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Estórias na Caixa de Pandora

Vou para o céu dos cães (e para o inferno dos humanos)

Na rua onde moro há uma cadela vadia. Há oito anos que ali moro e ela já lá andava quando me mudei. 

Cadela desconfiada, habituada à vida dura da rua, tem sobrevivido estes anos todos naquele que é o seu território e ao qual é leal. Conhece os moradores, ladra a um estranho que estacione lá o carro, há um conjunto de pessoas que a vão alimentando e há o outro conjunto de pessoas que chama o canil, que inventa agressões da cadela a pessoas e manda bocas a quem vai zelando pelo animal.

Enfim, ela tem sobrevivido e está gordinha. Mas não dá a mão. Quando me vê, não se afasta, mas também não me deixa tocar-lhe. Abana o rabo, volta e meia até me brinda com umas corridas e rebolanços à minha frente, como se me agradecesse a comida e água que lhe vou dar. 

Chega esta altura do ano e é uma consumição. A cadela está carregada de carraças. Como não dá a mão, dar-lhe um banho, pôr-lhe uma pipeta ou um pó está fora de questão. Desparasitantes externos por via oral não há grande oferta, mas lá andei eu a pesquisar e a procurar um que fosse em comprimido, para lhe poder pôr na comida. Finalmente encontrei. Uma caixa de seis comprimidos ronda os 30€. Um comprimido por mês. Tratamento de seis meses. 30€! Chiça, é dinheiro, que é. Mas é mais forte que eu (vá, insultem-me e indignem-se), mas encomendei os comprimidos na farmácia porque não consigo ver aquela cadela a ser comida viva com tanta carraça que tem agarrada a ela.

Além disso, não tarda começam as indignações dos estúpidos. Porque é um perigo para a saúde, porque larga carraças no passeio e na entrada do prédio, porque podem levar parasitas para casa e é um perigo, e as crianças e o caralho que os fodam, porque para falarem, criticarem e mandarem vir, é com essa gentalha. Fazer alguma coisinha para minimizar ou resolver o problema, tá quieto, dá trabalho e custa dinheiro.

E entre todos 30€ dava uns tostões a cada um, mas a solidariedade só existe no mural do facebook, para todo o mundo aplaudir, que se dane, gasto os 30€ para ajudar o animal. E que o universo me retribua, de alguma maneira, nem que seja a que aquela praga caia da cadela e a deixe sossegada, sem lhe andar a sugar o sangue.

 

O ano passado, por esta altura, por causa do mesmo problema, uma das vizinhas, que se gaba à boca cheia que tem um caniche anão que custou 500€, teve o desplante de me vir perguntar se a senhora da associação, que fica lá perto, não podia dar nada para parar a praga das carraças. Apeteceu-me mandá-la para outro lado, mas limitei-me a esboçar o meu maior sorriso amarelo e dizer que estava eu a tratar do problema. Eu e outra vizinha. Eu tratei do remédio para dar à cadela, a outra vizinha de um pó para espalhar pelo passeio e na entrada do prédio. Mas quem deu 500€ para comprar um cão, andava toda indignada porque as pessoas da associação de animais é que têm obrigação (segurem-me para não partir os dentes quando ouço estas barbaridades) de pagar para resolver este problema da rua onde a madame mora. Até porque o caniche precisa do chão limpo para se passear e mijar na entrada do prédio, coisa que a cadela vadia não faz. Tem mais educação que o caniche de 500€, que vai fazer as suas necessidades à terra, não anda a manchar e a pôr maus cheiros na entrada do prédio. 

Mas hei, insurjam-se é contra mim, que defendo os animais. E em vez de ajudar as criancinhas esfomeadas da Etiópia, vou gastar dinheiro num cão de rua. 

 

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