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Estórias na Caixa de Pandora

Do aniversário

Sábado cheguei às minhas 34 primaveras. Medo! 

Foi um dia calmo. Esqueci-me de pôr som no telemóvel, "perdi" algumas chamadas, que foram devolvidas ou respondidas por sms. A verdade é que o dia todo temi receber uma chamada, embora no fundo soubesse que ela não viria. Andei um tanto ou quanto ansiosa, melancólica. Ia-me emocionando com algumas felicitações, e estava longe de imaginar que o jantarinho com um casal amigo se ia transformar numa festa surpresa com alguns dos meus amigos mais especiais, próximos e íntimos dos últimos tempos. Caramba, que engoli em seco e ainda não sei como não borrei a pintura toda. 

Mas havia aquele vazio, que nada nem ninguém preenche. E se o dia acabou sem a dita chamada, havia uma agreste mistura de alívio por não ter sido confrontada, mas uma profunda tristeza. 

Família é quem nós escolhemos. A vida encarregou-se de me dar oportunidade de conhecer pessoas fantásticas, especiais, com bom coração. Amigos para todos os dias da vida. E não é justo para eles, nem para mim, deixar que a tristeza de quem não quer estar na minha vida ensombre tudo. 

Foram precisos 32 anos para mostrar que mãe não tem direito a tudo, a fazer tudo o que quer, a tratar como quer. Agora foi preciso chegar aos 34 para perceber que mais vale esquecer que tenho mãe, já que ela também esqueceu que tem filha. Se acabei por me habituar às ausências do meu pai, tanto que já nem ligo se nada diz nos anos (acho que se contam pelos dedos de uma mão as vezes que ele me deu os parabéns), o mesmo terei de fazer em relação à mãe. Dói pra caramba, custa. Mas cansei. E não mereço. Nem as pessoas que estão na minha vida merecem que nestes dias em que me querem acarinhar, eu esteja longe, triste e a dar valor a quem não merece.

Portanto, este aniversário foi diferente, porque nunca tinha tido uma festa surpresa, foi estranho, porque me sinto desconfortável em ser o centro das atenções, e foi revelador, como uma epifania que eu tardava a interiorizar: importa quem está. E assim me sinto leve. E agradecida.

Venham então os 35!