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Estórias na Caixa de Pandora

O Amante de Lady Chatterley

O_amante_de_Lady_Chatterley_2016

Um clássico da literatura mundial, que estava nos meus planos de leitura há muito tempo. Recentemente, a propósito de um leilão solidário, arrebatei-o e não esperei muito para o ler.

Não é um romance histórico, mas é um romance de época, pelo que o que mais gostei do livro foi, efetivamente, todo o contexto sociocultural da ação narrativa. E depois, há que ter em consideração a época em que foi escrito, a época da narrativa, para compreender à luz da cultura e sociedade da época o que nos é narrado e o porquê deste livro ter sido censurado e proibido, por ter sido considerado obsceno para a sociedade preconceituosa da época. 

A história passa-se na Inglaterra de início de Século XX, durante e pós I Guerra Mundial, uma Inglaterra em profunda transformação económica, já que as grandes explorações agrícolas deram lugar à extracção mineira e ao desenvolvimento da indústria. Uma Inglaterra onde as elites intelectuais e culturais procuram sobressair na sociedade com as suas obras e ideias liberais, ainda que em confronto com os próprios valores morais tradicionais. Vive-se um período de transformação a vários níveis, vive-se as consequências da Guerra. Lady Chatterley, uma burguesa criada numa família liberal, encarna a mulher feminista, intelectual e culta que luta pelos direitos e igualdade das mulheres. Ou essa é a expectativa quando, no arranque da narração, conhecemos Connie na universidade, a viver uma vida livre, despreocupada, cheia de ideais de juventude e aventuras amorosas despreocupadas. Mas Connie acaba por casar, e poucos meses depois recebe o marido que regressa da guerra inválido. Muda-se com o marido para a propriedade rural da família dele, da qual ele é herdeiro e proprietário de minas de carvão. E a agora Lady Chatterley enterra-se viva numa casa que a sufoca, com um marido que mais do que inválido, é egoísta e prepotente, centrado tão em si e na sua busca pela fama e reconhecimento como escritor e inteletual da época, a par da sua veia de industrial que começa a despertar. Das tertúlias culturais com o círculo de amigos inteletuais, Lady Chatterley cinge-se ao seu papel de esposa presente, mas discreta, sem opinião ou voz própria, pelo menos expressa, já que os seus pensamentos chegam ao leitor e percebe-se a mulher em sofrimento. Lady Chatterley é uma mulher em conflito interior. Sentindo-se sozinha, abandonada pelo marido que não consegue ver nada além de si próprio e das suas necessidades, ela acaba por procurar um sentido para a sua vida: o desejo de um filho, que obviamente o marido não lhe pode dar. E aqui começam as aventuras amorosas. 

Há algum erotismo, sim, mas não com a intensidade ou pormenor descritivo que conhecemos dos dias de hoje. Há o conflito moral do adultério, ainda que supostamente consentido, desde que seja discreto, há a necessidade de procurar um sentido para a vida, que passa pelo amor como uma fusão física e espiritual, numa entrega e comunhão totais. 

No geral achei o livro aborrecido. As tertúlias dos inteletuais faziam-me revirar os olhos, já que o que ali estava era um grupo de meninos mimados, pertencentes a uma elite, que debatem temas variados com argumentos rebuscados, mas pouco coerentes. A protagonista é uma mulher de contradições, a personagem que tinha tanto potencial para ser memorável, acaba por se perder numa série de incongruências. O suposto tórrido romance com o seu amante, por quem se apaixona e engravida, é também cheio de momentos incongruentes, discursos inverosímeis, repletos de ideologias, mas pouco sustentados, tornando-me diálogos que, a meu ver, eram absolutamente ridículos. 

E depois o desfecho foi uma espécie de nim. Lady Chatterley decide abandonar o marido e juntar-se ao homem que ama e de quem espera um filho. O marido não lhe dá o divórcio, por despeito, creio que não tanto por ter sido traído, mas porque ela o queria trocar por um empregado, nível social inferior. Ela regressa para casa da família, enquanto aguarda que o homem que ama se junte a ela, já que também ele se encontra em processo de divórcio. E no fim temos uma carta dele para ela em que fala, fala, fala, fala e não diz nada de significativo que nos revele como "acaba" a história. 

Não fosse esta minha teimosia de não desistir de um livro, e este teria ficado pelo caminho. Assim, é só um daqueles que tinha tanta vontade de ler e ficou uma amarga desilusão.

Venha o próximo, que recebi este fim de semana como prenda de aniversário de uns amigos, e pela sinopse já me deixou entusiasmada.