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Estórias na Caixa de Pandora

Era tudo o que (não) precisava!

Sentia-me já com algum animo para juntar os meus cacos, sacudir o pó e fazer-me à estrada da vida, quando a vida, que não está para meiguices, achou que era hora de eu levar uma valente bofetada.

Recebi ontem uma SMS, vinda da mãe de quem não havia qualquer relação desde há quatro anos, a informar que a minha avó faleceu.

E se eu era um monte de cacos, em poeira de caquinhos fiquei. 

 

Registo para a posteridade

- Se eu fosse rica, fazia como a outra. Ia a Itália enfardar, ia à Índia meditar e encontrar o meu lado zen, ia às ilhas gregas, enfim, viajava. Assim como não sou rica, tenho contas para pagar, resta-me enfiar a cabeça na areia e fingir uma normalidade que não sinto. (Pandora dixit)

- Isso seria fugir da realidade, não significa que fosses mais feliz. (Amiga de Pandora dixit)

- Ora foda-se, mas é todo um outro nível chorar num cruzeiro pelas ilhas gregas. (Pandora remata)

 Vale o teu sentido de humor. (Amiga de Pandora conclui)

 

 

Até os heróis caem. E somos humanas, a nossa força também falha, também quebra. Mas somos feitas desse material que quebra e cola-se. Fomos forjadas numa vida de dificuldades. Somos sobreviventes. E podemos cair, quebrar, chorar, sangrar. Só que há-de chegar aquele momento em que cuspimos nas feridas, sacudimos o pó, juntamos os cacos e seguimos caminho. (Pandora)

 

Trechos de uma conversa muito terapêutica. Uma conversa que destrancou a porta do quarto escuro onde me refugiei nas últimas semanas. Uma conversa que me pôs a expulsar os demónios e soltar angústias. Uma conversa onde falei e ouvi, compreendi e aceitei. E o compromisso mútuo: no meio disto tudo, temos de ser nós, por nós.  

 

Escondida, mas não esquecida?!

E afinal há quem note a falta de sorriso.

E o ar abatido.

Há quem me alerte para os indícios de depressão à vista.

Há quem, na distância de kms, me resgate do isolamento dormente em que me tenho mantido.

Sabes lá tu o que o teu "está tudo bem contigo?" me fez estremecer?

Afinal sou vista. Afinal há quem se lembre que eu existo. E que posso estar a precisar de um "olá, está tudo bem contigo?".

 

Pandora, a sebastianista!

Longe de associar o epíteto do título ao messianismo. É mais esta a alegoria: Pandora, a desaparecida em combate que regressa num fim de dia nublado, a adivinhar chuva. Tempestade da grossa. 

Sim, estou viva. Ninguém diria. Eu bem que podia ser contratada para o elenco de Walking Dead, o que eles poupavam em caraterização. As olheiras assustam, a pele anda pálida, nem o BB Cream com umas pinceladas de pó bronzeador disfarçam a palidez da minha figura. Mas pronto, como fui pintar o cabelo no sábado e mantenho o vermelhão, a pele deve achar que ruiva à séria é cara pálida. Num todo, sou uma figura esquálida. O que significa que estou magra. Acabadinho de confirmar na consulta com a nutricionista. Nem tudo pode ser mau.

Ontem bati recorde. Saí do trabalho passava das 20h. Hoje cheguei primeiro que a chefe e ela perguntou se eu lá tinha dormido. As coisas feias que me passaram pela mente enquanto esboçava um sorrisinho amarelo. Pálido, claro está.

Tento inspirar e respirar. Acima de tudo luto para não pirar de vez. Já faltou mais.

Muito trabalho. Stress. Ansiedade. Muito trabalho. Stress. Ca nervos. Muito trabalho.

Sem energia para nada. Nada mesmo. Sinto-me tão derreada que não tenho vontade do que quer que seja. Sinto-me a falhar com tudo e todos. Sem cabeça para as banalidades do dia a dia de uma adulta, como preparar refeições, sem disposição para pequenos prazeres como ler ou escrever no blog. Tão mas tão esgotada que uma amiga enviou-me um email há duas semanas e como não é nada normal eu não responder "rápido", ela mandou-me sms a perguntar se eu estava bem, se tinha recebido o email, se estava chateada com ela. Céus, senti um soco no estômago por falhar com quem tanto gosto. 

Hoje saí da consulta da nutricionista e olhei para o relógio. Uma hora para o início da aula de dança. Queria ir, mas não sentia forças. Os olhos ardem, a cabeça mói, o corpo quebra. Conduzi até casa. Quero um banho quente e dormir. Mas dormir à séria. Não o dormir inquieto que tenho tido nas últimas semanas.

Frustrada. Ando completamente frustrada. E revoltada também. Tanta luta, trabalho, sacrifício, e cai-me à porta de casa uma bomba relógio que estamos a segurar, com todo o cuidado, até ser o "momento" de a fazer explodir. E vai ser uma grande merda. E vai sobrar para nós, que não temos nada a ver com o assunto. E não consigo prever a dimensão dos estragos. E é fodido ser uma espécie de papel higiénico que serve para limpar a grande cagada que os outros fazem. Já dizia uma antiga colega minha: família, só a sagrada e mesmo essa é presa à parede com um prego. 

O meu desejo mais profundo neste momento era naufragar numa ilha deserta. Longe de tudo e de todos. Cansada, farta de gente egoísta, irresponsável, sem noção da porcaria que faz e completamente nas tintas para os estragos que provoca na vida de quem está no seu canto, a lutar dia a dia pela sua vida e futuro. Uma merda. 

Portanto, de messias que carrega a esperança nada tenho. E vou desaparecer novamente em combate, que isto anda tão negro, mas tão negro, que mais vale remeter-me ao silêncio e solidão. Não há força nem sarcasmo que ajude a suportar tanta coisa... que ainda mal começou. É caso para dizer que a procissão ainda nem chegou ao adro. Imagino quando chegar... Ou não quero imaginar, porque só me passam cenários dantescos pela cabeça.

Era ter um botão OFF, fazer um reset. Sem direito a backup. 

 

Era uma vez (começam assim as estórias)

Numa pequena aldeia vivia um casal com dois filhos. O pai trabalhava numa boa fábrica, a mãe era dona de casa, explorava terras e criava vacas e porcos. Um filho varão, que era o orgulho dos pais, uma filha mais nova que foi criada para rainha. Um dia veio uma terceira filha. Sem contarem. Sem quererem. Vinha estragar o casal. Mas já que veio, que fosse para cuidar das terras, das vacas e dos porcos e para olhar pela velhice dos pais. Não precisava de ir à escola. Enquanto reuniram esforços para que o filho varão estudasse e, quem sabe, se fizesse doutor, a filha do meio aprendeu costura e foi à escola, a mais nova desde cedo era para tratar da casa, das terras e dos animais. Não era filha, era criada de servir. Comum naquele tempo. Só que o filho varão não queria estudar, queria boa vida, e o pai, para não perder o filho na gandaia, meteu-o a trabalhar nos barcos de pesca de bacalhau. 

Nessa mesma pequena aldeia havia outra família. Um pai, vindo da cidade, uma mãe, filha de família rica da terra, dois filhos pequenos. Rumaram à capital porque o pai arranjou lá bom trabalho. A aldeia era para passar férias. O filho mais velho queria ser arquiteto, o pai tirano não deixou. Teria a mesma profissão que ele, e para isso bastava um curso técnico. O mais novo era o menino lindo dos papás, fazia o que queria. Ambos os filhos tiveram de pertencer, contrariados, à Mocidade Portuguesa, quando jovens tornaram-se comunistas, como protesto contra o regime e contra o pai tirano, salazarista convicto. Um dia dá-se o 25 de abril e o pai tirano, defensor acérrimo do regime salazarista, elemento integrante da PIDE, vê-se expulso da capital sob ameaças várias. Exilou-se na aldeia de origem. Filho mais velho, rapaz educado e criado na capital, vê-se na plenitude dos seus 19/20 anos isolado na aldeia do norte. 

Num qualquer dia o destino destes dois jovens cruza-se. A jovem que era criada de servir dos próprios pais e irmãos, que foi à escola só até à 4ª classe, e porque a isso obrigaram os pais, e o jovem que vinha da cidade grande, revoltado e contrariado. Podia ser uma grande história de amor. Não foi. Ele provavelmente viu na campónia uma forma de se divertir, ela viu o bilhete de saída da vida miserável que lhe estava predestinada à nascença. E para que o seu objetivo fosse conseguido, simula uma gravidez e obriga o jovem a casar com ela. E ele, feita a desonra e com um suposto filho a caminho, contrariado, não tem outro remédio senão casar. Entretanto há um suposto aborto. E o casamento manteve-se. Reza a história que ele quis um fato preto para o casamento, porque casar, casava, mas a seguir enviuvava e usaria o mesmo fato no funeral da mulher. As fotos atestam: ele casou de fato preto. E a ela valeu-lhe o sogro, que mesmo não gostando dela, não queria as mãos do filho manchadas, e a salvou de um estrangulamento, dias depois do casamento.

E, entretanto, este casamento que era suposto pouco durar, acabou por durar quase 25 anos. E porquê? Porque uma criança nasceu. 13 meses depois do fatídico casamento. Uma menina. A filha que a avó paterna sempre quis ter e não teve, a neta dos avós maternos que não era neta, porque era filha da sua filha desnaturada que tinha fugido ao seu destino: cuidar da velhice dos pais, cuidar das terras, das vacas e dos porcos.

A menina era a salvação da sua mãe, a condenação do seu pai. Pai que não ia trabalhar porque não tinha obrigação de sustentar mulher e filha. Valeram-lhe os avós paternos, apesar de tudo. A menina não tem culpa. Dizia a avó paterna, com voz autoritária e olhos gélidos, como quem ralha ao filho, mesmo adulto, porque não sabe o que faz. A menina não soube o que era colo ou mimo. Soube o que era pancada. Isso sim. Porque depressa se tornou o saco de pancada, onde pai e mãe descarregavam os seus ódios e raivas. Das memórias de infância não há recordação de um abraço do pai, mas de pontapés e empurrões. Há cicatrizes que atestam, como aquela no canto do seu olho esquerdo. Acreditava a menina, de memórias fugazes, que essa cicatriz tinha sido quando o Farrusco, cão da avó, a tinha mordido. Não filha, dissera-lhe um dia a avó, de voz embargada e olhos baços, o Farrusco mordeu-te na orelha. Isso foi o desgraçado do teu pai que te fez, quando te deu um pontapé só porque estavas a espreitar para os sacos do Pão de Açúcar que estávamos a pôr na mala do carro. Bateste na fechadura da mala do carro e por um triz não furaste o olho. Outras cicatrizes há. A memória apagou-se na menina, ou pela tenra idade ou porque é demasiado mau para recordar, e a avó calava-se muitas vezes, escondendo histórias e engolindo lágrimas, embora soasse a ladainha aquele: cuidado com a menina, isso não se faz!

A menina foi crescendo. A mãe numa posse louca por essa filha, já que ela tinha de ser tudo o que ela não fora. Estuda para mostrares aos outros, estuda para fazeres ver que hás-de ser doutora. O pai, numa raiva cega que crescia abafada. Um dia aquele casal, que de casal nada tinha, deixou de se falar. Na verdade, deixou de gritar e discutir. Numa casa de três era insuportável o silêncio. Porque aquele pai, que de pai pouco tinha, achou que também devia deixar de falar para a filha. Tinha 14 anos. As prendinhas que ela lhe dava, numa busca de afeto, acabavam estilhaçadas no chão, atiradas contra a parede. Os postais que lhe escrevia eram rasgados em pedaços. Mas era a filha adolescente que lhe cozinhava ou lhe tratava da roupa, porque ele se recusava a comer o que a mulher cozinhava, e a mulher recusava-se a tratar-lhe da roupa. E a filha foi crescendo. No meio de uma guerra entre os pais, num completo desespero pela falta de afeto do pai e possessividade da mãe. Do pai recebia apenas dinheiro para estudar. Porque era a promessa dele, a sua única obrigação: quando ela acabar de estudar, desapareço  - profetizava. E quando, pressionada pela mãe para ser doutora, foi para a universidade, o pai ficou ainda mais revoltado, numa fúria cega, porque eram mais uns anos a que se via numa obrigação para com aquela filha que não quis. Foste a desgraça do teu pai - dissera-lhe o avô paterno, já ela era uma jovem adulta, quase formada, quase (ilusoriamente) livre. Não devias ter nascido. Palavras marcadas a ferro e fogo, mas que fazem sentido. Se essa menina não tivesse nascido, aquele casamento, que nunca deveria ter acontecido, acabaria mais cedo. Ainda que condenado socialmente, não havia filhos, seria mais fácil. Mas não. A menina, que nunca pediu para nascer, havia chegado ao mundo para complicar toda esta história. Do lado da família da mãe nunca houve família, porque nunca lhe foi reconhecido esse estatuto. Do lado da família do pai carregava esse fardo de ter sido a desgraça e a infelicidade.

A menina sou eu. E o meu pai só me dirigiu a palavra na altura do divórcio porque precisava de um intermediário para resolver questões práticas, como separação de bens. 

O meu pai faz anos hoje. E eu vasculho nas minhas memórias o aniversário em que ele me tenha dado um beijo de parabéns. Já não falo em prendas. Falo num beijo, num abraço de pai. Não encontro. Encontro as surras que apanhei porque sim. Encontro as vezes que fiz xixi pelas pernas abaixo com medo dele, porque eu tinha tido o desplante de me servir da comida primeiro, e ele simplesmente puxava da toalha, ia tudo para o chão e ninguém comia. Lembro-me de ter trabalhado num part-time nas férias de verão antes do 12º ano e nesse ano nem um centavo ele deu para os livros, porque eu tinha trabalhado, tinha dinheiro, que comprasse eu os livros. E comprei. E paguei metade da carta de condução que comecei a tirar nesse ano. E a merda do carro que supostamente ele me ofereceu na altura que completei 19 anos, foi apenas a sua oportunidade de deixar de ser o motorista da minha mãe (que não tem carta de condução), porque logo a seguir comprou um comercial para ele e deixou de me levar a mim ou a ela onde fosse preciso, e acreditem que "onde fosse preciso" era mesmo o estritamente necessário e indispensável. Na memória tenho um dia em que, adolescente, precisei de ir ao dentista com urgência, e fui de bicicleta, à chuva, à vila mais próxima, que ficava a cerca de 8 km. Porque ele não tinha obrigação de levar a filha ao médico. Na memória tenho muitos episódios destes. Marcados a ferro e fogo na alma. E amaldiçoo este sangue que me corre nas veias. 

O meu pai faz anos hoje. E eu vasculho nas minhas memórias de 35 anos de vida por um motivo que me faça pegar no telefone e dar-lhe os parabéns. Não encontro. A sociedade, que tanto condena os filhos porque pais são pais e tudo se lhes perdoa, que me desculpe, mas eu não encontro motivo algum para pegar no telefone e dar os parabéns ao meu pai. 

Quando arranco de dentro deste meu armário de esqueletos estas memórias dão dolorosas, eu só me pergunto como sobrevivi. Ainda que saiba que, algumas vezes, estive à beira do abismo. Uma mãe tóxica, um pai ausente, frio, distante, que via em mim a sua desgraça e infelicidade. Que cocktail explosivo poderia ter resultado?

Este podia ser o argumento rebuscado de uma qualquer novela mexicana. Não é. É a pura realidade. Aquela em que nasci, cresci, e sabe-se lá como, sobrevivi. Uma história que começou muito antes de eu existir, e por causa da qual eu levei com todas as suas nefastas consequências. A minha única culpa foi a de ter nascido. 

Respiro fundo e fecho o armário, qual Pandora que fecha a sua caixa guardando a esperança. Talvez tenha sido a esperança a mostrar-me o fundo do túnel. O que não nos mata, torna-nos mais fortes. E quando faço estas incursões ao meu passado sinto-me forte. E hei-de continuar a ser forte. Esgotada, mas forte. Mesmo sozinha, orfã de pais vivos, mas forte. Afinal, com pais destes, quem precisa de inimigos? Aprendi desde cedo, muito cedo, a contar comigo e só comigo. Foi assim que me moldaram a ferro e fogo.

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O meu pai faz anos hoje. E eu lembro-me dele. E não encontro uma única boa memória. Dar-lhe os parabéns porquê? Para quê? 

 

Alegoria

Imaginem-se num piquenique. Um agradável dia de sol, bons petiscos, bom convívio, conversa fácil, sorrisos bons. E depois vem uma pequena brisa, que ao inicio refresca, mas vai subindo de tom ao ponto de virar os copos, a toalha, deixar-nos de pele arrepiada. Entretanto apareceu uma formiga, atraída pelos petiscos. Não se liga nenhuma, é só uma minúscula formiga, não vale a pena dar importância. Atrás dessa formiga, outras se seguem e quando damos conta, estamos a bufar formigas de cima da toalha, com vontade de as regar com álcool e acender um fósforo. Entretanto vem um mosquito zumbir. Não ligamos, um mosquito não incomoda assim tanto. Depois vem outro, e outro, quando damos conta, andamos a bufar às formigas, à chapada aos mosquitos, com vontade de pulverizar tudo à nossa volta com mata insectos, mata formigas... mas há que ser resistente e não deixar que estas pequenas coisas estraguem o agradável piquenique, certo? Há que fazer sacrifícios, esforços por um bem maior, não deixar que pequenas coisas estraguem o que realmente importa.

Até que depois da brisa, das formigas, dos mosquitos, vem aquela nuvem, primeiro encobre o sol começa a escurecer, a ficar cada vez mais carregada, e uma pessoa farta de ter pele de galinha, bufar às formigas, andar à chapada aos mosquitos, pondera se não será melhor arrumar as trouxas e desistir do piquenique, antes que desabe uma carga de água.

Para quem não perceber a alegoria, é ler as palavras que a M.J. tão habilmente escreveu, na ignorância que eu, ao lê-las, me visse de alma despedida a um espelho. As palavras que há dias remeti para um silêncio, porque estava demasiado cansada de afastar mosquitos e formigas da minha vida, sem saber se valia a pena manter o esforço do piquenique, ou arrumar as trouxas.

As pequeninas coisas, por mais insignificantes que pareçam, não matam mas moem. E quando repetidas e repetidas, mesmo depois de já terem levado um aviso, começam a encher o saco, a paciência, começam a dar cabo dos nervos e da vontade de fazer um esforço por um bem maior. Porque uma formiga é inofensiva. Já todo um formigueiro é outra conversa. 

 

Há dias menos fáceis

Quando nada se tem a dizer, o silêncio é o mais sensato.

Eu até tenho que dizer. Tanto para pôr para fora, num disparar de palavras que tentam definir sentires. Só que as palavras não saem, de tão parcas que são para estes sentires. E o tempo urge em milhentas outras coisas: é o trabalho que o chefe me passou e que me absorve as horas, deixando tudo o resto a acumular; é a dor de cabeça que por aqui se instalou já há três dias, e nem o Benuron ao pequeno almoço fez efeito; é o coração apertado porque avó do Gandhe está hospitalizada com prognóstico grave e reservado, e ele anda murcho, a murmurar que a avó não se safa; e também somos nós, no que poderá ser mais uma crise, porque as relações também são isso, crises e choques de (in)diferenças; sou eu a querer estar isolada numa ilha deserta, numa gruta no Tibete, no cu do mundo, quieta, em silêncio, a sossegar a alma, as tristezas e aflições, a lamber as feridas e chorar as angústias.

Quando não se tem nada a dizer, o silêncio é o mais sensato.

E num mundo onde se partilham as alegrias e boas experiências, as festas e os convívios, os passeios e as viagens, os sorrisos e os abraços (mesmo que sejam só para as fotos), nesse mundo perfeito e feliz não cabem as tristezas e os dramas das vidas comuns e banais.

Remeto-me ao meu silêncio. É o mais sensato.

 

 

Há-de passar

Está um temporal de meter medo. Na verdade dá-me nervos, que estou farta de chuva, de frio, de vento, de andar abafada, de kispo e botas, de pijamas quentes e meias polares nos pés. Estou saturada. Do tempo cinzento, sombrio, deprime-me, só quero hibernar, dormir e acordar quando estiverem 30º.

Depois é esta sensação de esgotamento, de me faltar energia, cada movimento, tarefa, custa, dói, exige mais do que o necessário.

Da falta de ferro e de sol, ando pálida, esquálida, ainda por cima dou comigo a escolher preto para vestir, dia sim, dia sim.

Sem paciência, sem vontade de rir, de sorrir, de fazer o esforço.

Sinto-me quebrar, sem força, mas ainda assim, teimosa, a segurar-me de pé, olhar perdido no vago, semblante carregado, como quem enfrenta olhos nos olhos a tempestade, e mede forças de igual para igual.

Resigno-me, enfim. Quebro. Estou sem paciência para me esforçar. Para sequer querer isso. Há-de passar. A chuva, o temporal, tudo o resto... há-de passar. 

 

Quando o orgulho é amor próprio

O orgulho não leva a lado nenhum. Aquele orgulho desmedido, egoísta, que cega e fecha uma pessoa na sua própria verdade, ignorando tudo à sua volta. O orgulho que impede que se reconheçam erros, que se admita falhas, que se peça desculpa.

Mas há o orgulho que é amor próprio. O orgulho de quem não se quer deixar mais levar por faltas de respeito e consideração. O orgulho de quem se fartou de engolir insultos para não alimentar conflitos. O orgulho de quem já enfiou a cabeça na caixa da areia em prol de um (suposto) bem maior.

E porque os outros vão até onde deixamos, há o orgulho que é amor próprio, que nos faz reagir para nos protegermos, o orgulho que dá um murro na mesa e diz basta. É a esse orgulho que agora me agarro, com unhas e dentes: o de me preservar, enquanto pessoa digna a respeito e consideração. O orgulho de fera ferida, que rosna porque se cansou de ser perseguida e mutilada.

E foi esse mesmo orgulho que me levou ontem a comunicar ao Gandhe que eu não vou ao almoço. Ele pode ir, tem todo o direito de almoçar com a mãe, a avó... eu não sou ninguém para o impedir. Mas eu não vou. Porque mereço algum respeito e consideração, e ando há anos a engolir sapos e a fazer fretes, para quê?? Cansei. Ele pode ir. Eu não vou.

E cortou-me por dentro ver o olhar triste dele, o engolir em seco. Não ficou chateado comigo. No fundo sei que ele me entende, me dá razão nos meus motivos. Por certo não contava. Sempre foi o engolir o sapo, ir contrariada e fazer o frete por ele, levar com as pedras e o veneno viperino, e fazer-me de parva, como se não percebesse o ataque. Mas desta vez é diferente. Tem de ser diferente. E não quero ceder. Não posso. Se tenho algum respeito por mim mesma, se tenho algum amor próprio, não posso ceder. 

Agora fica ele com a bomba na mão. Vai, não vai, o que vai ter (ou não) coragem de dizer à mãe. A verdade é que eu até gostava que ele fosse ao almoço, sozinho. E no alto dos seus 34 anos, se assumisse como o homem independente, adulto que é e lhe dissesse o que tem a dizer. Mas sei que ele com a mãe é um menino. "Já sabes como ela é, não vale a pena". Pois... já ouvi isto de várias pessoas. Ela é tão dominadora, tão manipuladora, tão prepotente, sempre no alto da sua superioridade e arrogância, que não há quem lhe faça frente porque não vale a pena

Não sou eu que lhe vou fazer frente. Mas também não que lhe quero aparecer mais à frente, a engolir as pedras que ela atira, os insultos que cospe como víbora subtil. Não me vou sujeitar a servir-lhe de tapete para ela pisar como bem entende. Ainda mais eu, que demorei anos a conseguir ter amor próprio suficiente para me afastar de uma mãe que me destruía. Prefiro o orgulho à hipocrisia. Ao cinismo. Prefiro a minha paz de espírito. O meu amor próprio. 

 

Pandora e o dia dos namorados

Eu sei, venho aqui dizer que não ligo patavina ao dia e cai-me tudo em cima. Mas Pandora explica.

Na adolescência, quando comecei a ter noção disto do dia dos namorados, ou coincidiu ser a altura em que o fenómeno se começou a espalhar por cá, eu era uma adolescente solteirona. Portanto, no alto da minha solteirice, olhava de lado o histerismo criado à volta do dia, vomitava numa dor de cotovelo mal disfarçada de azia, no alto da minha arrogante solidão de solteira, o desprezo pelos ursinhos remelosos com o coração "I  U", a rosinha vermelha e os postais com as promessas de amor eterno.

Depois veio a moda das alianças. Dia dos namorados era dia para trocarem alianças. Podiam até namorar há duas semanas, mas trocavam alianças, num compromisso de amor eterno. E se já desprezava os ursinhos, então as alianças eu atirava para o plano do absurdo. Houve um ano, no meu 12º, que estive a aturar o dia todo uma amiga que queria porque queria um urso gigante que tinha visto na montra de uma loja, e o idiota do namorado ofereceu-lhe uma aliança. A sério. A solteira tinha de ser a psicóloga destes histerismos. Mas à conta deles, lidava muito bem com a minha solteirice, aliás, se aparecesse em casa com um peluche de coração em riste sei lá o que me acontecia.

O dia dos namorados era aquele dia em que eu era mera espetadora de todo um show que nada me dizia, e me levava a crer que, se um dia eu vivesse um dia dos namorados com namorado, não queria nada daquilo.

O namorado veio, já na casa dos 20 e... Meses depois o meu primeiro dia de namorados não solteira. O que fazer? Sabia lá. Não queria peluches, nem rosas vermelhas, nada de alianças. Jantar fora. Descobri logo que era mais uma parvoíce. Restaurantes apinhados de romantismo vazio, decorações burlescas, ementas com o triplo do preço. Tirem-me deste filme.

Fomos vivendo à nossa maneira o dia dos namorados, sem peluches, rosas vermelhas, e os jantares fora eram atirados para dias normais, corriqueiros, sem decorações burlescas e romantismos vazios.

Ao sexto ano de namoro, ele achou que era altura de pormos aliança. Levou-me, sem eu a saber, a escolher. Nesse dia eu tinha roído as unhas, o verniz estava todo lascado, as unhas uma miséria. E fui a uma ourivesaria naquele preparo de unhas escolher a aliança. Lindo.

As alianças ficaram prontas a tempo do dia dos namorados, não que o tivéssemos pedido. Mas precisamente nesse dia 14 de fevereiro a sogra teve um acidente de carro grave. O romantismo da troca de alianças ao fim de 6 anos de namoro foi dar-me a caixa para a mão, apressado, enquanto corria para o Hospital. Eu e a minha sina. A sogra resolveu ultrapassar uma mota numa curva e bateu de frente com um GNR (eu sei, ela tem cá uma pontaria) na manhã do 14 de fevereiro que era suposto termos um dia romântico, com a troca de alianças. Que pariu o S. Valentim e o dia dos namorados. E a pontaria da sogra também.

As poucas tentativas de comemorações do dia saíram mais furadas que uma peneira. Que se lixe o dia dos namorados. Os corações, os ursos, as flores, os postais, as alianças trocadas nesse dia como juras de amor eterno. Agora vomito o dia dos namorados, não numa dor de cotovelo mal disfarçada de azia, no alto da minha arrogante solidão de solteira, mas na maturidade de uma relação de anos que, sim, precisa de ser alimentada com momentos doces e românticos, mas não precisa de um dia marcado no calendário para se obrigar a romantismos vazios rodeados de decorações burlescas a comer camarão ao dobro do preço, o dia de usar uma lingerie especial para A queca do ano.

Cada um vive as datas como as quer. O dia dos namorados, a mim, realmente não me diz rigorosamente nada de especial, nem tenho lembranças doces dignas de serem recordadas.