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Estórias na Caixa de Pandora

Rascunho 2 (ou como sou uma chata)

Eu tinha uma ideia para explorar o tema. Não a consegui concretizar. Veio um bloqueio. Insisti. Saiu um texto que não me preencheu. 

Volto a abrir a folha de word e deixo fluir. Pegando na minha ideia inicial, retiro-lhe alguns elementos, simplifiquei, deixei correr a escrita. E saiu novo texto.

Não me deixa tão inquieta como o anterior. Ainda assim, e como perfeccionista que sou, podia ser melhor. Pode sempre ser melhor. 

Ainda não decidi qual publico logo, no encontro do grupo de escrita criativa. Alguns colegas já publicaram os seus textos, e deixam-me siderada. Tão bons. Difícil igualar o nível.

 

Os mais pequenos baús são os mais pesados

Sempre que podia, Alice esgueirava-se com o cão Pantufa para o bosque nas margens do rio. Ficava ali perto de casa, perto o suficiente para que a mãe não se importasse que ela fosse sozinha com o cão, longe o suficiente para estar afastadas dos gritos, das portas a bater, das caras feias dos pais, em constante azedume.

Tirava a trela ao Pantufa e corriam, lado a lado, saltando pelos carreiros, pulando arbustos caídos, numa valsa descompassada, corriam e apanhavam-se mutuamente. Cabelo desgrenhado, arranhões nos braços e nas pernas, mas uma leveza no peito, de quem encontra a paz. E assim, quieta e cansada, sentava-se na margem do rio, enquanto o Pantufa bebia água e arfava de língua de fora. E assim ficavam, aqueles dois amigos, sentados a ver o rio, sem olhar para relógios, sem noção do tempo que corria em volta deles. Livres e despojados de tristezas e preocupações, sombras e medos.

- Sabes Pantufa, ontem li uma lenda muito bonita. Falava de uma menina que, por ser muito curiosa, abriu um baú onde os deuses tinham escondido todos os males do mundo. Assustada, fechou o baú a tempo de segurar uma última coisa guardada nele: a esperança.

Pantufa, de orelhas no ar, olhava Alice, língua de fora, cabeça inclinada, todo ele atenção, como se percebesse. Alice, de olhar perdido na água que corria, nas árvores que sussurravam nas margens do rio, suspirou: é a esperança que resta, Pantufa. É ela que fica. É ela que nos salva. Mesmo o mais pequeno baú pode ser o mais pesado: pesado de dor, mágoa, angústia, medo, tristeza. Para nos sentirmos mais leves, temos de abrir o nosso baú. Deixar sair o que nos pesa. Mas segurar a esperança, Pantufa. É ela que nos salva.

Sorri, e com leveza, desata a correr apanhando o Pantufa desprevenido. E assim correm os dois, livres e leves, pela margem do rio, esquecidos do tempo, escondidos da vida, correm ao encontro da esperança, que teimam em não perder.