que afastou da praia os menos corajosos, e já estou com um tom dourado que oh... parece que fui ao Algarve uma semana. 

 

Pandora, a devoradora de páginas

Não duraram um mês. Lidos. Um já foi emprestado, o outro já está pronto para seguir o mesmo caminho. Vale-me fazer estas trocas com uma amiga, porque é um bom vício, mas alimentá-lo a este ritmo emagrece a carteira.

E agora estou a tentar segurar-me para não fazer encomendas na WOOK, porque o que tenho em casa não me está a puxar ler. Ando viciada em thrillers e suspense. E tenho tantos na wishlist! Segurem-me!!!!

Sim, eu sei, tenciono mandar bitaites sobre estas duas leituras, mas por ora, não me apetece (aka tou sem cabeça). Ainda estou a digerir a minha voracidade.

 

Cenas que me apoquentam os neurónios por breves centésimos de segundos

Confesso que já andava para largar estas postas de pescada há vários dias. Faço-o hoje, inspirada pelo magnífico texto da MJ

Quando vegeto pelo Instagram apoquenta-me as vistinhas as 337 fotografias, todas no mesmo ângulo, só muda a cor da cueca do biquíni (quando não tiver nada de interessante para fazer, vou contar quantas cores diferentes de cueca já foram publicadas): pessoa estendida na toalha de praia, fotografa-se para mostrar ao mundo a sua barriga lisa. Parabéns. O ginásio está a fazer efeito, e eu sou a baleia gorda que olha para aquilo e pensa: foda-se, nesse ângulo até eu tenho barriga lisa (e côncava). É esticar-me bem esticadinha, encolher a barriga, suster a respiração, fazer 34 clicks, escolher a melhor foto, aplicar o filtro perfeito e mostrar ao mundo pela 338ª vez a minha fantástica barriga. Mas apreciava ver uma foto da moça sentada, só naquela curiosidade mórbida de ver se a barriguinha continua tão côncava. 

Quando vegeto pelo facebook e me aparecem selfies estrategicamente tiradas como se fosse uma fotografia que outrem tirou, apanhando pessoa desprevenida, em pose filosoficamente instrospetiva, com uma citação (pouco) profunda a servir de legenda. Qual Gustavo Santos, qual Pedro Chagas Freitas... 

As vidas perfeitas que são eternizadas numa publicação na rede social, que coleciona likes e alimenta o ego dos desesperados, ai perdoem-me, das pessoas felizes com sábias partilhas de mantras de vida.

E com este meu mau feitio eu só podia ser fã da conta de Instagram de Celeste Barber. O que me divirto com as suas paródias às publicações de gente famosa nas redes sociais. #TeamCeleste!!!! 

 

 

Keep going

Está a resultar entrar ao serviço mais cedo. Tenho chegado por volta das 8h30. Estou entre meia hora a quarenta minutos sozinha. Oriento as tarefas, organizo minimamente a agenda do dia, e começo a trabalhar sem ruídos e confusões de fundo. Quando começam a chegar, já eu estou concentrada e em pleno funcionamento, concentradíssima. 

So far so good! Os dias têm sido produtivos, objetivos atingidos e dever cumprido ao final do dia, sem que ande a sair tarde e más horas.

Ontem não houve aula de dança, a professora está num congresso internacional de salsa. Cheguei a casa por volta das 18h, relaxei, vi agenda até às férias para tratar do que tenho a tratar até lá, enfiei-me na cozinha para fazer o jantar, sem pressas, sem stress. E foi bom voltar a cozinhar com esse prazer e essa calma. Fiz umas courgettes recheadas com atum que ficaram deliciosas.

E sabe bem este poder respirar fundo e acreditar que tudo vai correr bem, mesmo quando tudo parece correr mal.

 

 

(Ir)reflexões

Terminei a semana com um peso cá dentro. Algo a sufocar-me. Uma vontade de chorar de raiva, de revolta, de stress. Uma vontade de engolir essas lágrimas, porque são inglórias.

Para não andar a matutar no que tanto me incomodava, passei o fim de semana a ocupar-me com tudo e mais alguma coisa. Limpei, arrumei, fui lanchar à praia com amigos, fui jantar ao Agitágueda com outros amigos, passei a ferro, e todos os bocadinhos que tinha livres, pegava no livro e evadia-me para outro mundo. 

Agora estou aqui com aquele ataque de ansiedade, amanhã começa mais uma dura semana, e eu a ranger os dentes com um neura descomunal por ir para junto de pessoinhas de merda trabalhar. Amanhã tenciono entrar mais cedo, antes de todos chegarem, organizar o meu dia, que não vai dar para tudo, mas aceito isso. Não aceito é que me cobrem aquilo que as outras meninas lindas não conseguiram fazer. E sinto-me num limbo. Se não consigo suportar a carga que me deram, serei a incompetente, a ineficiente. Se conseguir, seja a que custo for, então continua assim porque estás a ser capaz e ainda te podemos carregar mais um bocadinho, que é de pessoas idiotas que a malta gosta. 

Na sexta o ambiente era pesado. Ouvi comentários que me revolveram as entranhas. Respondi ácida a algumas provocações, até enfiar os phones nos ouvidos e passar a tarde "isolada" no meu canto a trabalhar feita galega. 

A vontade é entrar muda e sair calada, e começa já amanhã. Sou uma gaja muito porreira, sempre disponível para ajudar e cooperar, mas quando me lixam, quando me pisam os calos, oh não me queiram ver. Não é uma ameaça, é um aviso.

Faltam três semanas para ir de férias. Por isso é inspirar, expirar, esforçar-me por não pirar... esperar para ver quanto tempo dura o tal "provisório", definir bem quais são as minhas funções, e a manterem-se as que têm sido e que motivaram o meu recrutamento para aquele setor, então tenciono solicitar mudança de gabinete e ir para junto da pessoa com quem realmente tenho trabalhado em equipa nos últimos meses, cujos resultados positivos estão cada vez mais à vista. Por isso não entendo esta treta de me atirarem funções das outras, porque coitadinhas, não conseguem. E hei-de eu conseguir acumular funções distintas, de diferentes áreas de intervenção, e ter de dar vazão a tudo e mais um par de botas até quando? E esperam qualidade? Ah ah ah ah

Estou deveras chateada por me estar a sentir assim. Eu que sou pelo bom ambiente de trabalho, pelo coordenar tarefas em equipa, pela interajuda. Só que não se pode remar contra a maré, quando se trabalha com pessoas para quem o trabalho em equipa é algo deste género:

 

Preciso de coragem para enfrentar os dias que aí vêm, mergulhar no muito que tenho em mãos para fazer, dar o meu melhor, e conseguir chegar ao fim do dia de consciência tranquila de quem fez o que podia, o melhor que sabia. Sem sorrisos, sem simpatias, até porque de pouco valem quando temos um alvo nas costas sempre pronto a levar com a facadinha. 

 

Absurdamente cansada

A esta altura do campeonato as redes sociais enchem-se de fotos de férias: praia, piscina, comidas apetitosas, bebidas exóticas, paisagens deslumbrantes, todo um slogan ao dolce fare nienti...

Para quem ainda anda na labuta, são imagens que fazem exasperar um monge tibetano. 

Eu entrei no modo contagem decrescente, a ver as férias ao longe, por um canudo, ainda tão distantes, e a aproximarem-se, dia a pós dia, a passo de caracol. 

Piora quando os dias se tornam estupidamente longos, exaustivos, quando regresso ao ritmo de não ter horas para sair, como hoje, que saí às 20h. Chego a casa tão derreada e ao mesmo tempo tão frustrada comigo mesma, por me sentir sem tempo para mais nada que não seja trabalho e trabalho e trabalho. Gandhe vai desenrascando os jantares quando eu venho tarde e más horas, o que diga-se a verdade, tem sido quase todos os dias. Agradeço a ajuda, claro, mas ao mesmo tempo há aquele sentimento de incapacidade, de não ter como conseguir pôr a mão a outras tarefas. Falta-me energia para tudo o resto depois que pico a hora de saída. Tenho um sofá novo e ainda nem desfrutei de um serão descontraído no seu conforto, tenho um livro, que andava ansiosa para ler, lido aos tropeções lentos, com direito a cabeça a tombar de sono e olhos a pesar de cansaço. Tenho vontade de fazer coisas no fim de semana, aproveitar as inúmeras atividades que proliferam no verão, mas só desejo, como se a minha sobrevivência disso dependesse, dormir e dormir e dormir. Sinto falta do blog, só que não chego para tudo, muito menos para discorrer banalidades ou opiniões, como quem vai ali à esplanada beber uma mini e bater um papo descontraído com amigos.

Obriguei-me a este desabafo hoje, que me sinto absurdamente cansada e afundada. 

Ontem fui informada pela minha superior que iria acumular funções, "provisoriamente", coisa de uma semanita (ah ah ah), para ajudar as colegas da equipa a despachar processos que estão acumulados, a bater nos limites dos prazos, e que precisam urgentemente de ser tratados. O meu serviço iria ficar parado por "uns dias". Depois, vai-se a ver e não dá para ficar assim parado, a marinar no nada. Então de manhã faço trabalho que compete às colegas, à tarde o meu. 

Não sei se ria ou se chore. Ou se dê um pontapé a alguém quando vejo uma delas a desfilar pelos corredores na converseta, ou a chegar às 10h e a sair cedo, porque "ai tenho de ir ao ginásio", ou a navegar pela net a ver saldos ou viagens para férias... lá diz o povo que quem se f...lixa é o mexilhão. 

Para ajudar o belo estado de espírito que paira por estes lados, está a chover e a trovejar. E eu que tencionava estender as peles e a celulite na praia este fim de semana, estou a ver-me estendida no sofá novo, a tirar-lhe as medidas e a fazer-lhe o devido teste de qualidade, com a intenção de ver um filme ou ler o livro, mas sei que em menos de nada vou cair que nem uma pedra e babar a almofada.

E por falar em almofada, vou ali encontrar-me com a minha.