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Estórias na Caixa de Pandora

Chama-lhe Amor

Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas. (Bernardim Ribeiro).

Para falar do livro da Vera eu poderia começar por parafrasear as palavras de Bernardim Ribeiro e dizer que das memórias não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas. É um livro de memórias. Escrito num registo de diário, narrado por um narrador personagem, protagonista, que centra em si a narrativa de memórias escritas com lágrimas e angústia. Não é um livro que se leia como quem bebe, sôfrego, um sumo fresco para saciar a sede. Mas lê-se, eu pelo menos, como quem bebe, no silêncio da penumbra, um chá quente, fumegante, que aquece as mãos, e bebe-se com a calma de quem tem a eternidade do momento para o saborear, gole a gole.

A narrativa da Vera faz-me lembrar um autor que estudei e pelo qual me apaixonei: Vergílio Ferreira. Mestre desta narrativa de memórias, relatos de um eu que procura ansiosamente na escrita o sentido da vida, a ordem das ideias, já que os sentimentos não se ordenam, não se controlam, num caos interior de um eu narrador que busca desesperadamente a sua paz interior. A história não tem começo, meio e fim. O leitor vai juntando as peças da história como um puzzle, conforme o narrador vai partilhando as suas memórias, nos intermeios dos seus sentimentos. Uma vez mais, Vergílio Ferreira é mestre nesta técnica narrativa: contar uma história desordenada, ao sabor das memórias, das tristezas e alegrias, cabendo ao leitor avançar e recuar, fixar trechos e ordenar os factos. A Vera está muito próximo desta mestria. 

Li o livro da Vera sem pressas, voltei atrás várias vezes, avancei, ficava a pensar. Deixo alguns excertos que me prenderam a atenção. Que desperte a curiosidade de quem ainda não leu. 

 

Brindamos ao esquecimento?

(...)

E neste momento já nem sabemos quem somos e limitamo-nos a viver, um dia atrás do outro, julgando claramente que esta é a melhor forma, a única que conseguimos.

Podemos acordar todas as manhãs a seguir, sempre, um dia e outro e ver a vida, a fugir-nos entre os dedos Até que julgamos ter encontrado o sentido.

 

Porque é de noite e só me lembro, neste momento, vasculhando as caixas antigas da memória, forrada com tecidos coloridos, às bolinhas de arco-íris, tu, eu, nós, em círculos pela vida. E tu eras tanto. Tu eras tudo. Tu eras a plenitude da existência que eu tinha. Eu era a louca, e a dançar agora, nesta sala, com o copo de sangria quase no fim, a chuva a bater na janela, dou-me conta, repara que te perdi.

 

Fiquei triste. Muito triste. E mesmo sabendo que a minha tristeza não interessa, num mundo tão cruel onde a tristeza se espalha nas pessoas como nevoeiro de amargura, o certo é que a minha tristeza me dói a mim.

 

Doente ou azedo é aquele que nunca amou o impossível. Que nunca saiu de si mesmo, como tu, sim, sabes bem, como tu, amando outro ser mais que a si mesmo. Sem pedir nada senão essa possibilidade de amar.

 

chama-lhe amor

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 Que seja o primeiro de muitos. Porque uma escrita assim, uma capacidade narrativa destas, não deve ficar fechada nas sombras do anonimato, no fundo de uma gaveta.

 

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