Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Estórias na Caixa de Pandora

Gerir expectativas

 

 

O problema não são os outros. Sou eu. E a expetativa que crio em relação a eles. Esta mania de me entregar e dar(-me) tanto que depois quando eu preciso de ajuda, de apoio, de cinco minutos do seu tempo, está tudo concentrado nas suas vidas, extremamente ocupados sem espaço e vontade para a minha pessoa.

É fodido, mas é a vida. Aceito. Tenho de aprender, de uma vez por todas, a não criar expetativas em relação aos outros e muito menos esperar que um dia retribuam, nem que seja uma ínfima parte, o que já lhes dei. Tenho de aprender a ser ainda mais egoísta com o meu tempo e a minha energia, a saber que só posso contar comigo e comigo mesma, e que mesmo eu própria posso não estar à altura das expetativas.

E quando tiver definitivamente aprendido essa lição, não terei de lidar com as desilusões amargas que me assaltam nos meus momentos de fragilidade.

 

Era tudo o que (não) precisava!

Sentia-me já com algum animo para juntar os meus cacos, sacudir o pó e fazer-me à estrada da vida, quando a vida, que não está para meiguices, achou que era hora de eu levar uma valente bofetada.

Recebi ontem uma SMS, vinda da mãe de quem não havia qualquer relação desde há quatro anos, a informar que a minha avó faleceu.

E se eu era um monte de cacos, em poeira de caquinhos fiquei. 

 

Escondida, mas não esquecida?!

E afinal há quem note a falta de sorriso.

E o ar abatido.

Há quem me alerte para os indícios de depressão à vista.

Há quem, na distância de kms, me resgate do isolamento dormente em que me tenho mantido.

Sabes lá tu o que o teu "está tudo bem contigo?" me fez estremecer?

Afinal sou vista. Afinal há quem se lembre que eu existo. E que posso estar a precisar de um "olá, está tudo bem contigo?".

 

Se tivesse de resumir a semana numa palavra...

... seria morte.

Dramático? Forte? Sem dúvida. Mas real.

Na quarta começo o dia com a notícia da morte da avó de uma grande amiga. Um aperto no peito, uma sensação amarga por estar a centenas de kms e não lhe poder dar um abraço.

Horas depois, no mesmo dia, soube da morte do pai de um amigo. Murro no estômago. Ninguém contava, foi tão repentino, tão inesperado, tão chocante. 

Por fim, uma amiga que no fim de semana tinha resgatado dois gatinhos recém nascidos abandonados à sua sorte, uma lutadora que tudo fez para tratar deles e eu, em socorro, recorri a pessoas conhecidas dos meus tempos de associação para ver se arranjava uma gata que estivesse a amamentar e pudesse adoptar aqueles pequenotes. Depois de muitos contactos trocados, palavra passa palavra e eis que uma mamã adotiva aparece. A felicidade e o alívio. Logo toldados por um internamento repentino dos pequenos bebés. Um deles teve alta no próprio dia e seguiu para a mamã adotiva, que o recebeu muito bem. O outro permaneceu internado e não sobreviveu. 

Mais um murro no estômago. No mesmo dia. Assim, notícia atrás de notícia. Morte atrás de morte.

O meu feriado não foi na praia, nem numa esplanada. O meu feriado foi juntar-me a um grupo de pessoas, algumas amigas, outras conhecidas, outras desconhecidas, mas todas com uma missão: ir confortar o amigo que acabara de perder o pai. Uma hora de viagem até à serra, meios perdidos nas curvas e contracurvas, moídos pelo calor, com um sentimento a pesar cá dentro, mas chegámos ao destino, e juntámo-nos todos em redor do nosso amigo, em múltiplos abraços, apertos de mão, palavras de apoio. A presença que conforta num momento de grande dor. 

Vim tarde para casa. Esgotada emocionalmente. Com um vazio cá dentro. Com a cabeça perdida e vaga, alheia.

Hoje foi dia de trabalho mas passei as horas apática, desconcentrada, sem ponta de energia. 

Agora é respirar fundo, aproveitar a fim de semana para ver se reanimo e melhores dias virão. Para todos. 

 

Autocensura

Escrevi um longo post, literalmente a vomitar os dramas que me invadiram a vida e me derrubaram a paz nas últimas semanas. Escrevi num frenesim de quem quer expurgar as preocupações, as ansiedades e os medos. De quem quer, desesperadamente, voltar a ter controlo sobre a vida, acreditar que tudo vai correr bem e resolver-se. Que entre mortos e feridos, hei-de escapar. Que os planos e projetos que desenhámos no arranque do novo ano não estão, de todo, perdidos. Ainda que os tenhamos de reformular, refazer, redefinir, sim é possível lutar por eles. 

Mas está ali, guardado nos rascunhos, sem coragem de o publicar. Já desabafei inúmeras vezes sobre estórias dos meus dias, das minhas tristezas e preocupações, das minhas dores e angústias. Mas são as minhas estórias, se publiquei publicamente, foi sobre mim e foi decisão minha expor-me. Desta vez não sou a protagonista. Sou um dano colateral, e por isso está a custar publicar algo que envolve outras pessoas, ainda que sob anonimato, ainda que sem nomes, nem iniciais, nem nada que as possa identificar. E é absolutamente irónico eu ter esta espécie de respeito por quem não teve uma gotinha dele por mim (nós). Nem respeito, nem consideração nem merda nenhuma. 

A tensão tem aumentado. Começo a soltar faíscas, sabendo que não tarda o rastilho será aceso e vai explodir. Não consigo prever com exatidão os danos. As consequências. Mas vou fazendo uma ideia, daquilo que conheço dos principais intervenientes, daquilo que já senti na pele. E este ter de esperar e não poder fazer nada, este tentar precaver-me e salvaguardar-me antecipando as prováveis reações e consequências está a dar comigo em doida. 

Vai tudo correr bem. Acreditar e confiar. Eu quero, muito. Mas está difícil. 

Entretanto, sinto-me um pouco mais leve por ter exorcizado pela escrita o que me angustia. Mas por enquanto ficará ali, nos rascunhos, fechado a sete chaves, sem saber se alguma vez será publicado.

 

As máscaras

Poderia ser um post sobre o Halloween, essa espécie de carnaval temático, uma tradição importada que pouco ou nada tem a ver com a nossa cultura. Mas não. Mera coincidência.

Falo das máscaras que usamos na vida, no dia a dia, na sociedade. Não que usar essas máscaras seja sinónimo de falsidade, mentiras. Ou pelo menos não de forma generalizada.

Eu tenho as minhas máscaras. Como pessoa tímida e insegura, uso a máscara do humor para quebrar gelo. Uso o humor comigo própria, para relativizar coisas que de certa forma me afetam. Antes do humor eu ficava-me mesmo por uma certa distância, quieta no meu canto, facilmente me catalogavam como antipática e arrogante... até o gelo se quebrar, eu me sentir um pouco mais à vontade e deixar cair a máscara que usava como defesa. 

Mas tem dias que qualquer coisa faz a nossa máscara de defesa cair. E a minha caiu-me aos pés este fim de semana. No rosto estava bem estampada a frustração que me invadia. Uma tristeza imensa por me ver assaltada por fantasmas do passado. Abriu-se o armário de esqueletos e revivi certas sensações que me frustraram, magoaram, marcaram. Não há humor que lhe valha. Só este ficar quieta no meu canto, calada, de cara fechada, que seja a antipática, a arrogante; as pessoas só vêem o que querem mesmo, e a arrogante que julgam ver é, nem mais nem menos, uma miúda assustada, com vontade de fugir e chorar.

 

Há dias menos fáceis

Quando nada se tem a dizer, o silêncio é o mais sensato.

Eu até tenho que dizer. Tanto para pôr para fora, num disparar de palavras que tentam definir sentires. Só que as palavras não saem, de tão parcas que são para estes sentires. E o tempo urge em milhentas outras coisas: é o trabalho que o chefe me passou e que me absorve as horas, deixando tudo o resto a acumular; é a dor de cabeça que por aqui se instalou já há três dias, e nem o Benuron ao pequeno almoço fez efeito; é o coração apertado porque avó do Gandhe está hospitalizada com prognóstico grave e reservado, e ele anda murcho, a murmurar que a avó não se safa; e também somos nós, no que poderá ser mais uma crise, porque as relações também são isso, crises e choques de (in)diferenças; sou eu a querer estar isolada numa ilha deserta, numa gruta no Tibete, no cu do mundo, quieta, em silêncio, a sossegar a alma, as tristezas e aflições, a lamber as feridas e chorar as angústias.

Quando não se tem nada a dizer, o silêncio é o mais sensato.

E num mundo onde se partilham as alegrias e boas experiências, as festas e os convívios, os passeios e as viagens, os sorrisos e os abraços (mesmo que sejam só para as fotos), nesse mundo perfeito e feliz não cabem as tristezas e os dramas das vidas comuns e banais.

Remeto-me ao meu silêncio. É o mais sensato.

 

 

Quando as palavras falham

Ainda que já tenha estado naquela situação, passado pelos mesmos sentimentos, ver alguém de quem gosto a passar por isso deixa-me assim, sem chão, meia aturdida, sem saber que dizer para confortar. Talvez porque saiba que, no fundo, pouco ou nada conforta nessas horas.

Esta semana uma amiga, que conheci no atual emprego, recebeu a carta de rescisão de contrato. Deixou-me surpresa. Não esperava. Sei que ela não se sente bem e anda a definhar a cada dia que passa. A chefia deixa muito a desejar, o ambiente da equipa onde está inserida é um pouco de cortar à faca, as funções que ela tem não fazem justiça às capacidades e competências dela, e sei que ela merece melhor e procura por melhor. Ainda assim, receber uma carta e um telefonema da empresa de outsoursing a comunicar que termina funções a 30 deste mês é um murro no estômago. É um tirar do tapete debaixo dos pés, mesmo para quem vai trabalhar apenas para ter uns trocados ao fim do mês.

Eu já tive assim uma experiência. Quando me disseram, num emprego anterior, que o contrato não seria renovado fiquei simultaneamente aliviada, por me ver livre daquilo, e angustiada pelo desemprego que se seguia, sem perspetivas de nada, com a exata noção de como o mercado de trabalho está difícil.

Hoje comprei um livro para lhe oferecer como um pequeno mimo, não como despedida, mas um carinho num momento mais complicado. No ano passado ela deu-me a conhecer o autor Joël Dicker, quando me emprestou o livro A verdade sobre o caso Harry Quebert. Depois de ler a boa crítica da Magda sobre o seu mais recente trabalho, hoje, na ida ao supermercado, decidi comprar O Livro dos Baltimore. Escrevi uma pequena cartinha, em jeito de dedicatória, de apoio, mas como nestes momentos as palavras embrulham-se na ponta dos dedos, atordoadas pelas emoções, deixei-lhe estas palavras de Pessoa...

 

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

Mas não esqueço de que minha vida

É a maior empresa do mundo…

E que posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver

Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e

Se tornar um autor da própria história…

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar

Um oásis no recôndito da sua alma…

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um “Não”!!!

É ter segurança para receber uma crítica,

Mesmo que injusta…

 

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo…

 

 E estou aqui, de coração pequenino... Estas merdas custam!!!

 

Nas palavras dos outros vejo-me ao espelho

Hoje bati com os olhos numa crónica. Na hora de almoço, enquanto aguardava pelo plim do microondas, passeava os olhos pelo mural do facebook e algo me chamou a atenção. Abro o link. Leio de um trago o texto e sinto aquele arrepio de quem recorda um pesadelo.

Vais ser sempre uma infeliz.

Ouvi tanto isto. Ouvi tantas das coisas descritas neste texto. Vivi outras tantas. É duro. Foda-se, é mesmo duro. E não tem cura. É um vazio e uma mágoa que nos acompanha até ao fim dos dias. Conforta-me a coragem de ter virado costas, de largar, de procurar viver em vez de sobreviver. Conforta-me saber que há outras pessoas com histórias de vida familiar semelhantes. Que ouviram as mesmas coisas, que sentiram as mesmas coisas, que sofreram de igual forma. Conforta-me saber que a culpa não é minha, que o monstro não sou eu, que contra quem mais me devia apoiar e gostar de mim, eu procuro ser feliz como sou.