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Estórias na Caixa de Pandora

Pandora em (re)construção

Sou daquelas pessoas a quem a mudança custa. Há um certo friozinho na barriga, borboletas que esvoaçam, numa ténue excitação pela mudança, pelo desafio a superar, enfim, a mudança que seja para melhor e apesar de ter noção que custa ao início, é para crescer, aprender e melhorar. Mas custa. Umas pessoas a mais que outras e a mim custa-me horrores. Tirarem-me da minha zona de conforto, das rotinas confortáveis, é como arrancar-me o chão debaixo dos pés. Sinto-me em queda livre. 

Juntar isto da mudança ao facto de eu não ser a pessoa mais confiante do mundo, a anos luz disso, há o medo. Medo de falhar. Ponto. Sou demasiado, excessivamente exigente comigo própria. Tenho um terrível medo de falhar e defraudar expetativas alheias. Ora, quando me recrutaram para a atual equipa com o argumento de ser um reforço "especializado", um excelente reforço para a equipa e o trabalho a desenvolver no dito plano de melhoria contínua (ahhh a filosofia Kaizen a imperar o modus operandi), eu sinto pressão. Tendo noção que tenho muito a aprender até ter algum domínio e, consequentemente, autonomia nas tarefas, este discurso que bem sei que é motivador e encorajador, em mim bate com uma repercussão de pressão: Pandora, vais falhar e vão ver que estavam enganados a teu respeito. Pumba. Assim. Verdade, confesso-me: sou a última a acreditar ou confiar em mim, a ver as mesmas capacidades e competências que os outros me atribuem. Lido melhor com a crítica que com o elogio. Freud explicaria, provavelmente, pela minha história de vida, a educação que tive, a infância dolorosa que enfrentei, os pais que sempre me exigiram uma perfeição que não existe, tão imperfeitos eram eles. Sei bem que são as marcas forjadas em mim, ao longo do meu desenvolvimento pessoal e afetivo.  Tenho de lidar com isso. Vou tentando, mas em situações limite, como esta, que me arrancam do meu porto seguro e me atiram a um tanque de tubarões, todos os meus medos e inseguranças vêm ao de cima, dominando o meu pensamento.

Portanto, com estes ingredientes pouco mais faltava para ter a receita completa de um verdadeiro cocktail molotov emocional. Junte-se a chefia que me ignorou durante um bocado até me mandar sentar ao pé das colegas para as ver trabalhar e ambientar-me, ao facto de no meu segundo dia naquela equipa me caírem perto de 400 processos que estão em atraso, que uma equipa de x pessoas não teve tempo de tratar nos últimos seis (ou mais) meses e agora caem-me para eu ir recuperando trabalho, à medida que vou aprendendo. Bonito.

Resultado? Um belo de um ataque de pânico e ansiedade que me atirou a um choro compulsivo, falta de apetite, vómitos (tais eram os nervos), umas noites em claro, e a verdadeira sensação de pânico, de gritar que não sou capaz e nem vale a pena insistir.

Vale-me que isto vem, explode, queima, mas depois encarno a Fénix que há dentro de mim e renasço das cinzas. Recupero um pouco a calma, domino a ansiedade e aceito que tudo isto é o caos de um início, que é normal que seja um enorme novelo de lã embrulhado e cheio de nós, que até achar uma ponta e começar a fiar, devagarinho, a aprender e a apanhar o ritmo, leva o seu tempo. Afinal Roma e Pavia não se fizeram num dia, e eu não sou a super mulher, com super poderes, tão pouco sou uma espécie de D. Sebastião que chega numa manhã de nevoeiro e salva o mundo do caos. 

Está a custar. Sim. É complicado estar ainda muito dependente das colegas, que me vão passando informações e procedimentos à medida que eu vou olhando para os processos que me atribuíram, os analiso, e começo a chegar às minhas conclusões para lhes poder dar seguimento. O caminho a percorrer é longo, muito longo. Aceito. E aceito-me nas minhas limitações, comuns a qualquer mortal. E as colegas acabam por ir partilhando comigo as suas experiências e dificuldades de quando ali começaram. Uma confessou-me que durante dias, senão semanas, chorava todas as manhãs antes de ir trabalhar. E hoje está ali como uma das mais experientes na área. Tempo. E paciência. 

Espero chegar o dia em que recorde estes primeiros dias de fevereiro de 2017 com um humor negro, a gozar comigo mesma, com o drama queen. Quando esse dia chegar, sei que ultrapassei as dificuldades e estou a superar o desafio. Até lá, venha a sabedoria nas ações e a fé em mim própria. Do desesperante "eu não sou capaz" que venha um esperançoso "sim, eu consigo"!

 

Nos entretantos, de tão absorvida que ando, não há cabeça ou disponibilidade para blog e leituras blogosféricas, para o livro que estava tão entusiasmada para ler e tem estado ali, em modo pausa, entre outras coisas, as pequenas coisas que me servem de escape para o dia a dia. Também isto precisa de ser ajustado ao novo ritmo, à nova rotina. Ou até eu conseguir ter novamente um ritmo e rotina instalados, para que possa dispersar a minha atenção para outras vertentes, como quem faz uma pausa para um café. 

Por ora, fico-me pelo desabafo, como quem procura organizar as ideias e o caos em que a mente mergulhou...

 

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