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Estórias na Caixa de Pandora

O Livro dos Baltimore

O_Livro_dos_Baltimore_2017

Quando me anunciaram a mudança de funções, quando efetivamente mudei de equipa de trabalho e de funções, fiquei de tal maneira absorvida que, apesar da enorme vontade de ler este livro, não andava com cabeça para nada, incluindo leituras. Escolhi este livro para suceder ao magnífico O Labirinto dos Espíritos de Zafón porque acreditei que não me iria desiludir. Não é fácil ser o sucessor de mesinha de cabeceira de Zafón. 

De Joël Dicker li A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e adorei. Lendo tão boas críticas ao autor e a este último livro dele, foi a minha escolha para leitura pós Zafón. E foi uma boa escolha. Demorei a pegar nele, mas quando peguei, não larguei. Acabei-o ontem, perto das 2h da manhã, mas eu estava tão embrenhada na leitura, tão absorvida pelo desenlace do enredo, que só consegui parar na última página. O que calhou bem, porque amanhã vou almoçar com a amiga que mo emprestou e assim já lho devolvo.

Ora bem, Dicker e Zafón têm escritas totalmente diferentes. Quando comecei a ler O Livro dos Baltimore senti que a linguagem e o estilo eram demasiado simples, comparativamente ao que tinha lido de Zafón. Mas essa escrita fluída, simples, também agarra o leitor pela proximidade que cria com ele. Porque é simples de ler, porque flui, porque nos sentimos próximos do universo e personagens que se vão revelando página após página. Depois a história é tão verosímil, que facilmente somos transportados para o seio das personagens, nos sentimos parte do seu núcleo, quase como confidentes silenciosos, que partilham as mesmas dúvidas e emoções. 

Dicker tem revelado uma mestria na manipulação do tempo narrativo. Os sucessivos avanços e recuos no tempo que permitem que sejamos espetadores de um tempo presente e um passado que se vai revelando, num crescendo gradativo até atingir o clímax das grandes revelações e deslindar de mistérios.

O Livro dos Baltimore não é um policial ou um livro de ação e suspense, como A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert. É um livro de memórias, um livro de família, com os seus momentos de tensão, de ternura, de paixão, de conflito, de união, de amizade, de amor. É uma história que explora o equívoco: o que cada um pensa sobre o outro ou sobre as situações do outro, alheio ao que é realmente verdade, acabando por se gerar um grande equívoco. São as meias verdades, os segredos, as ideias pré concebidas, aquilo em que cada um acredita como sendo a verdade, mesmo que esteja longe dela. Os equívocos gerados pelas omissões, pela ingenuidade, pelas emoções que falam mais alto que a razão. Os equívocos que podem levar a tragédias, que poderiam ter sido evitadas se... 

Uma história de relações de amizade, de família, de amor, de fraternidade, de ódios e invejas, de ciúmes e (in)fidelidade. Uma história que pode ser a de qualquer um de nós, mesmo sem um grande drama que vem destruir toda uma vida aparentemente perfeita e feliz. E deixa-nos a pensar em como nós, humanos que somos, feitos de emoções, com laços afetivos com outras pessoas, também podemos cair naqueles mesmos erros, por causa de equívocos, de verdades parciais e superficiais, qual ponta de iceberg, onde só se conhece uma pequena superfície e se ignora toda uma profundeza. 

Gostei. Muito. E agora o difícil é escolher o próximo. 

 

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