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Estórias na Caixa de Pandora

Perdi a carteira (exercício de escrita criativa)

O sítio proibido é o mais apetecido. – Lá diz a vox populis. 

A arrecadação da nossa escola primária, lá da aldeia, tetos altos, porta de madeira pesada, recreio de areia e árvores para trepar, a arrecadação era aquele imaginário que nos lembrava o sótão da casa da avó, cheio de relíquias e tesouros por descobrir. 

O que mais nos deslumbrava na arrecadação eram aquelas carteiras em madeira, tampo da mesa inclinado, que levantava para guardar os livros, e tinha uns buracos para os frascos de tinta permanente usados pelas nossas avós, quando anos e anos atrás andaram elas naquela mesma escola, tetos altos, porta de madeira pesada, recreio de areia e árvores para trepar. 

Não havia muitas carteiras dessas na arrecadação. Duas ou três, ainda em bom estado, guardadas com o cuidado de quem quer preservar um pedacinho de passado. E nos armários pesados os antigos livros de ponto, o registo dos alunos daquela escola ao longo dos anos. Mas não era isso que nos cativava a atenção. Eram aquelas carteiras, onde gostávamos de nos sentarmos e nos sentirmos abraçadas naquela união entre o banco e o tampo partilhando as marcas deixadas pelas mãos de quem ali aprendeu a juntar as letras e a rabiscar contas.  

Nós também queríamos que aquelas carteiras fossem as nossas. Lembravam-nos a Ana dos Cabelos Ruivos, desenhos animados que víamos com devoção inocente. Todas queríamos ser a Ana dos Cabelos Ruivos: corajosa, traquina, reguila, aventureira, doce… 

Nunca tivemos aquelas carteiras na escola, estavam guardadas na arrecadação, para onde, de vez em quando, nos esquivávamos e onde brincávamos à Ana dos Cabelos Ruivos a aprender a juntar as letras e a rabiscar números naquelas carteiras que nos envolviam num abraço mágico. 

Sinto-me a sorrir, de olhar perdido no horizonte da janela do comboio. Perco-me na paisagem que fica para trás. Suspiro com ternura pela lembrança daquela carteira mágica, guardada como tesouro na arrecadação da escola, ainda de tetos altos, porta de madeira pesada, mas sem meninos a encher o recreio de areia e a trepar às árvores. Pergunto-me se ainda lá estará? Gostava de ter uma. E sentar-me-ia com a filha que está por nascer, a ajudar a juntar letras e a rabiscar números, a contar-lhe as histórias da Ana dos Cabelos Ruivos, assim, enlaçadas pela magia daquela carteira. 

Próxima paragem… - ouço a voz metálica. É a minha. Cheguei ao destino. Volto à realidade. Levanto-me, pego no casaco, vou para a porta, segurando-me enquanto o comboio abranda. Menina, menina! Viro-me. A sua carteira. Sorrio. Com a lembrança da perdida carteira da minha velha escola primária, ia perdendo a carteira de mulher adulta no comboio.  

 

Um agradecimento especial à doce Alice, que me inspirou neste jogo de homonímia. 

 

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