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Estórias na Caixa de Pandora

Os sonhos têm limites

Sim, é verdade. Os sonhos também têm limites, ou pelo menos para pessoas como eu, e o Gandhe, nós que até somos muito diferentes em muitas coisas e tão iguais em algumas outras, que gostamos de ter os pés no chão e a cabeça no lugar. 

A viver uma estabilidade profissional que até então não tivéramos, da minha parte, Gandhe fechou o ano com o lançar um sonho antigo dele para o plano do projeto num futuro não muito longínquo. E se comprássemos uma casa?

Aquilo deixou-me a matutar. Eu que até estou tão bem no meu T2, que não sonho com uma grande moradia, que pode ter muito espaço e tal, mas também mais trabalho e despesa, mas porque não? Não precisa ser uma casa enorme, se fosse térrea era perfeita, com um pequeno quintal para desfrutar de uma churrasqueira e espaço exterior, com privacidade, com mais espaço, mais arrumação, quiçá uma divisão toda dedicada aos gatos... porque não? Começamos a investigar as ofertas imobiliárias na zona, dentro dos nossos valores realistas, dentro das características desejadas por ambos. E encontrámos algumas boas opções. Passo seguinte, informarmo-nos sobre as atuais condições de crédito à habitação, até porque em quase nove anos, desde que fizémos o nosso para o apartamento, que muita coisa mudou. E aqui foi o balde de água fria, previsível, mas não deixou de ser balde de água fria. Financiamentos até 80%, num máximo de 30 anos, obriga a ter 20% do valor de compra do imóvel disponível para entrada, acrescentando o valor da escritura. Ora, não somos ricos, não temos ajudas parentais a nível económico (nem a outro nível qualquer, mas isso agora não interessa nada), teríamos de vender o apartamento de forma a cobrir a hipoteca atual, e dado o valor de mercado, não ficaríamos com muito dinheiro na mão para novo investimento, com as condições muito limitadas do crédito à habitação, lá se foi o sonho, quase projeto para 2017, da compra da casa. E até já a tínhamos encontrado. Perfeita para nós, reunia o que gostamos e pretendíamos numa casa.

Se estamos descontentes com o nosso apartamento? Nada. Seria perfeito e não nos faria equacionar mudar se tivesse mais um quarto. Um T2 dá para nós enquanto casal, para os quatro gatos. Temos o privilégio de morar numa zona sossegada, de estar perto de tudo o que precisamos, incluindo empregos, de termos divisões com excelentes áreas e um terraço enorme com vista para um jardim. Na eventualidade de um filho, sim, há quarto para ele. Mas há sempre aquele "ah, um terceiro quarto dava jeito". Mais arrumação também, embora eu tenha a teoria que quanto mais despensas, arrumos, arrecadações uma pessoa tiver, mais tralha acumula, coisas que não se usa, não se precisa, e ali estão, a ocupar espaço e a fazer ruído visual. 

Não nego que ficou aqui um certo sabor agridoce. Não estamos nada mal, não senhor, mas podíamos ir para "melhor". Só que não se pode ter tudo o que se quer, portanto, 2017 será ano de investir no T2, reorganização de espaços e novas mobílias, já que numa nova casa nos parece missão impossível, pelo menos para nós, pessoas com os pés assentes na terra, conscientes dos riscos e das limitações. 

Há sonhos que têm limites. Um dos nossos tem limites bancários. Paciência. 

 

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