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Estórias na Caixa de Pandora

Abrir a Caixa de Pandora

Ando ausente, desaparecida, recolhida nas minhas angústias existenciais.

Ando reprimida, ferida, perdida nas minhas dúvidas sobre o que fazer à minha vidinha.

Começo a ver o pessoal a fazer o balanço do ano e eu só penso que o meu 2017 foi um ano filho da puta. Já tive anos piores, verdade. Assim, de repente, lembro-me que o ano de 2013 foi negro, muito mau, repleto de acontecimentos tristes, marcado por desemprego prolongado, doenças e perdas de pessoas, quer por falecimento, quer porque se cortou relações que não traziam nada de bom. Foi um ano cabrão, como me lembro de o ter rotulado.

2017 foi marcado por uma mudança de funções e de equipa de trabalho. Desencadeou ataques de pânico e ansiedade, passei a viver sob stress constante, deixei de ter hora de sair e tenho vindo a prejudicar muito da minha vida pessoal e do meu equilíbrio mental e emocional. Remuneração? Ah ah ah... a mesma, mais congelada que o Pólo Norte na era do gelo. Aliás, o salário mínimo acabou de subir e estou expectante de ver se na próxima subida apanha o valor do meu auferimento, tal é a proximidade. 

Entrei numa espiral descendente e a levar tudo de arrasto, qual avalanche. Sinto-me cansada, exausta mesmo, sem pontinha de energia para o que quer que seja. Sinto-me frustrada por tanto trabalho e luta para andar a pagar contas e contas e mais contas, e ainda me aparecem em casa as dívidas dos outros. Sim, porque também no arranque deste ano entrou-me pela caixa de correio adentro um aviso do tribunal sobre a penhora de metade da casa da sogra. Ora, por motivos que lhe foram alheios, a sogra pôs, há dois (ou três) anos, a casa em nome dos dois filhos. Agora a metade que pertence à filha querida foi penhorada por dívida à banca. E o tribunal envia cartinhas ao co-proprietário do imóvel. Cai-me assim uma bomba quando andávamos precisamente a pensar em investir num apartamento maior ou quiçá numa moradia. Até já andávamos com o olho numas moradias térreas que começaram a ser construídas perto de onde moramos. Arruma planos para o lado. Semanas a fio vivi com um peso no peito de ver quando é que recebíamos uma intimação qualquer que nos obrigasse a comprar a parte da casa penhorada. Ah e contar à sogra? Nem pensar. A senhora sofre do coração e se soubesse que tem parte da casa penhorada ainda lhe dava um treco. Eu receava mesmo era que choramingasse para o filho comprar a parte da irmã. É. Andar a comprar metades de casas por causa das dívidas dos outros e para outros morarem. Foram semanas que vivi num estado lastimável, a bater com a cabeça nas paredes. Entretanto, a ausência de mais comunicações judiciais e a parca informação da riqueza da cunhada sobre estar a tratar do assunto ajudaram a que os animos serenassem. Ainda assim, em constante sobressalto, à espera de nova bomba a qualquer momento.

A relação entre mim e o Gandhe já viu melhores dias. Houve crises, sim, foram existindo as chatices comuns de uma relação entre pessoas com as suas diferenças, mas nos últimos meses, talvez fruto deste enorme cansaço de tudo que tomou conta de mim, eu ando a matutar o que fazer, se vale a pena manter esta relação ou ficar sozinha, por conta e risco. O que não quero de todo é manter uma relação porque convém, porque dá jeito para dividir despesas, porque ia ser uma dor de cabeça vender apartamento e dividir bens e mimimimi. Porque eu não tenho ninguém, não tenho família a quem recorrer, não tenho uma casa materna ou paterna onde possa pedir refúgio. E já lhe disse isto tudo e ele ficou em estado de choque. As coisas entre nós têm andado num limbo, desde o verão e as malfadadas férias. 

E quando uma pessoa tenta recolher os cacos porque é mais que hora de retomar caminho e ir à luta, recebo a notícia que a minha avó materna faleceu e há uma porta que de repente se abre e me empurra para um regresso a uma família que não via há mais de quatro anos.

O reencontro com a minha mãe foi estranho. Pouco falámos das nossas divergências, mas deixei bem claro que tenho mais de 30 anos, sou adulta, independente, dona da minha vida e que já chega de humilhações e insultos e acusações. Ela engoliu em seco. O resto de conversa foi sobre a minha avó e os dramas que já tinham começado por causa da herança. Dramas dos quais me afastei logo porque disse que os herdeiros são os três filhos e são eles que têm de se entender. Netos e genros/noras não têm de meter o nariz.

Vivi os dias seguintes ao funeral num estado de apatia. Uma sensação de vazio, de fragilidade de quem viu a sua fortaleza de cartão ruir em menos de nada. Um medo do que estaria para vir, agora que essa porta se abrira.

Voltei aos poucos à rotina, trabalho e mais trabalho, o stress dos dias compridos, cheios, na correria do costume, que me ocupa e me esgota.

Ah, e o natal que se aproxima. Começo a fazer planos para ficar em casa, a dois, sendo que os dois é o que está, e quatro gatos. Ainda assim, receio algum convite de última hora, seja da parte da minha família, seja da sogra. Não me apetece nada fazer fretes e entrar em hipocrisias. Começo a querer combinar as coisas com ele. O que faço para jantar, para o almoço do dia 25. Como não tenho muito jeito para doçarias, podíamos encomendar fora uma ou duas sobremesas, pouca coisa, somos só nós. E ele nada, provavelmente à espera da mãezinha querida. Mas mãezinha querida já o excluiu. Diz que não anda muito bem, que não quer fazer nada para o natal. Curioso. Volta a repetir a história quando não tem mais ninguém. Se tivesse outros familiares para receber no natal, então já éramos gente para também sermos incluídos. Pelo menos ele já se mentalizou que olha, afinal também só me tem a mim e já planeou comigo o natal a dois.

Começo a respirar de alívio por não haver sinais da minha mãe. E eis que recebo um telefonema da minha prima. Congelo. Medo de um convite que não quero que venha, que não sei como recusar. Respira, Pandora. Afinal só te ligaram para que resolvas uma parte da herança que ninguém quer: o cão da velhota. Enquanto andam às turras com o dinheiro e as contas, com a madeira e os pinhais, com as propriedades e a casa e o recheio, a mim atiram com o problema do cão. 

 

E de repente é assim que me sinto: como o cão que ninguém quer, mas falta coragem para abandonar.

 

 

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