Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Estórias na Caixa de Pandora

Quando a vida acontece

O dia amanheceu cinzento. Frio. Com ameaça de chuva. Os gatos não saem do ninho. Amontoaram-se os quatro numa só alcofa, assim, tudo ao molho e fé em Deus, que a união aquece. 

Eu passei o dia com alguma letargia. Apesar de ter acordado com vontade de ouvir, em modo repeat, Sway de Michael Bublé e ir treinando o cha cha cha, a verdade é que me sinto apática. Talvez seja do tempo, que me deixa sonolenta, com vontade de me aninhar no meio dos gatos. Talvez seja das poucas horas de sono, e não muito bem dormidas. Talvez seja da ausência do chefe, que convida um pouco à preguicite aguda. Talvez seja porque hoje é dia de aula de ginástica e eu já estou a magicar o que hei-de arranjar que me impossibilite de ir. 

Penso no livro que está pousado há mais de uma semana. Não tenho tido tempo ou cabeça para o ler. E fico genuinamente triste e de consciência pesada porque tive uma fase em que andava mais ativa na leitura e voltei ao marasmo. Trabalhar o dia todo, chegar a casa, tarefas domésticas, tratar do jantar, dos almoços para o dia seguinte, voltar a sair para ir às minhas aulas de atividades de lazer. Chegar a casa derreada e só a desejar um banho quente, um pijama confortável e cama. E a certeza que amanhã pouco difere do dia que ali se dá por terminado, tarde e más horas.

Não posso lamentar o que deixo por fazer nos dias com poucas horas para as muitas coisas que faço. Só que em dias de letargia, são as coisas que deixo de fazer que me pesam. Que me lembram que era tão bom poder sentar no meu sofá, com as pernas tapadas pela manta fofa, o livro nas mãos, e chuva a cair lá fora, e a certeza que a vida vale a pena pelos pequenos prazeres que nos dá. Mas as obrigações, o que tem de ser tem demasiada força para letargias e saudosismos. Os pequenos prazeres são adiados. Há outras coisas a viver. A vida acontece, independentemente das nossas letargias.