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Estórias na Caixa de Pandora

A minha vida é um livro!

Estou eu ainda em velocidade cruzeiro, que isto de estar de férias e desligar por uns dias é bom, mas o regresso à realidade e à rotina é como uma rajada de vento frio nas trombas, quando me deparo com um desafio, mas um senhor desafio, da sô dona Mula.  

E que desafio é este, Pandora, que te deixa de dedos trémulos?!

Bonito serviço. Por acaso tenho a tarefa facilitada, que só li doze livros. Agora lembrar-me da ordem cronológica pela qual foram lidos? Construir uma história usando os seus títulos? Depois de ler a magnífica prestação da Mula, a fasquia está ao mais alto nível e eu, bem, vou esbardalhar-me de certeza. Mas raios ma partam se não aceito o desafio. Bora lá.

 

A Sombra do Vento faz-se sentir pelas ruas sombrias, desertas, na neblina da noite. Arrepia a alma, faz tremer os lábios e o coração. Esfrego vigorosamente as mãos, numa vã tentativa de as aquecer. Ou de afastar este medo que me paralisa. O Jogo do Anjo é aterrador. Uma contradição, por si só. O que se esperaria de um anjo? Certamente não seria este imbróglio, este quebra cabeças que destrói almas. Em certos instantes sinto-me insana, louca. Se contasse a alguém acho que me iriam mandar internar, ou consultar um psiquiatra, que estava doida, com alucinações. Diriam até que sofro de esquizofrenia. Em certos instantes eu própria acredito nisso. Quem no seu juízo perfeito acredita que há O Prisioneiro no Céu? Toda a gente sabe que vivemos Debaixo de algum Céu, eles, comuns mortais, gente banal, de vidas banais. Louco é o que acredita que há mais para além disto. Louco ou cristão, o que na minha visão herege, são sinónimos.

Penso em Alfie, o Gato do Bairro. Acalmo-me. Ele ouve-me sem me lançar olhares de represália, ouve-me sem me interromper ou me julgar. Acredito que me entende e não me acha louca. Mas bem vistas as coisas, que serei senão uma louca? Tenho um gato por confidente, único amigo e companheiro. Pelo menos é mais seguro que o confessionário. Só a ele contei o segredo sobre O Amante de Lady Chatterley, e nunca ninguém soube. Pelo menos até rebentar a escandaleira, mas nada tenho a ver com isso. Nem o Alfie. Quem me dera ser A Última a Saber. Mas não, este dom de saber sempre, antes de todos, antes mesmo de acontecer, isto não é dom, é maldição. Vale-me julgarem-me doida, uns poucos acham que sou bruxa, não que acreditem nelas, mas que as há, ai isso há, vivesse uns séculos antes e era queimada na fogueira da Inquisição.

Um Gato, Um Chapéu, Um Pedaço de Cordel, que mais precisa uma feiticeira dos tempos modernos? Um gato para confidente, um chapéu, como resquício hereditário das suas antepassadas, um pedaço de cordel para tecer as linhas do destino, do que ainda não é e para mim já foi? Quase fui descoberta n' O Jogo de Ripper. Mea culpa, que não sei ignorar este dom maldito. Envolvo-me nestes perigosos e pouco inocentes jogos e quase sou descoberta. Não sei o que seria de mim se percebessem quem sou de verdade. A única pessoa que o soube foi a que me matou por dentro. Deixei-te Ir. Não podia correr o risco que fosses punido por aquilo que eu sou e não escolhi ser. Só que isso não atenuou o abandono a que me lançaste, esse desprezo, quase nojo, quase ódio. Eu sei, não compreendes. É difícil. Não condeno. A História do Amor ficou perdida, suspensa na eternidade daqueles centésimos de segundos, desfeita em partículas espalhadas na poeira cósmica da noite. Nessa fatídica noite em que me mataste, dancei com os meus Sapatos de Rebuçado. Dancei pela noite de lua cheia fora, dancei até perder noção do tempo e da noite, dancei até derreter os sapatos e ficar com os pés cobertos de terra pegajosa. Dancei para renascer dessa morte, desse fogo que me consumia as entranhas, dancei até me evaporar na neblina do amanhecer. Agora vagueio por este Labirinto de Espíritos. Tão perto do fim, tão longe de querer chegar ao fim. Não sei se vivo ou se morro, se sobrevivo ou se pressinto. O futuro é um nevoeiro cerrado.

 

 

E já está. Desafio cumprido. Até transpiro suores frios. Só uma nota de redação, o livro A História de Amor foi lido a custo, não sei bem se a ordem cronológica estará correta, mas não anda muito longe. Não tem link porque foi uma leitura tão estranha, que me deixou num certo limbo e por isso nem fui capaz de escrever sobre essa mesma leitura. 

 

Vou fazer batota e não cumprir o último passo. Tenho leituras da blogosfera para pôr em dia, pelo que não tenho noção de quem  já foi desafiado ou já prestou resposta ao desafio. 

 

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