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Estórias na Caixa de Pandora

Porque estou numa de thrillers?!

Clicar na imagem para ver a sinopse.

Porque os devoro. Este durou cerca de 5 horas (não consecutivas, mas também não muito distanciadas).

É intenso. É sufocante. É perturbador. É psicologicamente arrasador.

Ao contrário dos que tenho lido, neste Ao Fechar a Porta não há um crime, um desaparecimento, um mistério a desvendar. Há um intenso relato de primeira pessoa (a vítima), que vai alternando entre o passado e o presente, um intervalo temporal de cerca de 15 meses, até que passado e presente se encontram.

Seguimos lado a lado com a protagonista, sentimos a mesma incredebilidade, o mesmo pânico, a luta pela sobrevivência, porque dela depende a pessoa que mais ama e que deve proteger, alimentamos a mesma esperança para manter a racionalidade, e caímos no mesmo desespero a cada tentativa falhada. 

É difícil largar até chegar à última página e saber como termina, se bem ou mal. A leitura é fluída, os capítulos pequenos, a narrativa bem construída, tão bem construída que nos agarra, nos faz sentir um nó na garganta, um sufoco, a cabeça a andar à roda. Uma frustração enorme e incapacitante, uma revolta cega, são os sentimentos que este livro mais me despertou. O vilão desta história resume-se nesta expressão popular: lobo com pele de cordeiro. 

Um livro que explora a violência psicológica, como é tão díficil de perceber, de provar, de pedir ajuda. Como é tão incapacitante.

Partilho aqui uma opinião bem construída sobre este livro, e que está muito próxima da leitura que fiz. Li outras opiniões de quem não gostou assim tanto e viu falhas. Foram justificadas, não lhes tiro o crédito. Ainda assim, e porque opiniões são isso mesmo, eu gostei e muito deste thriller. Não tivesse parado só na última página (ai que assim desgraço-me a comprar livros porque não duram nada).

 

Eu sei, eu sei. Entre a minha última opinião que escrevi sobre um livro e esta, já li outros quatro. Gostava de escrever um pouco sobre cada um, e o tempo vai passando. Em breve terei uns dias de férias, vamos lá a ver se tiro um tempinho para me dedicar ao blog e a partilhar as leituras dos últimos meses. 

Balanço leituras de 2017, a 16 de outubro: 12 livros lidos. O objetivo era um por mês, e mesmo com os meus períodos de paragem, até recuperei e bem. Venha o próximo. 

 

 

Últimas!!

 

 

Ainda antes de ir de férias fiquei de escrever sobre o livro que tinha lido em dois dias. Já se passaram quase dois meses e nos entretantos, já li outros dois. 

Durante a semana é difícil manter o ritmo de leitura. Mas ontem, fiz maratona e acabei o livro que uma amiga me emprestou. Eu ia sensivelmente a meio e sim, interessada no thriller. Mas o cansaço e a falta de tempo de qualidade para o deleite da leitura acaba por dar nisto: durante a semana nem lhe toco, vem o fim de semana, e devoro páginas atrás de páginas.

Agora o drama: que vou ler a seguir?! Só me apetece ler o que não tenho em casa! E ando numa de thrillers, nada a fazer. O mais parecido que tenho em casa, também me foi emprestado por uma amiga, e lá o tenho já há tempo demais à espera. Penso que é desta que vou pegar em Stieg Larsson

 

Vamos lá falar de livros

Em junho não resisti a uma dupla compra de livros. Dois thrillers que tinha na minha wishlist. 

Em menos de um mês devorei-os. Pronto. Isto ou anda ali a moer, a passos de caracol paralítico, ou numa voracidade feroz. 

Comecei por Estou a Ver-te, segundo livro de Clare Mackintosh. Já tinha lido o primeiro e adorei. Portanto a expetativa era alta. Não posso dizer que tenha desiludido, mas é inevitável comparar com o primeiro, e sim, gostei muito mais do primeiro, sentindo uma pontinha de desilusão por este segundo não ter sido tão bom. Ou então mea culpa que criei demasiadas expetativas em relação ao anterior, que foi simplesmente fenomenal.

 

No geral, a trama é inteligente, assustadora e tão atual. Estou a Ver-te foca a questão da falta de segurança proveniente das redes sociais. Até que ponto, por mais cuidado que tenhamos, estamos efetivamente seguros depois de publicarmos e partilharmos com o mundo as nossas banalidades da vida? Até que ponto nos podemos sentir seguros nas nossas vidinhas rotineiras, com os mesmos horários, roteiros, atividades? Teremos noção de como somos tão previsíveis no nosso dia a dia? Como isso nos torna presas demasiado fáceis?

O enredo desenrola-se pela voz de duas personagens: a protagonista da trama, a que vai desvendando os sucessivos mistérios, sendo ela uma potencial vítima na iminência de um crime, e uma detetive jovem, também ela com os seus fantasmas por resolver. Pelo meio a voz crua da mente psicopata por trás de todo o mistério. 

Só que a trama desenrola-se de forma algo lenta, com poucos avanços, confunde-nos, ainda que isso faça parte dos thriller psicológico, mas essa confusão não é só a propositada para desviar atenções e criar falsas pistas. É uma confusão gerada por descrições redundantes, personagens pouco fidedignas, cenários vagos. Com este avanço lento e maçudo, lá vamos construindo as nossas teorias, desenvolvendo as nossas suspeitas, mas como o ritmo da narrativa é algo redondo, que anda ali às voltas, sem sair do lugar, a curiosidade do leitor fica ali no limbo, sem ser muito espicaçada ou provocada, mas também sem ser totalmente ignorada. 

O final é um pouco imprevisível. Ou considerando que o leitor é apanhado de surpresa com uma revelação final, essa sim, um verdadeiro twist inesperado, pode-se considerar que há dois desfechos, o primeiro pouco previsível e cuja fundamentação me pareceu demasiado forçada, salva-se, no entanto, o epílogo que nos tira o fôlego e nos deixa a pensar que "ainda não acabou". Mas sim. Chegamos à última página assim, com um final que não é propriamente desfecho, fim de história, mas que acaba por ser a grande revelação inesperada, que nos apanha totalmente desprevenidos, até porque pouco antes dávamos a trama como resolvida. É um final um tanto ou quanto agridoce, porque levamos um murro no estômago, e quem leu o primeiro thriller da autora, relembra-se do fenomenal twist que nos faz recuar no enredo e perceber como fomos tão bem enganados, só que neste segundo thriller ficamos ali, com cara de quem leva com uma revelação que cai que nem bomba e assim fica, sem mais nada.

Parece que a autora está prestes a lançar um terceiro thriller, e vou ler, com toda a certeza, pois apesar deste segundo não me ter deslumbrado tanto como o primeiro, é uma autora a seguir.

Por fim, partilho aqui uma opinião que encontrei e com a qual partilho muitos pontos. Vale a pena ler. 

Fica para um outro post o feedback da leitura de O Casal do Lado. E este sim, tirou-me o fôlego e foi uma verdadeira surpresa.

A Viúva

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Li a sinopse deste livro e fiquei curiosa. No verão passado foi  destaque em várias livrarias, e como estava curiosa, adicionei-o à wishlist da WOOK. Não tinha calhado comprá-lo ainda e eis que uma amiga emprestou-mo, com o alerta que não lhe tinha achado piada nenhuma, que a sinopse engana bem, o raio do livro até irrita e soubesse ela qual era o tema, nem o teria comprado nem lido. Ora, como até temos gostos de leitura muito parecidos, levei a opinião dela a sério e pensei cá com os meus botões que o dito ia ser um balde de água fria. 

E não me enganei, nem ela me enganou. Continuamos muito similares nos gostos e opiniões literárias (embora ela tenha gostado mais de A Rapariga do Comboio e eu gostei mais do Escrito na Água).

Portanto, começo esta pseudo crítica com um honesto: não gostei, não recomendo, não percam tempo.

A premissa da história é revelar o lado ou a perspetiva da esposa de um assassino. Saberia ela quem era o marido? Seria cúmplice? Jamais lhe passaria pela cabeça do que ele era capaz? No fundo era mais uma das suas vítimas? 

Uma premissa interessante, sem dúvida. Mas neste livro acho, e isto é meramente a minha opinião de leitora, que foi uma premissa muito mal explorada, muito pobre no desenvolvimento, muito aquém das suas potencialidades.

A técnica narrativa é, pelos vistos está na moda, o ponto de vista de diferentes personagens. Cada capítulo, uma personagem, dentro de um núcleo de diferentes intervenientes, com diferentes pontos de vista. A viúva é o principal ponto de vista. No início até cria uma empatia, depressa se fica com a sensação de que é uma pobre vítima nas mãos de um manipulador e controlador. Casa jovem, dependente de um marido por quem tem uma estranha admiração, quiçá mesmo veneração ou obcessão, mas que no decorrer do relato se percebe que ela também não é a ingénua e pobre criatura que se esforça por parecer aos olhos de todos. Com o avançar do enredo comecei a sentir uma espécie de repugnância por aquela mulher, o verdadeiro lobo com pele de cordeiro. Será ela melhor que o marido que cometeu um hediondo crime? Será ela uma louca que deveria estar internada numa ala psiquiátrica? Um pouco de ambas? Enfim, a fulana é doida varrida e de coitadinha tem muito pouco. 

Quanto ao crime, tudo gira em torno do desaparecimento de uma criança. No decorrer das investigações chegam a Glen, só que todas as provas reunidas acabaram por não surtir efeito em tribunal e ele sai em liberdade. Há uma tentativa forçada de manter o leitor na expetativa se seria ele culpado ou inocente. Anda a polícia novamente a conduzir a investigação sobre o desaparecimento da criança, continuando com o principal suspeito, entretanto ilibado, debaixo de mira, quando ele morre no que parece ser um trágico acidente. E a viúva tem todas as respostas e é preciso fazê-la falar. Torna-se então o centro das atenções da imprensa e da investigação policial.

Num jogo de gato e rato, a viúva vai libertando as verdades e os segredos escondidos, mas toda a narrativa e o encadeamento dos acontecimentos está forçado, com uma lógica rebuscada, com muitos pontos vazios que ficam sem resposta ou explicação. 

Não costumo ser spoiler, mas neste caso, e como também comecei logo por dizer que não recomendo a leitura, vou adiantar que o crime é um rapto motivado por pedofilia. Um viciado em pornografia infantil, um homem estéril que não conseguiu dar à sua mulher o filho que ela tão obcecadamente desejava, um dia vê uma menina a brincar no jardim de casa sozinha, leva-a, não sabemos exatamente o que aconteceu, apenas que a sepultou numa floresta. Se ele era um pedófilo referenciado, com vários crimes? Não. Era um ser estranho, com características de psicopata, que desenvolve um vício por pornografia infantil, culpando a obcessão da mulher por crianças. Depois de ter sido investigado, preso, e ilibado em julgamento, confessa o crime à mulher, conseguindo que ela se sinta uma espécie de cúmplice. E ela guarda esse segredo, com uma crescente raiva, até ao dia em que dá uma mãozinha para que um aparente acidente aconteça e o marido morra. 

O livro termina com a polícia a segui-la, madrugada dentro, a ir visitar a sepultura da criança. Confirma-se o crime, encontra-se a o corpo da criança, revela-se o culpado, sem surpresas, sem nenhum volte-face que fizesse o leitor ficar surpreendido. Pior, fica-se ali num limbo de comos e porquês sem resposta, sem explicação. 

E pronto, foi uma desilusão, um balde de água fria. Uma história com tanto potencial, com tão bons ingredientes para um ótimo thriller, e que ficou aquém das expetativas. 

O Amor nos Tempos de Cólera

Antes da leitura febril de Escrito na Água, andei dois meses com este clássico de Gabriel García Márquez. Dois meses. Não tanto porque a leitura não me cativasse, mas pela falta de disponibilidade a nível de tempo e emocional. Há alturas erradas para determinadas leituras, e acredito que não escolhi o momento certo para esta leitura. 

Se a história me desencantou? Não. Se a leitura foi lenta por não me prender? Talvez. 

Tenho andado numa fase em que os livros que me prendem e me fazem "arranjar tempo" são thrillers ou mistério e suspense. Aquela curiosidade e ansiedade de avançar e descobrir os motivos, o criminoso, os meandros dos mistérios move-me, motiva-me, empolga-me.

Neste romance de Gabriel García Márquez temos uma história de amor inserida numa crónica social e de costumes. Temos um triângulo amoroso que, não o sendo nos moldes comuns dos triângulos amorosos, dura 51 anos, nove meses e quatro dias, numa passividade platónica de deixar a vida acontecer, acreditando que, algures no tempo, o destino se encarregará de juntar os dois jovens, pueris e inocentes apaixonados, que a vida, a teimosia ou o acaso separaram em tenra idade.

O quotidiano das personagens, movendo-se à frente deste cenário, acaba por ser a medida e o sentido de todas as coisas: a pobreza e o luxo, a solidão e a festa, a glória e a miséria dos dias. O que melhor o romance comporta é uma atitude filosófica elementar: humaniza, através do amor, a morte inevitável dos homens (...).

Uma breve paráfrase da ação da obra, para que dela se captem os mecanismos utilizados na construção da história: no dia em que o octogenário Dr. Juvenal Urbino acaba de ser enterrado, Florentino Ariza apresenta-se na casa da viúva Fermina Daza e reafirma-lhe uma "fidelidade eterna e um amor para sempre". Sobre esse momento tão ansiosamente esperado, haviam decorrido cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias, ou seja, desde aquela hora fatal da juventude em que Fermina decidira repudiá-lo. Nesse tempo, tendo concluído que Florentino não passara duma "sombra" na sua vida, casa com Urbino e apaga da sua memória o antigo apaixonado, de quem vinha recebendo súplicas, hinos plangentes arrancados às cordas do violino, flores e missivas diárias carregadas de poemas líricos e frases de grande apuro estilístico. (...)

A ação do romance vem a culminar num fim feliz: Fermina recebe Florentino na sua intimidade, e nasce entre ambos uma espécie de núpcias sublimes a que as viagens intermináveis dos barcos fluviais emprestam a sugestão do retorno ao paraíso perdido. (João de Melo)

Um romance de memórias, constantes retrocessos no tempo, um herói solitário, peregrino num labirinto de paixão e amor, agarrado à esperança de que um dia a sua amada, a quem jurou uma fidelidade de monge, o salvará da sua sombria vida. Um romance onde as dicotomias vida/morte, amor/solidão, doce destino/fatalidades e cruezas da vida andam de mãos dadas e acompanham este homem na sua odisseia de estar vivo e não ser amado.

 

Só parei na última página

Escrito na Água é o mais recente livro de Paula Hawkins, autora do bestseller A Rapariga do Comboio. Não estou a dar nenhuma novidade, já que este livro tem sido amplamente divulgado e anda nas bocas do mundo.

Tinha-o na minha wishlist da WOOK, só que uma amiga emprestou-mo e eu não me fiz rogada. Ganhei novo alento e apressei a leitura que andava a ruminar ia para dois meses. Peguei nele no sábado à noite, li de uma assentada cerca de 100 páginas e fui vencida pelo cansaço. No domingo, o tempo chuvoso atirou-me para o sofá depois de almoço. Não foi preciso mais: retomei a leitura e só parei na última página. 

Na minha modesta opinião, e no rescaldo de leitura tão sôfrega, gostei mais que o anterior, A Rapariga do Comboio. Notei um amadurecimento no estilo narrativo e na complexidade da trama. As semelhanças são inúmeras: o mesmo esquema narrativo, com várias personagens que vão contando a sua versão da história, sob a sua perspetiva, as suas crenças e o seu parcial conhecimento dos acontecimentos e factos, quer do passado, quer do presente. Se no livro anterior a autora optou por ter apenas a perspetiva de três personagens, todas mulheres, neste livro temos mais personagens a narrar a sua versão dos factos, umas mais que outras, na maioria mulheres, mas também aparecem alguma vozes masculinas. E o impressionante é que no meio de tantas vozes, visões e versões, o leitor não se perde, pelo contrário, é convidado a ser ouvinte atento e a juntar as peças de um grande puzzle, tendo assim um papel ativo no desenrolar da trama. E isso cativa e prende-nos. Faz-nos querer saber mais e mais, estar atentos às subtis pistas deixadas por cada um que, na sua parcial e subjetiva verdade, vai mapeando o percurso até à verdade. São histórias interligadas, segredos guardados, medos reprimidos, mal entendidos que geraram rancores e ódios, arrependimentos tardios.

A pouco mais de 100 páginas do fim eu já tinha as minhas desconfianças, ainda que previsse um final que mudaria tudo no último minuto. Não me enganei muito. Na leitura que fiz, o grande vilão da história é um, ainda que... e não posso dizer mais nada. Leiam! E rendam-se a uma leitura cativante e apaixonante.

 

 

 

 

Ondas de Calor

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Sou fã da série Castle. Vi todas as temporadas, todos os episódios, e tive muita pena que a série tivesse acabado, até porque aquele final arranjado às trêss pancadas em cima do joelho deixou muito a desejar.

Gostos são gostos, por isso fico sem perceber como continuam com séries como Walking Dead (grande vómito), e o meu divertido e adorado Castle foi às urtigas. Gostos. 

Fiquei aos pulinhos quando soube que os livros que o Castle escreveu ao longo da série ganharam forma na vida real. Ondas de Calor foi o primeiro, miminho do Dia dos Namorados do Gandhe que, numa tentativa de ser romântico e fazer um trocadilho, escreveu na dedicatória que era para me aquecer as tardes de inverno no sofá. 

Sobre o livro, foi lido a um ritmo inconstante, ao sabor da minha disponibilidade e vontade, que já perceberam tem andado pelas ruas da amargura nos últimos tempos. Ainda assim, quando lhe pegava queria sempre mais. Tal como quando via os episódios. Era só mais um, a seguir ao outro, sempre que possível.

Não é uma obra prima do romance criminal ou do suspense. Não é. Mas para os fãs da série, é como estar a ler o guião de um dos episódios, adivinhando reações de personagens, as suas expressões, os diálogos, os olhares e sorrisos, a tensão e adrenalina, a forma de conduzir a investigação, os interrogatórios a testemunhas e suspeitos.

Como fã da série, sim, adorei o livro e sem dificuldade adivinhei a identidade do assassino. Não é assim tão previsível, mas eu papei a série toda, normal que já estivesse meia formatada para ler nas entrelinhas e subtilezas, pensar fora da caixa e ir mais além do apresentado como potencialmente óbvio.

Uma leitura ligeira, mas deveras interessante, porque me levou a recordar uma das minhas séries de eleição que, tristemente, perdi. 

 

O Livro dos Baltimore

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Quando me anunciaram a mudança de funções, quando efetivamente mudei de equipa de trabalho e de funções, fiquei de tal maneira absorvida que, apesar da enorme vontade de ler este livro, não andava com cabeça para nada, incluindo leituras. Escolhi este livro para suceder ao magnífico O Labirinto dos Espíritos de Zafón porque acreditei que não me iria desiludir. Não é fácil ser o sucessor de mesinha de cabeceira de Zafón. 

De Joël Dicker li A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e adorei. Lendo tão boas críticas ao autor e a este último livro dele, foi a minha escolha para leitura pós Zafón. E foi uma boa escolha. Demorei a pegar nele, mas quando peguei, não larguei. Acabei-o ontem, perto das 2h da manhã, mas eu estava tão embrenhada na leitura, tão absorvida pelo desenlace do enredo, que só consegui parar na última página. O que calhou bem, porque amanhã vou almoçar com a amiga que mo emprestou e assim já lho devolvo.

Ora bem, Dicker e Zafón têm escritas totalmente diferentes. Quando comecei a ler O Livro dos Baltimore senti que a linguagem e o estilo eram demasiado simples, comparativamente ao que tinha lido de Zafón. Mas essa escrita fluída, simples, também agarra o leitor pela proximidade que cria com ele. Porque é simples de ler, porque flui, porque nos sentimos próximos do universo e personagens que se vão revelando página após página. Depois a história é tão verosímil, que facilmente somos transportados para o seio das personagens, nos sentimos parte do seu núcleo, quase como confidentes silenciosos, que partilham as mesmas dúvidas e emoções. 

Dicker tem revelado uma mestria na manipulação do tempo narrativo. Os sucessivos avanços e recuos no tempo que permitem que sejamos espetadores de um tempo presente e um passado que se vai revelando, num crescendo gradativo até atingir o clímax das grandes revelações e deslindar de mistérios.

O Livro dos Baltimore não é um policial ou um livro de ação e suspense, como A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert. É um livro de memórias, um livro de família, com os seus momentos de tensão, de ternura, de paixão, de conflito, de união, de amizade, de amor. É uma história que explora o equívoco: o que cada um pensa sobre o outro ou sobre as situações do outro, alheio ao que é realmente verdade, acabando por se gerar um grande equívoco. São as meias verdades, os segredos, as ideias pré concebidas, aquilo em que cada um acredita como sendo a verdade, mesmo que esteja longe dela. Os equívocos gerados pelas omissões, pela ingenuidade, pelas emoções que falam mais alto que a razão. Os equívocos que podem levar a tragédias, que poderiam ter sido evitadas se... 

Uma história de relações de amizade, de família, de amor, de fraternidade, de ódios e invejas, de ciúmes e (in)fidelidade. Uma história que pode ser a de qualquer um de nós, mesmo sem um grande drama que vem destruir toda uma vida aparentemente perfeita e feliz. E deixa-nos a pensar em como nós, humanos que somos, feitos de emoções, com laços afetivos com outras pessoas, também podemos cair naqueles mesmos erros, por causa de equívocos, de verdades parciais e superficiais, qual ponta de iceberg, onde só se conhece uma pequena superfície e se ignora toda uma profundeza. 

Gostei. Muito. E agora o difícil é escolher o próximo. 

 

Saga Cemitério dos Livros Esquecidos

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Terminei ontem à noite O Labirinto dos Espíritos, o livro que fecha a saga Cemitério dos Livros Esquecidos, iniciada com A Sombra do Vento.

Não será novidade o quão rendida fiquei à escrita de Zafón, ou como esta saga me cativou desde a primeira palavra. Rejubilei quando vi que havia novo livro, embora houvesse um certo sabor a fel por saber que era o último. Fui lendo, conforme o tempo, mas confesso que houve noites que evitei pegar-lhe porque sabia que não o largaria nas horas seguintes, e se por um lado há a ditadura do despertador que toca cedo, por outro havia a vontade de prolongar a leitura, tanto quanto possível.

Este sábado estava na página 500 e peguei no livro. De um fôlego só parei quase 300 páginas depois, porque a própria narrativa ganhou um ritmo alucinante, a trama desenrolava-se freneticamente diante dos meus olhos e as páginas iam virando ao sabor dos acontecimentos, das revelações, do desfecho de uma série de pontas soltas, tudo a ser encaixado com uma mestria que nos transporta, leitores, para o centro da intriga, como se víssemos diante de nós tudo acontecer, sentindo o coração disparar a um ataque, a um assassinato, sentindo um aperto no peito a cada revelação trágica. A escrita de Zafón tem esta empatia mágica, esta capacidade de nos transportar para as ruas de Barcelona, sentir o frio da neblina, ver as sombras que espreitam nas esquinas, conviver com as personagens que desfilam diante dos nossos olhos, tão reais, tão próximas, tão assustadoras ou encantadoras. 

Não posso, para não cair em tentação de desvendar mais do que devo, escrever muito mais sobre este último livro da saga. Fecha com chave de ouro, numa genial interligação de todos os quatros livros e as suas histórias e personagens.

É uma saga sobre livros, sobre a arte da escrita, sobre o poder da literatura. É uma história com um contexto de guerra civil e pós guerra, onde as intrigas e jogos de poder põem a descoberto o que de pior pode o ser humano fazer ao seu semelhante só por vaidade, ganância, poder e riqueza. É uma história de amor e de luta, de sobrevivência e procura pela verdade e pela justiça, é uma história que tem tanto de ternura como de violência crua. É uma história onde o amor e a amizade são, contra toda a crueldade, hipocrisia e violência, a sobrevivência numa sociedade devastada e despida de valores e humanidade e lealdade. 

Tão bom, mas tão bom que agora sinto um vazio. Não sei que hei-de ler a seguir, porque nada se vai aproximar. Só tenho vontade de pegar n' A Sombra do Vento e reler toda a saga, novamente, de seguida, num fôlego. Reencontrar Daniel e Fermín, reviver as suas aventuras e desventuras, rir-me com a prosa hilariante de Fermín, encantar-me com a ingenuidade e bondade de Daniel, conviver com o acolhedor núcleo Sempere e amigos. Envolver-me nos mistérios da escrita e dos livros, revisitar o Cemitério dos Livros Esquecidos e perder-me na sua magia, reencontrar os escritores malditos e sentir toda a maldade e crueldade de que foram vítimas, sabendo que justiça lhes será feita, passem os anos que passarem.

Tão bom, mas tão bom, que fechado o último livro fica este vazio. Como um até já, que na verdade é um até sempre! 

 

 

A culpa é de Zafón

Eu bem que tento dormir mais cedo. Não consigo. Embrenho-me no Labirinto de Espíritos, vagueio por aquelas ruas sombrias de Barcelona, sinto a angústia das personagens, ontem senti-lhes a dor e as lágrimas, o espasmo das revelações, a revolta e indignação, que se têm de engolir por sobrevivência. Senti-lhes o medo e o desespero.

Eu bem que tento dormir mais cedo, mas Zafón não deixa, tal é o poder da sua escrita.