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Estórias na Caixa de Pandora

Divã de Pandora (ou mais um desabafo digno do muro das lamentações)

Na sexta bati recorde. Saí do trabalho já passava das 19h30. Ironia é que nesse mesmo dia entrei mais cedo para adiantar serviço, uma vez que ia ter uma formação/reunião de 1h30 à tarde. O trabalho é mais que muito e eu ainda a sentir-me limitada no exercício de funções, a reunião, no âmbito do método Kaizen, atrasou e já acabou fora de horas, e, saída da reunião onde aproveitei para esclarecer umas dúvidas, fui corrigir o preenchimento do meu mapa de serviço, que andava a preencher mal. Ora, quando eu coloquei as dúvidas as chefias viraram-se para as minhas colegas como se elas é que tivessem obrigação de me dar formação sobre o funcionamento do mapa de trabalho e seu preenchimento. Saí em defesa delas, que sim, elas explicam, mas as dúvidas vão surgindo conforme as diferentes situações, e o que é certo é que no fundo, cada uma preenche o dito mapa conforme o que lhes parece melhor. Resultado: não há formação para haver uma norma generalizada e comum a todas as pessoas, é o desenrasca, e ainda nos caem em cima porque não é assim ou assado. 

Cheguei a casa esgotada. Completamente esgotada. E a minha prioridade era mesmo desligar o fim de semana. E desliguei. Tanto quanto pude. Mas vem agora a noite de domingo e já sinto aquele aperto por amanhã estar a picar ponto e ter mais um dia de doidos pela frente. Já estou aqui com as ideias num rodopio a tentar organizar as tarefas, começar por concluir o que não consegui na sexta, depois tratar daquele processo, mais o outro, reunir à tarde com o Sr. Eng. coordenador, saber que assim que entro no gabinete dele não tenho hora de sair e, pior, se ele achar que aquele assunto é ultra urgente, quer tudo feito para ontem, sem ter noção das horas.

E eu sabia. No dia que me anunciaram a mudança andei duas semanas em sofrimento silencioso porque eu tinha uma perceção do que me esperava. Afinal, aquela equipa trabalha na sala ao lado de onde eu estava, e havia (e há sempre) situações em que é preciso apoio de outras equipas de outras áreas, e vimos como ali funcionam (ou não) as coisas.

Mais uma vez recorro ao blog como muro das lamentações. Um desabafo. Um grito que é libertado no silêncio da escrita para me aliviar este stress em que agora vivo dia após dia. Tenho de reaprender a relativizar, a gerir esta carga de stress, tenho de encontrar os meus escapes às horas de trabalho completamente alucinantes que agora tenho. Se antes conseguia umas escapelas refrescantes ao blog, aos outros blogs, agora confesso que tenho tardes que nem paro para lanchar ou só vou à casa de banho quando já não aguento mais a bexiga a explodir. E mesmo assim... saio tarde. 

É sobejamente conhecida esta característica no mundo profissional português: somos dos países com maior carga horária e menor produtividade. E se há casos em que as pessoas andam a fazer ronha o dia todo e só ao fim do dia é que trabalham, porque até fica bem na ficha profissional sair fora de horas, também há realidades em que os procedimentos são tão cheios de merdinhas que só empatam em vez de agilizarem. E na minha realidade atual é este o caso. São tantos procedimentozinhos da treta que só empatam. O Sr. Eng. dita-me um e-mail, urgentíssimo. Mas mesmo tendo-o ditado, quer vê-lo antes de ser enviado. Qualquer correspondência que saia para um cliente tem de ser validada e assinada superiormente, qualquer uma, mesmo a mais banal, corriqueira e inócua, como um agendamento ou um cancelamento de serviço. Há casos importantes que justifica esta validação, mas outros há que é puro desperdício de tempo, e o tempo é precioso e escasso. Mas é assim. E confesso que isto me faz sentir burra. Parece que mesmo a escrever um mail que me foi ditado, o mesmo tem de ser revisto, como se eu estivesse na escola primária e a professora fosse verificar os ditados a ver se havia erros. Começo a duvidar que saiba escrever o meu próprio nome. E toda esta realidade ultra burocrática numa empresa que abraçou o método Kaizen, a filosofia 5 S's para agilizar procedimentos e eliminar desperdícios. Só me apetece rebolar no chão a rir com a hipocrisia. 

E amanhã é segunda e começa tudo de novo... vale que terça é uma espécie de feriado, sempre alivia um pouco a carga. 

Aos leitores, amigos e simpatizantes aqui da Caixa, as minhas sinceras desculpas. Pela ausência e por, quando até aqui venho, desfiar o rosário. Já faltou mais para o blog mudar de nome. O Divã de Pandora ou o Muro das Lamentações de Pandora seria mais adequado, não?!

 

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