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Estórias na Caixa de Pandora

Pandora em introspeção

Hoje foi dia de aula de dança. E eu estava mesmo a precisar de desligar a cabeça das ansiedades e medos que hoje me assaltaram a alma. 

A dança é uma metáfora da vida. Aprende-se a identificar o ritmo da música, a marcar os passos seguindo os tempos, coordenar movimentos de pés, braços, corpo, aprender, repetir, repetir, repetir, evoluir, melhorar, repetir, treinar, até os movimentos saírem equilibrados, naturais, no compasso da música, numa simbiose harmoniosa.

Tudo na vida é assim, feito de passos, primeiro rudes, toscos, forçados, que se vão treinando, afinando, melhorando, aperfeiçoando, até se tornarem naturalmente harmoniosos, porque os dominamos e tornam-se parte de nós.

Não fui promovida. Não mudei de empresa, nem de local (físico) de trabalho. Pronto, vou mudar para a sala ao lado da que tenho tido lugar nos últimos três anos e pouco. Não vou mudar de direção (departamento). Vou mudar de equipa de trabalho, para uma outra área de intervenção, para a qual estão a apostar em mim, nas minhas aptidões e competências, como uma mais valia no plano de melhoria processual da equipa. É, sem sombra de dúvida, um reconhecimento pelo mérito do trabalho que tenho vindo a desenvolver noutra equipa, que atua mais na retaguarda. Vou passar para uma linha da frente, mais visível na empresa, o que por si só pode alimentar perspetivas de progressão de carreira, ainda que sejam humildes expetativas. 

Não é o desafio das novas funções e responsabilidades que vou assumir que me assusta. Pelo contrário, esse é o factor de motivação, que me dá garra para abraçar a oportunidade de crescimento e aprendizagem, de evolução. É sim a equipa para onde vou mudar. Quando se está numa equipa quase perfeita, onde todos estão entrosados e em sintonia, onde há uma natural empatia entre os elementos que proporciona um bom ambiente de trabalho, e que resultou em visíveis melhorias do trabalho desenvolvido nos últimos tempos, mudar para uma equipa que, já se conhece, ainda que indiretamente, pelas suas dificuldades de trabalho em equipa provocada por certos elementos, pelas dificuldades de uma chefia que não ajuda muito ao bom ambiente e funcionamento, bem, é assustador. 

Vou ao meu baú de vivências. Se o meu CV tem um histórico de experiências profissionais em diferentes empresas, áreas, é sinal que aprendi muito e passei por muito. Desenvolvi conhecimentos e competências, aprendi muita coisa que me era totalmente desconhecida, e cruzei-me com todo o tipo de pessoas e profissionais. Em alguns sítios por onde passei encontrei amigos que ainda hoje mantenho, para a vida, encontrei verdadeiras personagens dignas de um filme de terror psicológico. E apesar do muito mau que já passei, agradeço a experiência porque me deu ferramentas, me fez crescer e criar as minhas defesas, me amadureceu enquanto pessoa e profissional. As várias experiências profissionais, a grande maioria em situações precárias de contrato, deram-me a bagagem que hoje faz de mim a profissional que sou e que sei que sou. Sou metódica, sou perfeccionista (que tem tanto de bom como de mau, confesso), sou organizada, sou empenhada, só sei dar o meu melhor e sempre na perspetiva de melhorar mais e mais, de aprender, de evoluir. Mas também sou reservada. Primo pelo bom ambiente de trabalho, pelo trabalho em equipa, mas é para trabalhar, não para lamber botas a chefias ou para fazer amigos e andar em conversinhas de bar e corredor, para entrar em joguinhos de bastidores e intrigas de alcova.

Esta foi a grande carapaça que ganhei nos muitos anos que trabalhei a saltitar de empresa em empresa, das pequenas empresas familiares às grandes empresas nacionais. E é essa carapaça que vou vestir todas as manhãs para enfrentar uma nova equipa, que não me é assim tão desconhecida. Se já sei com o que conto, é prevenir-me. Focar-me em tudo o que vou ter de aprender, focar-me nas contribuições que poderei dar, focar-me nas novas responsabilidades e funções, acreditar que sou capaz, afinal já tive de aprender e ajustar-me a novas realidades antes, e consegui.

Se foi duro passar por anos de instabilidade e precariedade profissional, sim, foi, mas também me trouxe esta capacidade de aprender, adaptar-me, ajustar-me, arregaçar as mangas e enfrentar os desafios do desconhecido. De me dotar de uma capacidade multidisciplinar, de me focar na resolução de problemas e dificuldades, de acreditar e confiar mais em mim e nas minhas capacidades, de não ter medo de errar, porque só erra quem faz e é com o erro que se aprende e se melhora. 

Vou sair da zona de conforto onde tenho estado. Embora tenha passado por tudo isto quando ali cheguei, à empresa e àquela equipa, há pouco mais de três anos. Tive de aprender, adaptar-me, ultrapassar dificuldades, conquistar a confiança e o meu lugar na equipa. E consegui. Tanto consegui que agora é doloroso ter de os deixar, quando estávamos todos em sintonia, com a "máquina" bem engrenada a funcionar.

2016 trouxe-me a oportunidade de estabilidade profissional. Depois de anos e anos em trabalhos temporários, quando entrei naquela empresa, também foi ao abrigo do trabalho temporário, em 2016 veio o contrato pela empresa, com direito a seguro de saúde, a médico da empresa, com direito a ser reconhecida como colaboradora da empresa e não como a externa, a temporária. 

2017 traz-me um novo desafio profissional, que não deixa de ser uma aposta em mim, e repito, um reconhecimento pelo trabalho que tenho desempenhado. E por muito ansiosa e com aquele friozinho na barriga, acredito que vou ser capaz. Vai correr bem. Tenho as ferramentas necessárias para ser capaz de enfrentar este desafio. Confiar em mim. Repito, num murmúrio, a mim mesma. 

 

Escrevo este texto em jeito de introspeção. Escrevo de mim para mim. Para me acalmar. Para me lembrar que já passei por desafios vários e superei-os. Agradeço todo o percurso que tive, o que de mau e bom me aconteceu, porque contribuiu para ter esta bagagem comigo. E agora que tenho de sair da zona de conforto, é bom abrir o baú e recuperar as ferramentas que preciso para enfrentar um novo desafio.

 

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