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Estórias na Caixa de Pandora

Quem dá o pão, também dá educação

Lembro-me de ouvir isto da minha avó. Na sua austera sabedoria de mulher nascida e criada na aldeia, a primeira menina da aldeia a ir à escola primária, ainda que só tivesse a 4ª classe, lia sempre o seu jornalinho sentada na poltrona coçada, que estava no alpendre da entrada da cozinha, enquanto o meu avô dormia a sesta e ela se dava ao luxo de descansar as pernas da labuta matinal e do almoço. Juntava as letras devagarinho, mas lia, todos os dias, como um ritual, o seu jornalinho, com os gatos deitados aos pés. E também gostava de ler livros com histórias dos Pastorinhos de Fátima, da Irmã Lúcia e da Sãozinha.

A minha avó, apesar de mulher nascida e criada na aldeia, tirou carta de condução, mudou-se para arredores de Lisboa com os filhos pequenos, acompanhando o marido. Sempre foi dona de casa, ou não fosse do tempo do Estado Novo. Educou os filhos com pulso de ferro, garantia a ordem da casa e da família e foi senhora  para ter máquina de lavar roupa, luxo naquele tempo, e passava horas na sua máquina de costura Singer. 

Dona de uns olhos azuis cristalinos, baixinha e roliça (herdei-lhe as formas do corpo, mas os olhos, esses só ela os tinha), como boa portuguesa, que se quer pequenina como a sardinha, aturou, com a paciência e humildade que nascia com aquelas mulheres, as manias do meu avô (e não eram poucas). Queria ter tido uma filha mulher, a vida deu-lhe homens. Um coração genuíno, bondoso, dona de um sentido de justiça e igualdade enormes, calou-se muitas vezes para não alimentar a ira do meu avô, adepto do Estado Novo, salazarista convicto, membro da PIDE, pai tirano para os filhos, que para além do natural conflito de gerações, havia o conflito ideológico, social e político.

Não me lembro de a ver sorrir. A vida dura tirou-lhe o sorriso mas não a força de caráter. De postura altiva, longe de ser arrogante, era bem humilde e generosa. Lembro-me das coisas que ela me dava às escondidas do meu avô: o pão que cozera de manhã, laranjas que apanhara do quintal. Toma, leva, vai-te embora. E eu saía de casa antes que ele acordasse da sesta. Mas o pão acabado de cozer ou as laranjas colhidas do quintal tinham ido parar a casa do meu tio pelas próprias mãos do meu avô. Era este tipo de injustiças que ela tentava contrariar. Ainda que pela calada, às escondidas. Melhor que ninguém conhecia o tirano carrasco e as suas fúrias. Não me lembro de a ver sorrir, mas lembro-de da sua bondade, das lágrimas que lhe vi cair num cansaço da vida que levava e das injustiças que tinha de calar. 

Quem dá o pão, também dá educação. Era um dos muitos provérbios de sabedoria popular que ela dizia.

E hoje na hora de almoço ralhei e dei umas palmadas ao Suki por asneiras que ele fez. E ele ficou tão tristonho e amuado, que se deitou na caminha dele com uma expressão enorme de tristeza. E eu fiquei de coração apertado, como se tivesse sido demasiado severa e injusta com ele. 

Quem dá o pão, dá a educação.

E também dá carinho, e foi isso que passado pouco tempo lhe fui dar: colinho e miminhos.

 

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