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Estórias na Caixa de Pandora

Vamos lá falar de livros

Em junho não resisti a uma dupla compra de livros. Dois thrillers que tinha na minha wishlist. 

Em menos de um mês devorei-os. Pronto. Isto ou anda ali a moer, a passos de caracol paralítico, ou numa voracidade feroz. 

Comecei por Estou a Ver-te, segundo livro de Clare Mackintosh. Já tinha lido o primeiro e adorei. Portanto a expetativa era alta. Não posso dizer que tenha desiludido, mas é inevitável comparar com o primeiro, e sim, gostei muito mais do primeiro, sentindo uma pontinha de desilusão por este segundo não ter sido tão bom. Ou então mea culpa que criei demasiadas expetativas em relação ao anterior, que foi simplesmente fenomenal.

 

No geral, a trama é inteligente, assustadora e tão atual. Estou a Ver-te foca a questão da falta de segurança proveniente das redes sociais. Até que ponto, por mais cuidado que tenhamos, estamos efetivamente seguros depois de publicarmos e partilharmos com o mundo as nossas banalidades da vida? Até que ponto nos podemos sentir seguros nas nossas vidinhas rotineiras, com os mesmos horários, roteiros, atividades? Teremos noção de como somos tão previsíveis no nosso dia a dia? Como isso nos torna presas demasiado fáceis?

O enredo desenrola-se pela voz de duas personagens: a protagonista da trama, a que vai desvendando os sucessivos mistérios, sendo ela uma potencial vítima na iminência de um crime, e uma detetive jovem, também ela com os seus fantasmas por resolver. Pelo meio a voz crua da mente psicopata por trás de todo o mistério. 

Só que a trama desenrola-se de forma algo lenta, com poucos avanços, confunde-nos, ainda que isso faça parte dos thriller psicológico, mas essa confusão não é só a propositada para desviar atenções e criar falsas pistas. É uma confusão gerada por descrições redundantes, personagens pouco fidedignas, cenários vagos. Com este avanço lento e maçudo, lá vamos construindo as nossas teorias, desenvolvendo as nossas suspeitas, mas como o ritmo da narrativa é algo redondo, que anda ali às voltas, sem sair do lugar, a curiosidade do leitor fica ali no limbo, sem ser muito espicaçada ou provocada, mas também sem ser totalmente ignorada. 

O final é um pouco imprevisível. Ou considerando que o leitor é apanhado de surpresa com uma revelação final, essa sim, um verdadeiro twist inesperado, pode-se considerar que há dois desfechos, o primeiro pouco previsível e cuja fundamentação me pareceu demasiado forçada, salva-se, no entanto, o epílogo que nos tira o fôlego e nos deixa a pensar que "ainda não acabou". Mas sim. Chegamos à última página assim, com um final que não é propriamente desfecho, fim de história, mas que acaba por ser a grande revelação inesperada, que nos apanha totalmente desprevenidos, até porque pouco antes dávamos a trama como resolvida. É um final um tanto ou quanto agridoce, porque levamos um murro no estômago, e quem leu o primeiro thriller da autora, relembra-se do fenomenal twist que nos faz recuar no enredo e perceber como fomos tão bem enganados, só que neste segundo thriller ficamos ali, com cara de quem leva com uma revelação que cai que nem bomba e assim fica, sem mais nada.

Parece que a autora está prestes a lançar um terceiro thriller, e vou ler, com toda a certeza, pois apesar deste segundo não me ter deslumbrado tanto como o primeiro, é uma autora a seguir.

Por fim, partilho aqui uma opinião que encontrei e com a qual partilho muitos pontos. Vale a pena ler. 

Fica para um outro post o feedback da leitura de O Casal do Lado. E este sim, tirou-me o fôlego e foi uma verdadeira surpresa.