Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Estórias na Caixa de Pandora

Ondas de Calor

Ondas-de-Calor_2017.jpg

Sou fã da série Castle. Vi todas as temporadas, todos os episódios, e tive muita pena que a série tivesse acabado, até porque aquele final arranjado às trêss pancadas em cima do joelho deixou muito a desejar.

Gostos são gostos, por isso fico sem perceber como continuam com séries como Walking Dead (grande vómito), e o meu divertido e adorado Castle foi às urtigas. Gostos. 

Fiquei aos pulinhos quando soube que os livros que o Castle escreveu ao longo da série ganharam forma na vida real. Ondas de Calor foi o primeiro, miminho do Dia dos Namorados do Gandhe que, numa tentativa de ser romântico e fazer um trocadilho, escreveu na dedicatória que era para me aquecer as tardes de inverno no sofá. 

Sobre o livro, foi lido a um ritmo inconstante, ao sabor da minha disponibilidade e vontade, que já perceberam tem andado pelas ruas da amargura nos últimos tempos. Ainda assim, quando lhe pegava queria sempre mais. Tal como quando via os episódios. Era só mais um, a seguir ao outro, sempre que possível.

Não é uma obra prima do romance criminal ou do suspense. Não é. Mas para os fãs da série, é como estar a ler o guião de um dos episódios, adivinhando reações de personagens, as suas expressões, os diálogos, os olhares e sorrisos, a tensão e adrenalina, a forma de conduzir a investigação, os interrogatórios a testemunhas e suspeitos.

Como fã da série, sim, adorei o livro e sem dificuldade adivinhei a identidade do assassino. Não é assim tão previsível, mas eu papei a série toda, normal que já estivesse meia formatada para ler nas entrelinhas e subtilezas, pensar fora da caixa e ir mais além do apresentado como potencialmente óbvio.

Uma leitura ligeira, mas deveras interessante, porque me levou a recordar uma das minhas séries de eleição que, tristemente, perdi. 

 

O Livro dos Baltimore

O_Livro_dos_Baltimore_2017

Quando me anunciaram a mudança de funções, quando efetivamente mudei de equipa de trabalho e de funções, fiquei de tal maneira absorvida que, apesar da enorme vontade de ler este livro, não andava com cabeça para nada, incluindo leituras. Escolhi este livro para suceder ao magnífico O Labirinto dos Espíritos de Zafón porque acreditei que não me iria desiludir. Não é fácil ser o sucessor de mesinha de cabeceira de Zafón. 

De Joël Dicker li A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e adorei. Lendo tão boas críticas ao autor e a este último livro dele, foi a minha escolha para leitura pós Zafón. E foi uma boa escolha. Demorei a pegar nele, mas quando peguei, não larguei. Acabei-o ontem, perto das 2h da manhã, mas eu estava tão embrenhada na leitura, tão absorvida pelo desenlace do enredo, que só consegui parar na última página. O que calhou bem, porque amanhã vou almoçar com a amiga que mo emprestou e assim já lho devolvo.

Ora bem, Dicker e Zafón têm escritas totalmente diferentes. Quando comecei a ler O Livro dos Baltimore senti que a linguagem e o estilo eram demasiado simples, comparativamente ao que tinha lido de Zafón. Mas essa escrita fluída, simples, também agarra o leitor pela proximidade que cria com ele. Porque é simples de ler, porque flui, porque nos sentimos próximos do universo e personagens que se vão revelando página após página. Depois a história é tão verosímil, que facilmente somos transportados para o seio das personagens, nos sentimos parte do seu núcleo, quase como confidentes silenciosos, que partilham as mesmas dúvidas e emoções. 

Dicker tem revelado uma mestria na manipulação do tempo narrativo. Os sucessivos avanços e recuos no tempo que permitem que sejamos espetadores de um tempo presente e um passado que se vai revelando, num crescendo gradativo até atingir o clímax das grandes revelações e deslindar de mistérios.

O Livro dos Baltimore não é um policial ou um livro de ação e suspense, como A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert. É um livro de memórias, um livro de família, com os seus momentos de tensão, de ternura, de paixão, de conflito, de união, de amizade, de amor. É uma história que explora o equívoco: o que cada um pensa sobre o outro ou sobre as situações do outro, alheio ao que é realmente verdade, acabando por se gerar um grande equívoco. São as meias verdades, os segredos, as ideias pré concebidas, aquilo em que cada um acredita como sendo a verdade, mesmo que esteja longe dela. Os equívocos gerados pelas omissões, pela ingenuidade, pelas emoções que falam mais alto que a razão. Os equívocos que podem levar a tragédias, que poderiam ter sido evitadas se... 

Uma história de relações de amizade, de família, de amor, de fraternidade, de ódios e invejas, de ciúmes e (in)fidelidade. Uma história que pode ser a de qualquer um de nós, mesmo sem um grande drama que vem destruir toda uma vida aparentemente perfeita e feliz. E deixa-nos a pensar em como nós, humanos que somos, feitos de emoções, com laços afetivos com outras pessoas, também podemos cair naqueles mesmos erros, por causa de equívocos, de verdades parciais e superficiais, qual ponta de iceberg, onde só se conhece uma pequena superfície e se ignora toda uma profundeza. 

Gostei. Muito. E agora o difícil é escolher o próximo. 

 

Saga Cemitério dos Livros Esquecidos

IMG_20170124_080511.jpg

Terminei ontem à noite O Labirinto dos Espíritos, o livro que fecha a saga Cemitério dos Livros Esquecidos, iniciada com A Sombra do Vento.

Não será novidade o quão rendida fiquei à escrita de Zafón, ou como esta saga me cativou desde a primeira palavra. Rejubilei quando vi que havia novo livro, embora houvesse um certo sabor a fel por saber que era o último. Fui lendo, conforme o tempo, mas confesso que houve noites que evitei pegar-lhe porque sabia que não o largaria nas horas seguintes, e se por um lado há a ditadura do despertador que toca cedo, por outro havia a vontade de prolongar a leitura, tanto quanto possível.

Este sábado estava na página 500 e peguei no livro. De um fôlego só parei quase 300 páginas depois, porque a própria narrativa ganhou um ritmo alucinante, a trama desenrolava-se freneticamente diante dos meus olhos e as páginas iam virando ao sabor dos acontecimentos, das revelações, do desfecho de uma série de pontas soltas, tudo a ser encaixado com uma mestria que nos transporta, leitores, para o centro da intriga, como se víssemos diante de nós tudo acontecer, sentindo o coração disparar a um ataque, a um assassinato, sentindo um aperto no peito a cada revelação trágica. A escrita de Zafón tem esta empatia mágica, esta capacidade de nos transportar para as ruas de Barcelona, sentir o frio da neblina, ver as sombras que espreitam nas esquinas, conviver com as personagens que desfilam diante dos nossos olhos, tão reais, tão próximas, tão assustadoras ou encantadoras. 

Não posso, para não cair em tentação de desvendar mais do que devo, escrever muito mais sobre este último livro da saga. Fecha com chave de ouro, numa genial interligação de todos os quatros livros e as suas histórias e personagens.

É uma saga sobre livros, sobre a arte da escrita, sobre o poder da literatura. É uma história com um contexto de guerra civil e pós guerra, onde as intrigas e jogos de poder põem a descoberto o que de pior pode o ser humano fazer ao seu semelhante só por vaidade, ganância, poder e riqueza. É uma história de amor e de luta, de sobrevivência e procura pela verdade e pela justiça, é uma história que tem tanto de ternura como de violência crua. É uma história onde o amor e a amizade são, contra toda a crueldade, hipocrisia e violência, a sobrevivência numa sociedade devastada e despida de valores e humanidade e lealdade. 

Tão bom, mas tão bom que agora sinto um vazio. Não sei que hei-de ler a seguir, porque nada se vai aproximar. Só tenho vontade de pegar n' A Sombra do Vento e reler toda a saga, novamente, de seguida, num fôlego. Reencontrar Daniel e Fermín, reviver as suas aventuras e desventuras, rir-me com a prosa hilariante de Fermín, encantar-me com a ingenuidade e bondade de Daniel, conviver com o acolhedor núcleo Sempere e amigos. Envolver-me nos mistérios da escrita e dos livros, revisitar o Cemitério dos Livros Esquecidos e perder-me na sua magia, reencontrar os escritores malditos e sentir toda a maldade e crueldade de que foram vítimas, sabendo que justiça lhes será feita, passem os anos que passarem.

Tão bom, mas tão bom, que fechado o último livro fica este vazio. Como um até já, que na verdade é um até sempre! 

 

 

A culpa é de Zafón

Eu bem que tento dormir mais cedo. Não consigo. Embrenho-me no Labirinto de Espíritos, vagueio por aquelas ruas sombrias de Barcelona, sinto a angústia das personagens, ontem senti-lhes a dor e as lágrimas, o espasmo das revelações, a revolta e indignação, que se têm de engolir por sobrevivência. Senti-lhes o medo e o desespero.

Eu bem que tento dormir mais cedo, mas Zafón não deixa, tal é o poder da sua escrita.

 

Leituras 2016

Leituras2016.jpg

Em 2015 li 8 livros.

Um dos poucos objetivos de ano novo que tracei para 2016 era ler, no mínimo, um livro por mês. Objetivo cumprido. Em 2016 li 12 livros, estou a meio do 13º, mas só o darei por terminado em 2017, pelo que não o incluo já nesta lista.

Claro que olhando para a Magda eu estou a anos luz de leituras realizadas. A Magda é uma leitora especial e ávida. Não sei como consegue, eu quando for grande também quero ser uma leitora assim. Vá, estou a melhorar. Aos poucos. 

Não leio para bater recordes, até me chateia um pouco quem o faz e quem tece pseudo críticas literárias, com direito a classificação numérica, como já aqui escrevi. Leio por prazer. Leio porque sempre gostei de ler, e sim, já fui uma ávida leitora, que devorava livros de 300 páginas em dois ou três dias, que nas pausas entre exames na faculdade lia livros para descontrair, e olhem que o meu curso era de literatura, não me faltavam muitos livros para ler. Mas a Magda, com o seu número impressionante de leituras, é diferente. Porque lê com paixão. Porque gosto imenso das opiniões que ela escreve sobre os livros que lê, e porque já me pôs a ler livros que eu não tinha ideia de ler, bem como me faz, algumas vezes, ir adicionar um ou outro à minha wishlist na WOOK. Obrigada, Magda, por seres uma verdadeira inspiração como leitora, e não só.

A rotina preenchida, o cansaço de tantos dias, outras tantas tentações para passar o pouco tempo livre e relaxar, tiraram-me tempo para me dedicar à leitura. E é um velho hábito que tento recuperar. Há dias que passo sem ler. Ainda não estou naquele nível de ler todos os dias, um pouco antes de dormir, pelo menos.

Este ano li um livro em dois dias, mas também estive às duas semanas sem ler. O meu ritmo de leitura anda incerto, inconstante, mas a tentar recuperar os velhos tempos de leitora sedenta, aos poucos, conforme o tempo e a disponibilidade o permitem.

Objetivo cumprido. Li 12 livros, dá a média de um por mês.

A grande descoberta de 2016 é, sem dúvida Carlos Ruíz Zafón, curiosamente, faz agora um ano que lia o primeiro livro dele, insistência da Magda, o primeio da saga Cemitério dos Livros Esquecidos, e um ano depois é com Zafón que mudo o ano e fecho a saga. 

Em 2016 li vários thrillers, reencontrei-me com duas das minhas escritoras favoritas, Isabel Allende e Joanne Harris. Desiludi-me com o clássico O Amante de Lady Chatterley. Em 2016 participei, pela primeira vez, num desafio de leitura conjunta (mais uma vez, obrigada Magda) e adorei. 

Para 2017 traço o mínimo de um por mês, um objetivo realista para mim. Mas espero daqui a um ano poder dizer que já consegui ler mais do que os 12 deste ano. 

 

Sapatos de Rebuçado

Sapatos_de_rebuçado_2016

Na semana passada acabei o segundo livro da saga Chocolate, de Joanne Harris. Gosto da autora, gosto da escrita, da envolvência que cria entre a realidade e a magia, misturando os elementos de forma tão natural, que as suas histórias não chegam ao fantasioso, mas saltitam entre um quotidiano comum, corriqueiro, banal, e uma pontinha de misticismo que lhe dá algum tempero. Gostei muito do livro Chocolate, e como há uns tempos revi o filme, fiquei mesmo com vontade de ler a continuação da saga, saber como estaria Vianne e Anouk. 

E ei-las, quatro anos depois, nos arredores de Paris, numa existência discreta e tão normal quanto possível. É o que Vianne deseja, para poder proteger as filhas: uma existência normal e comum. Por isso abdica das suas artes de feiticeira e toma uma existência sossegada e reservada. Anouk cresceu e é uma pré adolescente que começa a questionar as atitudes da mãe, principalmente com a sua mudança drástica, e agora há a pequena Rosette, uma criança especial e diferente.

Mas todos os planos de Vianne são interrompidos com a chegada de uma enigmática mulher. Tudo nela é simpatia, otimismo, alegria, boas energias, mas o que ela esconde é aterrador. Usa em magia em proveito próprio, não olhando a meios para atingir os seus fins. Uma inimiga implacável que tece um plano diabólico para destruir Vianne, e para o conseguir, conquista-a, como se fossem almas gémeas, irmãs de outra vida, ganhando-lhe a confiança, envolvendo-a numa teia sem que ela se aperceba dos riscos que está a correr. E Vianne, ainda que com muitos medos e receios, muito renitente em voltar a ser o que foi, em voltar a usar a sua magia, vai caindo nas armadilhas até ao momento em que percebe que antes de lutar com a sua inimiga para sobreviver, tem de vencer os seus próprios medos. 

A história é diferente da que conhecemos em Chocolate. Há esta personagem maquiavélica, sem coração, personagem sombria, dá um suspense arrepiante ao enredo, e simultaneamente faz com que Vianne pareça uma tonta ingénua, a quem dá vontade de dar duas estaladas para ver se ela acorda para a vida, tira a cabeça da areia e assume quem é de verdade. Pois a sua fragilidade vem do facto de não assumir o que é verdadeiramente: uma feiticeira. Das boas. Do bem.

No decorrer da história vemos a evolução de Anouk, do seu próprio poder, de como, adolescente que é, se afasta da mãe e se torna facilmente manipulável. Vemos o desfile de uma série de personagens que vamos conhecendo ao longo das páginas: os seus medos, as suas dores, os seus fantasmas, as suas inseguranças. Tão reais que podia ser qualquer um de nós, qualquer pessoa que conhecemos. 

O desfecho é um cliché: a vitória do amor sobre todo o mal, por mais forte que ele possa ser. Mas ainda que seja cliché, não deixa de estar perfeitamente enquadrado e ser o desfecho perfeito, que nos enche de ternura e esperança. 

Agora o que eu gostava mesmo mesmo mesmo era de poder ir a uma chocolataria como a de Vianne Rocher. As delícias que imagino enquanto leio, quase que lhes sinto o aroma e o toque aveludado e doce. 

 

É muita emoção!

IMG_20161128_213641.jpg

Chegou!!!! (Na verdade chegou na sexta, mas só o fui levantar hoje) E é tão grande. E eu estou tão ansiosa para me deliciar com esta escrita envolvente e esta história apaixonante. E vou ali a correr acabar de ler o que tenho na mesinha de cabeceira porque Zafón e o Cemitério dos Livros Esquecidos me esperam. E eu mal posso esperar por os reencontrar. 

 

 

Durou duas noites (e meia)

Deixei-te_ir_2016

Na passada quarta feira, feriado, como tirei uma sesta à tarde, cheguei à noite e soninho que é bom, nada. Peguei então neste livro, um dos últimos que comprei, e comecei a ler. Li os três ou quatro primeiros capítulos e senti-me, desde logo, agarrada. Tanto que na quinta, à hora de almoço, li ávida mais um capítulo.

À noite peguei no livro ansiosa e fui até ao final da primeira parte. Não continuei porque eram 2h da manhã e sexta era dia de trabalho. Mas acreditem que fiquei em ânsias de pegar novamente no livro.

Sexta à noite, mal pude, assim o fiz e só parei no último ponto final. Eram umas 4h da manhã quando acabei a maratona. 

O livro agarra desde a primeira página. Mas o que é surpreendente, mesmo surpreendente, é que estamos toda uma primeira parte (vá, até à página 162) totalmente equivocados. Antes de começar a segunda parte, e dada a revelação no final da primeira parte, voltei atrás e reli os dois primeiros capítulos. Percebi logo como tinha sido induzida em erro. E não pude deixar de me rir de mim mesma, porque é tão subtil que se alguém perceber antes, merece um prémio. 

Não posso falar muito do enredo porque, involuntariamente, iria contar mais do que devo. É um thriller, sim, seu sei, este ano ando a dar-lhe forte nos thrillers, um mistério que fica logo no início por resolver: um atropelamento fatal de uma criança de 5 anos com fuga do condutor. Poucas ou nenhumas pistas, uma equipa de investigação policial que quer ver o culpado identificado e responsabilizado por um ato tão atroz e cobarde.

Deixei-te Ir é uma história envolvente, emocionalmente forte, com uma personagem tão carregada de mistérios que nos cativa e nos impulsiona a querer saber mais sobre ela, sobre os segredos que esconde, sobre a dor tão destruidora que sente, sobre o que lhe aconteceu que a faz parecer tão culpada e tão inocente. Um thriller com uma profunda carga dramática sobre um tema bastante complexo, trágico e que socialmente é, simultaneamente, um tema tabu, condenável, repugnante e difícil de condenar na justiça. 

A história tem vários narradores, sendo que um dos narradores da segunda parte é simplesmente arrepiante. Desde que se começa a ouvir a voz dele sente-se que ali há algo de muito maquiavélico, que vai crescendo na trama, à medida que se vão revelando segredos. A cada revelação, um passo mais próximo da verdade, do que aconteceu no fatídico dia do atropelamento. E quando achamos que está a resposta encontrada, desenganem-se. Há algo mais sórdido por trás. Arrepiante. 

Eu adorava poder estender-me sobre o livro, mas não posso mesmo. Porque recomendo a sua leitura, e não vos tiro o prazer da constante surpresa que as reviravoltas que vão surgindo causam no leitor. 

É intenso, é arrebatador, é empolgante, é absolutamente viciante.

Tenho lido livros muito interessantes, mas este fez-me bater um recorde que há muito não tinha: devorá-lo em duas noites porque é impossível largá-lo.