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Estórias na Caixa de Pandora

Alegoria

Imaginem-se num piquenique. Um agradável dia de sol, bons petiscos, bom convívio, conversa fácil, sorrisos bons. E depois vem uma pequena brisa, que ao inicio refresca, mas vai subindo de tom ao ponto de virar os copos, a toalha, deixar-nos de pele arrepiada. Entretanto apareceu uma formiga, atraída pelos petiscos. Não se liga nenhuma, é só uma minúscula formiga, não vale a pena dar importância. Atrás dessa formiga, outras se seguem e quando damos conta, estamos a bufar formigas de cima da toalha, com vontade de as regar com álcool e acender um fósforo. Entretanto vem um mosquito zumbir. Não ligamos, um mosquito não incomoda assim tanto. Depois vem outro, e outro, quando damos conta, andamos a bufar às formigas, à chapada aos mosquitos, com vontade de pulverizar tudo à nossa volta com mata insectos, mata formigas... mas há que ser resistente e não deixar que estas pequenas coisas estraguem o agradável piquenique, certo? Há que fazer sacrifícios, esforços por um bem maior, não deixar que pequenas coisas estraguem o que realmente importa.

Até que depois da brisa, das formigas, dos mosquitos, vem aquela nuvem, primeiro encobre o sol começa a escurecer, a ficar cada vez mais carregada, e uma pessoa farta de ter pele de galinha, bufar às formigas, andar à chapada aos mosquitos, pondera se não será melhor arrumar as trouxas e desistir do piquenique, antes que desabe uma carga de água.

Para quem não perceber a alegoria, é ler as palavras que a M.J. tão habilmente escreveu, na ignorância que eu, ao lê-las, me visse de alma despedida a um espelho. As palavras que há dias remeti para um silêncio, porque estava demasiado cansada de afastar mosquitos e formigas da minha vida, sem saber se valia a pena manter o esforço do piquenique, ou arrumar as trouxas.

As pequeninas coisas, por mais insignificantes que pareçam, não matam mas moem. E quando repetidas e repetidas, mesmo depois de já terem levado um aviso, começam a encher o saco, a paciência, começam a dar cabo dos nervos e da vontade de fazer um esforço por um bem maior. Porque uma formiga é inofensiva. Já todo um formigueiro é outra conversa. 

 

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