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Estórias na Caixa de Pandora

Sapatos de Rebuçado

Sapatos_de_rebuçado_2016

Na semana passada acabei o segundo livro da saga Chocolate, de Joanne Harris. Gosto da autora, gosto da escrita, da envolvência que cria entre a realidade e a magia, misturando os elementos de forma tão natural, que as suas histórias não chegam ao fantasioso, mas saltitam entre um quotidiano comum, corriqueiro, banal, e uma pontinha de misticismo que lhe dá algum tempero. Gostei muito do livro Chocolate, e como há uns tempos revi o filme, fiquei mesmo com vontade de ler a continuação da saga, saber como estaria Vianne e Anouk. 

E ei-las, quatro anos depois, nos arredores de Paris, numa existência discreta e tão normal quanto possível. É o que Vianne deseja, para poder proteger as filhas: uma existência normal e comum. Por isso abdica das suas artes de feiticeira e toma uma existência sossegada e reservada. Anouk cresceu e é uma pré adolescente que começa a questionar as atitudes da mãe, principalmente com a sua mudança drástica, e agora há a pequena Rosette, uma criança especial e diferente.

Mas todos os planos de Vianne são interrompidos com a chegada de uma enigmática mulher. Tudo nela é simpatia, otimismo, alegria, boas energias, mas o que ela esconde é aterrador. Usa em magia em proveito próprio, não olhando a meios para atingir os seus fins. Uma inimiga implacável que tece um plano diabólico para destruir Vianne, e para o conseguir, conquista-a, como se fossem almas gémeas, irmãs de outra vida, ganhando-lhe a confiança, envolvendo-a numa teia sem que ela se aperceba dos riscos que está a correr. E Vianne, ainda que com muitos medos e receios, muito renitente em voltar a ser o que foi, em voltar a usar a sua magia, vai caindo nas armadilhas até ao momento em que percebe que antes de lutar com a sua inimiga para sobreviver, tem de vencer os seus próprios medos. 

A história é diferente da que conhecemos em Chocolate. Há esta personagem maquiavélica, sem coração, personagem sombria, dá um suspense arrepiante ao enredo, e simultaneamente faz com que Vianne pareça uma tonta ingénua, a quem dá vontade de dar duas estaladas para ver se ela acorda para a vida, tira a cabeça da areia e assume quem é de verdade. Pois a sua fragilidade vem do facto de não assumir o que é verdadeiramente: uma feiticeira. Das boas. Do bem.

No decorrer da história vemos a evolução de Anouk, do seu próprio poder, de como, adolescente que é, se afasta da mãe e se torna facilmente manipulável. Vemos o desfile de uma série de personagens que vamos conhecendo ao longo das páginas: os seus medos, as suas dores, os seus fantasmas, as suas inseguranças. Tão reais que podia ser qualquer um de nós, qualquer pessoa que conhecemos. 

O desfecho é um cliché: a vitória do amor sobre todo o mal, por mais forte que ele possa ser. Mas ainda que seja cliché, não deixa de estar perfeitamente enquadrado e ser o desfecho perfeito, que nos enche de ternura e esperança. 

Agora o que eu gostava mesmo mesmo mesmo era de poder ir a uma chocolataria como a de Vianne Rocher. As delícias que imagino enquanto leio, quase que lhes sinto o aroma e o toque aveludado e doce. 

 

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