Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Estórias na Caixa de Pandora

Podia ser feriado...

Impressão minha ou pertenço a uma minoria para quem hoje é uma comum segunda feira de trabalho?

Nas ruas não há trânsito, já no estacionamento do prédio, tudo cheio, tudo em casa, janelas abertas, tv's em alto som, estendais cheios de roupa a esvoaçar ao sol. Na empresa tudo a meio gás, nem chefias tenho para validar ou assinar o que quer que seja para despachar serviço. É estar a trabalhar para aquecer, como se fosse preciso que felizmente o tempo está muito agradável. 

O fim de semana prolongado não teve descanso, como eu previa, mas encheu bem o coração e a alma. É um cansaço bom que sinto hoje. Ainda que perfeito era ter tido o dia livre para estender o fim de semana. Recebi visita dos meus amigos alentejanos e foi muito bom estar com eles, matar saudades, e levá-los a explorar a cidade daquela forma que só se faz quando se é turista. Fui a sítios onde raramente vou, voltei a sítios onde gosto de ir de vez em quando, fui turista e guia turístico na minha cidade. Comemos muito peixe, já que é o que não falta numa cidade à beira mar plantada. Apanhámos sol numa esplanada na praia. E tentei esquecer as rotinas, os horários doidos que tenho tido, esta sensação frustrante de sentir a vida suspensa em tantos aspetos, sem saber o que fazer, o que decidir, sem tempo para o que quer que seja, inclusivamente assentar ideias e tomar decisões.

Receber os meus amigos foi uma pausa que tentei aproveitar ao máximo, embora tenha noção que não consegui de todo desligar-me. Pensar na semana que aí vinha, o trabalho, a agenda, com reuniões, formações, as coisas a que já sei que vou ter de faltar, e as outras que não sei se consigo ir porque sei a que horas entro e nunca sei a que horas saio, o que tenho de fazer, deixar de fazer, quando fazer. E só apetece bater-me por não conseguir desligar totalmente destes stresses que vão oscilando o meu humor, a minha disposição, a minha energia. Quando estava a contemplar o mar e tentava absorver a paz que o horizonte de água salgada traz, sentindo o sol na pele, o cheio a maresia, debatia-me por dentro com o que tanto me tem causado ansiedade e stress e dúvidas, com o que me tem tirado a paz de espírito e o sono reparador à noite.

Não foi um fim de semana de Páscoa, com amêndoas e ovos de chocolate e cabrito na mesa e outras iguarias típicas desta festividade. Foi um fim de semana muito mais doce que toneladas de amêndoas e ovos de chocolate, muito mais aconchegante que aletria morninha, muito mais saciante que qualquer mesa de banquete repleta de deliciosas iguarias. E mea culpa por agora estar com esta sensação de não ter aproveitado em pleno, porque não consegui desligar, alhear-me desta realidade que tanto me tem absorvido e engolido. 

Não descansei, mas certamente se eles não tivessem vindo eu teria passado grande parte do tempo afundada no sofá, sempre com as ideias a fugirem para os mesmos sítios que tanto me sufocam nos últimos tempos, sem energia ou disposição para meter o nariz fora de casa e ir apanhar sol e vento marítimo nas trombas a ver se acordava para a vida. Hoje estaria, com toda a certeza, mais cansada e frustrada. Assim estou com um misto de cansaço físico e rejuvenescimento mental e emocional. E repetiria tudo outra vez só pelo prazer de estar com as pessoas que me são tão queridas e tanto me enchem o coração. 

 

 

O reencontro

Foi ontem. Que saudades! Tão pouco tempo, e soube pela eternidade. Quero mais. Todas as semanas, meses, anos. Não quero esperar outros 16 anos por um encontro assim.

Há 16 anos que não estávamos as quatro, assim, juntas. Regressámos à cidade que nos acolheu e onde nos cruzámos. Estamos nitidamente mais maduras, velhas, pronto, deixemo-nos de eufemismos, mais cheinhas das peles, com cabelos pintados para esconder brancas, com olheiras pelas rotinas preenchidas. As minhas três amigas com as suas filhotas, a dizerem-me que tenho de também ter uma menina para ficarmos iguais. E eu até penso que era tempo de ter a minha Eva. Mas isso é outra história.

Aquele primeiro abraço, depois de anos, as lágrimas que corriam, de verdadeira emoção. Caramba, foi mágico. 16 anos depois seria de esperar algum constrangimento. Nada. Falamos e rimos como se ainda na semana passada estivéssemos estado todas juntas a conversar e a passear com o Tejo como cenário. Como se ainda vivêssemos na mesma cidade e nos cruzássemos quase todos os dias.

Temos mais 16 anos em cima, histórias que nos preencheram os dias e a vida, as escolhas, as dificuldades, os percalços, os percursos trilhados, os empurrões da vida, as alegrias e conquistas, e ontem estávamos ali, as quatro caloiras quem se conheceram em 1999 na FLUL, com as suas vidas presentes, os maridos e filhas, e a mesma empatia, o mesmo à vontade, a mesma amizade, união e partilha leve de quando éramos aquelas jovens caloiras, numa cidade estranha, que se cruzaram nos corredores da FLUL, numa aula de grego, e ali nasceu esta amizade que sobreviveu ao tempo e à distância. Simplesmente não consigo descrever.

Foi mágico. E as palavras são parcas para ilustrar as horas que partilhámos ontem. E a promessa de não esperarmos outros 16 anos. Não pode. Isto é bom demais para demorarmos tanto tempo a conseguir reunirmo-nos.

Num fim de semana agridoce, numa fase em que estou a repensar a minha vidinha e o meu futuro, o que vale ou não a pena, o que deixar pelo caminho para seguir em frente, este reencontro foi uma brisa fresca no meu rosto, o aconchego no coração, um sinal para me recordar que nos tempos mais adversos, as melhores pessoas que se podiam cruzar comigo, aparecem e despertam o melhor de mim, fazem-me fechar os olhos, respirar fundo e acreditar que vai correr tudo bem.

 

 

O poder da (verdadeira) amizade!

Corria o ano de 1999. Terminava o 12º, concorria à universidade, confiante que entrava na primeira opção. Concorri ao mesmo curso a quatro universidades diferentes. Acreditava que entrava na primeira opção. Não entrei. E se foi um momento de verdadeiro pânico toda a mudança que se avistava de um momento para o outro, sem sequer ter sido prevista ou equacionada, ter de deixar para trás a zona de conforto, as supostas amizades eternas do liceu, a verdade é que foi O ponto de viragem da minha vida, de redescoberta de mim, de muita aprendizagem, de ser e me tornar mais eu.

Nesse ano que estive em Lisboa, na Faculdade de Letras, conheci várias pessoas, mas amigas, fiz três: a S., a T. e a H. Duas alentejanas, de zonas diferentes, uma açoriana. Passámos belos momentos, partilhámos histórias, experiências, explorávamos a cidade que era nova para todas nós. Uma amizade nasceu. 

Ao fim do primeiro ano pedi transferência para a Universidade de Aveiro. Consegui. E, uma vez mais, triste, deixei as amigas que tinha feito para trás. Mas elas continuaram tão presentes na minha vida, mais do que as amizades de anos do liceu. Escrevíamos frequentemente, sim, escrever, na altura não eram comuns os mails, nem haviam redes sociais, e a internet não era para todos. Fui um dia visitá-las a Lisboa, passei férias com a S. no Alentejo que me deu a conhecer, pelo qual me apaixonei, ela veio a Aveiro passar férias, a H. entretanto tinha o namorado no Porto a estudar, e volta e meia vinha de fim de semana a Aveiro, onde ele também vinha, e íamos assim estando juntas.

Acabámos os cursos, elas regressaram às suas terras, começámos na busca de emprego, primeiros trabalhos, desempregos, situações precárias, dificultava viagens e férias, a T. casou, foi mãe, as carreiras profissionais começaram a encarreirar, a H. casou, foi mãe, ao fim de uns anitos consegui regressar ao Alentejo e rever a S., temos conseguido ver-nos todos os verões, entretanto ela casou, foi mãe... eu continuo não casada e com gatos, mas pronto. O meu contacto tem sido mais intenso e frequente com a S., de tempos a tempos lá vou falando com a H. ou com a T.

Em 2016 andávamos, eu e a S. e os nossos respetivos, a planear uma férias nos Açores, para visitar a H. Mas a S. vendeu casa e comprou outra, obras, mudanças, gastos, viagem aos Açores adiada. Nós também nos metemos na compra do carro, viagem aos Açores adiada sem problema. 

Eis senão quando há dias recebo uma mensagem da S.: a H., o marido e a filha vêm a Lisboa no final do mês passar uns dias. Que tal um reencontro, num almoço de domingo?

Delirei, mas fiquei um pouco a pensar no custo que é ir e vir a Lisboa por um almoço de um par de horas. Falei com o Gandhe que me disse logo: é mais barato ir a Lisboa do que aos Açores. Não vês as tuas amigas há anos, mais de 10(?). É uma oportunidade que tão cedo não se repete. É uma oportunidade de uma vida.

Pulei de alegria. A sério. Não há palavras para descrever como me estou a sentir.

A possibilidade de estarmos, novamente as quatro, juntas, na cidade que nos acolheu e onde quis o destino que as nossas vidas se cruzassem?! Bom demais!!

Portanto, num fim de semana não muito distante, rumarei a Lisboa para uma espécie de reunião do curso de Línguas e Literaturas Clássicas de 1999/2000 da FLUL. É que ando aqui toda cheia de ânsias por aqueles abraços. 

 

 

Em recuperação - parte II

A recuperar do melhor casamento que alguma vez assisti, vivi, participei... whatever. 

Tudo absolutamente lindo, perfeito, único, indescritível, e uma animação que nunca vi envolvendo noivos e convidados, numa festa realmente vivida e partilhada. 

Quase que me deu vontade de casar. Quase. 

Vou ali repor as energias e voltarei em breve.