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Estórias na Caixa de Pandora

Quando o orgulho é amor próprio

O orgulho não leva a lado nenhum. Aquele orgulho desmedido, egoísta, que cega e fecha uma pessoa na sua própria verdade, ignorando tudo à sua volta. O orgulho que impede que se reconheçam erros, que se admita falhas, que se peça desculpa.

Mas há o orgulho que é amor próprio. O orgulho de quem não se quer deixar mais levar por faltas de respeito e consideração. O orgulho de quem se fartou de engolir insultos para não alimentar conflitos. O orgulho de quem já enfiou a cabeça na caixa da areia em prol de um (suposto) bem maior.

E porque os outros vão até onde deixamos, há o orgulho que é amor próprio, que nos faz reagir para nos protegermos, o orgulho que dá um murro na mesa e diz basta. É a esse orgulho que agora me agarro, com unhas e dentes: o de me preservar, enquanto pessoa digna a respeito e consideração. O orgulho de fera ferida, que rosna porque se cansou de ser perseguida e mutilada.

E foi esse mesmo orgulho que me levou ontem a comunicar ao Gandhe que eu não vou ao almoço. Ele pode ir, tem todo o direito de almoçar com a mãe, a avó... eu não sou ninguém para o impedir. Mas eu não vou. Porque mereço algum respeito e consideração, e ando há anos a engolir sapos e a fazer fretes, para quê?? Cansei. Ele pode ir. Eu não vou.

E cortou-me por dentro ver o olhar triste dele, o engolir em seco. Não ficou chateado comigo. No fundo sei que ele me entende, me dá razão nos meus motivos. Por certo não contava. Sempre foi o engolir o sapo, ir contrariada e fazer o frete por ele, levar com as pedras e o veneno viperino, e fazer-me de parva, como se não percebesse o ataque. Mas desta vez é diferente. Tem de ser diferente. E não quero ceder. Não posso. Se tenho algum respeito por mim mesma, se tenho algum amor próprio, não posso ceder. 

Agora fica ele com a bomba na mão. Vai, não vai, o que vai ter (ou não) coragem de dizer à mãe. A verdade é que eu até gostava que ele fosse ao almoço, sozinho. E no alto dos seus 34 anos, se assumisse como o homem independente, adulto que é e lhe dissesse o que tem a dizer. Mas sei que ele com a mãe é um menino. "Já sabes como ela é, não vale a pena". Pois... já ouvi isto de várias pessoas. Ela é tão dominadora, tão manipuladora, tão prepotente, sempre no alto da sua superioridade e arrogância, que não há quem lhe faça frente porque não vale a pena

Não sou eu que lhe vou fazer frente. Mas também não que lhe quero aparecer mais à frente, a engolir as pedras que ela atira, os insultos que cospe como víbora subtil. Não me vou sujeitar a servir-lhe de tapete para ela pisar como bem entende. Ainda mais eu, que demorei anos a conseguir ter amor próprio suficiente para me afastar de uma mãe que me destruía. Prefiro o orgulho à hipocrisia. Ao cinismo. Prefiro a minha paz de espírito. O meu amor próprio. 

 

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