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Estórias na Caixa de Pandora

Semana de tema livre no grupo de escrita criativa

Há momentos em que as palavras emudecem. Ficam ali, num limbo, embrulhadas entre si, despidas de significado, de sentido, de som. Fico quieta no meu silêncio, rebuscando no baú que carrego com as memórias e os sentidos. Passo os dedos pelo baú, qual Aladino acariciando a lâmpada, sussurrando pelo seu génio. Do meu baú não sai um génio que me concede desejos. Mesmo se saísse, eu não teria desejos, porque não tenho palavras. Desisto do baú. Não me apetece mexer em poeira, em memórias, em sonhos esquecidos, em sentires perdidos.
Olho-me ao espelho, como se procurasse no meu reflexo as palavras que não saem do meu peito aflito.
Uma lágrima cai. Numa doce carícia. A carícia que me faltou, dada pela tua mão. Porque dói tanto? Este aperto no peito, este nó na garganta, este frio pela espinha, este murro no estômago… este grito de dor que não sai, e as palavras que se embrulham. Porque dói tanto esta saudade de ti? A porta que fechaste, a vida que me levaste, sem que percebesses, deixando este espetro refletido no espelho manchado. As lágrimas soltam-se, já não são carícia, mas dor que se liberta. Tombo no chão frio. Deixo-me ficar quieta. Silêncio. Em alerta. Podes voltar. Abrir a porta. Devolver-me a vida e o sentido das palavras. Vais voltar, não vais?