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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

26
Ago20

O texto que tenho adiado escrever...

Quem segue a Caixa no Instagram sabe o que aconteceu neste último mês. Sabe que há um mês comecei com obras em casa (pinturas de paredes e tetos com alguns arranjos de fissuras pelo meio). Sabe que há um mês o meu pai deu entrada no hospital e depois de uma semana excessivamente intensa a nível emocional, com as notícias dia após dia a conduzirem a um desfecho previsível, esperado mas que nada nos prepara para o derradeiro momento, aquele em que, depois de ter sido chamada ao hospital para me despedir dele, me comunicam que faleceu.

Continuo sem palavras para descrever o momento em que esta realidade se abateu sobre mim. Continuo sem perceber muito bem como me tenho mantido de pé a tratar de uma imensa burocracia que enerva, esgota a paciência, suga toda a energia que resta num momento destes.

As férias deixaram de ser férias para tratar de um funeral e desencadear uma série de processos em diversas entidades, processos que ainda decorrem, e ontem, mais um dia de férias queimado para ultimar burocracias, mas afinal ainda há mais uma declaração que é precisa para entregar nas Finanças e fazer uma adição ao imposto de selo e só depois, só depois é que pode voltar cá e prosseguir... e só para iniciar o processo desembolsa x, e desembolsa y e mais o caralhinho para tanto papel e selos timbrados e o raio que parta esta máquina burocrática que empata e entrava e chateia e nos suga vida e dinheiro. A sério que estamos no séc XXI, em plena era digital? A sério que, alegadamente, devido à pandemia, muitos serviços tiveram de agilizar procedimentos? Ah não. Isso era a expetativa. A realidade é que ainda estão mais bloqueados, difíceis de aceder e resolver de uma vez.

Poupo-vos detalhes, porque tudo isto ainda é uma ferida aberta e dolorosa. Recebo o embate da morte do meu pai e, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta, sou única herdeira. Em cima de mim caem todas as decisões, responsabilidades, despesas. E isto de herdar propriedades é muito giro na boca do povinho ignorante que acha que agora devo ser uma espécie de condessa lá da terrinha. Eu só vejo dinheiro a sair da conta, tudo se paga, os impostos não esperam, os encargos com as propriedades também não e agora está tudo nos meus ombros.

Respiro fundo. Tudo se resolve. Não escolhi que isto acontecesse na minha vida. Aconteceu. Agora é lidar da melhor forma possível. Se haveria momento ideal para pôr em prática o que, também nesta altura, aprendi naquele desafio de auto coaching, que com tanto entusiasmo me inscrevi, foi este. Na semana do internamento e na semana em que faleceu, valeram-me as meditações diárias do desafio, cada dia com um tema a explorar num pre talking. Valeram-me esses momentos em que, durante cerca de 30 minutos por dia, eu estava comigo e a tratar de mim. Encontrei força onde não julgava haver. Mantive um equilíbrio quando achava que ia simplesmente colapsar.

Houve dias difíceis. Muito difíceis. Sei que os haverá. Ainda este fim de semana fui abaixo e andei a chorar descontroladamente com um sentimento de vazio, de estar sozinha no mundo, porque as pessoas que mais amei e de quem guardo as melhores memórias já se foram. Tal e qual como a casa que acabo de herdar, sinto-me vazia, abandonada. Morreram. Foram-se para sempre e não voltam. Ficam aquelas paredes repletas de anos de memórias e histórias de três gerações de uma família.

Houve um momento que me afastei das redes sociais no geral, de pessoas em particular. A silly season a decorrer, o Instagram repleto de fotos de férias, praias, piscinas, famílias, verão no seu esplendor e leveza que deixa as pessoas felizes. E eu a ter de lidar com a dor que a morte de alguém tão próximo deixa, aquele vazio que nada nem ninguém nunca preencherá, enredada numa teia de burocracia que estava a exigir demasiado de mim, a sugar-me a pouca energia que sentia. Houve dias que não atendi telemóvel nem respondi a mensagens. Agradeci ter pessoas preocupadas e a mostrarem todo o seu carinho e apoio. A seu tempo expliquei-lhes, desculpando-me, que precisava do meu tempo de sossego e solidão para carpir a dor, quando ao mesmo tempo a vida exigia demasiado de mim.

O tempo não cura. Acalma. Cicatriza.

Regressei ao trabalho e isso permitiu-me sentir de volta a vida como a conhecia, na sua normalidade que nos faz sentir numa zona de conforto. Voltei a sentir apetite e vontade de comer, voltei a ler, voltei a estar com as outras pessoas. Voltei à minha vida. Diferente. Eu e a vida.

Estou a voltar. Porque a vida continua e eu tenho de continuar. Por mim. Pela memória dos que partiram. Pelos que estão ao meu lado e foram excecionais neste momento tão difícil e doloroso da minha vida.

Estou a voltar. Aos poucos...

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14
Jul20

"Se eu consigo, vocês também conseguem"...

Só que não!

Não nos comparemos, e digo isto a mim própria, por que é tão fácil cair neste engodo das comparações, como se vidas, corpos, pessoas, sentimentos se pudessem comparar.

Na ordem do dia está a capa da Helena Coelho e a sua transformação. Quer ser inspiradora e é, e em simultâneo levanta aqui uma série de outras questões. E é normal que assim seja, são as duas faces da mesma moeda.

Debate-se se o objetivo de emagrecer para ser capa de revista é válido. Por mim é, como qualquer objetivo individual que apenas diz respeito a quem o decide e se esforça para o atingir. Esta é uma discussão um tanto ou quanto oca, tal como foi há uns anos uma blogger ter dito que o sonho dela era ter uma mala da Chanel. Cada um sonha com o que bem entende, cada um estabelece os seus objetivos pessoais e a isso chama-se aquela coisa fantástica que é a liberdade de escolha.

O busílis da questão reside no facto de ser uma figura dita pública, influencer neste novo mundo onde o digital ganhou tanta importância e visibilidade. E por isto eu compreendo argumentos que li a alertar para o risco de uma pessoa com cerca de meio milhão de seguidoras (considerando que o público alvo é maioritariamente feminino e entre os 20/30 anos) promover ideias de magreza como sinónimo de ser saudável, de ser magra para caber numas calças da secção infantil, como se fosse o grito do Ipiranga da moda, de passar a imagem que a sensualidade (o ser sexy) e felicidade da mulher passa por dedicar a vida ao culto do corpo, no matter what. Fica ali no limbo os possíveis comportamentos obsessivos e pouco saudáveis para atingir fins que são "questionáveis" e o perpetuar de um conjunto de ideias pré concebidas, como: o ser magra é ser linda e sexy, é ter saúde, é ser o exemplo de um estilo de vida e alimentação saudáveis. O resto não cabe aqui, logo é nocivo. A postura de proximidade que procuram ter com o público, porque se ela conseguiu qualquer pessoa consegue. Qualquer pessoa? Seja qual for a vida de cada um, horários, responsabilidades, disponibilidade e condições várias?

Não comparemos. A Joana Roque faz o seu meal prep, que tanta gente ambiciona, às segundas. Ora, uma grande maioria de nós às segundas está a enfrentar trânsito, transportes públicos, picar ponto, trabalhar horas a fio fora de casa. Quando chega o fim de semana há limpezas / arrumações, tratar de roupa, supermercado, e ainda tentar encontrar tempo para lazer e descanso.

A Helena Coelho trabalha no digital onde tudo se mostra e se exibe, e onde, obviamente, se procura mostrar e exibir o melhor, a sua melhor versão. Trabalhar o corpo para ser capa de revista e fazer a campanha dos biquínis faz parte do seu trabalho. Enquanto milhares de mulheres estão sentadas atrás de um computador, ou horas em pé atrás de um balcão de atendimento, ou seja qual for o seu trabalho que as limita a um espaço diminuto e a tarefas que não incluem exercício físico, Helena Coelho pode literalmente trabalhar o corpinho.

Não se fazem omeletes sem ovos. E não se pode proclamar aos quatro ventos que se a Helena Coelho, com a vida que tem e as condições que reúne consegue, outra mulher, daquelas que acorda às 6h30 enfrenta um dia com filhos, trabalho, tarefas domésticas, transportes, trânsito, muito tempo e energia despendidos para outras pessoas e outras tarefas que não passam por tratar de si próprias, também consegue. E já nem estou a entrar naquele campo minado de que cada corpo tem o seu próprio ritmo e características e, se umas para emagrecer basta deixarem de beber refrigerantes e comer pizzas para passar a comer mais saladas e beber mais água e chás e quiçá fazer umas caminhadas, para outras não é bem assim. E deste lado fala uma mulher que está em luta consigo própria e a tentar lidar com a frustração de ter alimentação saudável, exercício físico moderado e o corpo responder de forma oposta: engordo sem perceber porquê. Já fiz despiste em várias especialidades médicas, exames vários, e esbanjo saúde (e não sou magra com o estômago encostado às costas). Muito grata por isso. Agora o que vejo ao espelho não gosto e está a custar muito encaixar, work in progress. E independentemente dos filtros que até considero ter, é fodido levar com as Helenas Coelho deste mundo, que dão aquele ar que  tudo é tão fácil e simples como somar 2 + 2, como se aquilo que exibem fosse o pináculo da existência humana, o atingir o nirvana. E quem não consegue é uma preguiçosa que não mexe o rabo do sofá e não come o que devia.

Por analogia, nem todas temos as segundas feiras livres para nos dedicarmos ao meal prep da semana toda. E nem todos os corpos reagem da mesma maneira à alimentação ou ao exercício (sim gente, não é uma equação matemática com um resultado certo). É que esta aqui que vos escreve, durante a quarentena fez sessões diárias de 30 minutos de indoor cycling, e também fazia aulas de fitness pelo Youtube, e caminhadas e comia legumes e carnes brancas ou peixe, fruta como snacks em vez de bolachas e pão. And guess what? Engordei e ostento uns pneus que fazem uns rolinhos quando me sento. O drama que foi escolher entre fato de banho e biquíni quando, há dois fins de semana atrás, decidi começar a ir à praia. E por falar nisso, expliquem-me como raio é que o fato de banho (alegadamente) disfarça mais a barriga? Eu só me sinto uma grávida de 6 meses (sem o estar). Escolhi o biquíni e assumo os rolinhos. Eu disse, work in progress.

Parte do meu processo de aceitação está a passar pelo Yoga. Trabalhar de dentro para fora. E tem sido diário. às 6h30 acordo e os primeiros 30 minutos do meu dia são dedicados ao Yoga. Os rolinhos estão cá, bem como a celulite. Eu estou é a aprender a aceitar o que vejo ao espelho, agradecendo a bênção de ser saudável e tendo como objetivo, não o six pack, mas ultrapassar a ansiedade e stress que fazem estragos no meu organismo (e não só). Estou a aprender a viver com mais calma, aprender a respirar e a parar, olhar para dentro de mim e procurar equilíbrio e serenidade. E isso faz-me mais feliz que as costelas à mostra.

Só gostava era de sentir menos pressão por não caber nos estereótipos, gostava de não ter vergonha por vestir um biquíni e ficar de rolinhos à mostra, ou gostava de não ter de responder vezes sem conta que não, não estou grávida.

 

10
Jul20

Blackout

Olá, olá! Sim, ainda estou viva e de saúde.

Perdi a conta às vezes que abri o editor de texto e fiquei de olhar perdido na tela em branco. O desfecho era sempre o mesmo: fechar e sair.

Nos blogs estou apenas como espetedora, vou lendo, passando os olhos. No Instagram vou espreitando, publiquei uma ou outra coisa e saio de fininho.

Estou numa fase que me sinto esmagada. Os blogs andam um pouco esquecidos (faço parte desse grupo), poucas atualizações. É normal nesta altura de silly season. Até os canais de séries estão naquela altura que repetem pela milionésima vez temporadas e séries, filmes do tempo da Maria Cachucha (e o piadão que é ver um filme de natal em pleno verão, num dia de calor?). No entanto este "abandono" dos blogs vai além da silly season. É também motivado pela forte presença nas redes sociais, Instagram então está em alta. Publicações imediatas, rápidas visualizações sempre a somar, tudo muito rápido e instantâneo, muito mais visível para quem vive deste e neste mundo digital e das visualizações de conteúdos too fast and too furious... porque lá é tudo estupidamente rápido. Fazem exercício um mês e ficam com um six pack quase digno de Carolina Patrocínio. Começam a comer mais couves e espinafres, e a fazer pequenos almoços com as cenas instantâneas da Prozis e pum, esbanjam saúde e bem estar em corpos magros. Os saldos ainda mal começaram já compraram este mundo e o outro. Ainda há pouco se começou a desconfinar e já correram o país de lés a lés, já mostraram não sei quantos alojamentos perfeitos para férias em tempos de Covid, já jantaram em tantos restaurantes mega seguros em tempos de Covid.

Sim, tudo isto me esmaga na minha insignificância de comum e ordinário mortal que trabalha entre 8 a 10 horas por dia, acumula tarefas domésticas, porque se quero comer tenho de cozinhar, se quero casa limpa e arrumada, tenho de tratar disso, se quero roupa lavada para vestir, pois claro que também tenho de providenciar, porque ainda ninguém inventou uma App que faça isto tudo à distância de um click. E fazer contas, eu que detesto matemática, nunca foi a minha área de eleição, e agora conto euros e cêntimos, peço orçamentos e comparo preços, revejo planos e tenho de fazer escolhas e cedências. 

E sim, até sou uma gaja com filtros, que tem perfeita noção que as influencers do Instagram mostram uma realidade cheia de filtros, camadas de filtros, e até sei algumas curiosidades daquelas que me fazem pensar que os cabazes da Prozis e os trapos que recebem das marcas criadas pelas amigas influencers não pagam as contas da água ou luz ou gás, uma vergonha essas empresas de fornecimento de serviços não criarem parcerias

E não obstante os filtros que aplico, e até saber de fonte segura de alguns "podres" escondidos debaixo dos tapetes magníficos destas influencers de vidas perfeitas, sinto-me esmagada quando percorro redes sociais num momento que esperava que fosse de descontração e distração e levo com tanto exibicionismo e montras de vidas absolutamente fantásticas, felizes e perfeitas que ou desligo ou acabo esmagada como uma barata insignificante.

Olho o mundo em volta e acho que isto está em total descontrolo, um comboio de alta velocidade em vias de descarrilar. Subvertem-se valores, erguem-se bandeiras em lutas sociais que de luta social tem muito pouco, tudo é de um extremismo ofensivo que chegamos ao cúmulo de ter de apagar pedaços da história universal porque, nem sei porquê. Se temos muitos períodos da nossa História que, aos olhos de hoje, são vergonhosos? Sim. Mas a isso chama-se evolução. Sabemos o valor da paz depois de passar pela guerra. Sabemos o valor da vida humana depois de termos conhecido o seu total desrespeito (e aqui não faltam exemplos desde a antiguidade até aos dias de hoje). Sobre isto gostei muito do texto da Carmen Garcia no Público, Politicamente correto? Eu saio aqui.

E tudo isto, confesso, me tem afastado do blog, de escrever e partilhar fragmentos dos meus dias. Podia escrever sobre o meu regresso ao local de trabalho, da adaptação a esta nova realidade, daquilo a que já muitos de nós vão chamando "novo normal". Podia vir aqui partilhar as leituras ou outras banalidades de uma vida comum. Podia partilhar a experiência de regressar às aulas de dança, ou sobre a continuidade e evolução (gradual, passo a passo, com calma e muita paciência comigo mesma) na prática de yoga e o impacto que vou começando a sentir nos meus dias, na minha forma de estar. Podia... mas estou esmagada por esta wrecking ball chamada plataforma digital. Então anulo a minha presença, espreito fugazmente e viro costas. Vou viver a minha vidinha e está tudo bem assim.

 

14
Jun20

Hora de regressar

Três meses. Os últimos três meses foram um desafio constante, a vários níveis: pessoal, profissional, familiar, emocional.

Amanhã regresso ao local de trabalho. Amanhã retomo as aulas de dança. Quer um quer outro estarão diferentes dadas as circunstâncias, mas já se sabe que desde há três meses que o mundo tal como o conhecemos deu uma volta de 180º. As rotinas como as conhecíamos mudaram, sofreram ajustes, readaptaram-se aos novos tempos, às novas necessidades e cuidados.

Estou feliz por voltar.

Estar permanentemente em casa foi um desafio com altos e baixos, com pontos positivos e negativos, com vantagens e desvantagens. 

Agora é hora de regressar ao trabalho de uma forma mais próxima do normal que conhecia há três meses atrás e estou tranquila, aliviada e sedenta de voltar a pôr o pé no mundo lá fora e sentir que a minha casa é o meu ponto de refúgio e não a minha prisão. Voltar a ter este equilíbrio de ter os meus espaços devidamente separados: casa é casa, trabalho é trabalho. 

O que mudou nestes três meses?

Eu.

E como este caminho de transformação e autoconhecimento é difícil de fazer, tomei a difícil (para mim) decisão de procurar ajuda profissional. Já comecei a trilhar o caminho sozinha, com auxílio da prática de Yoga, de meditação. Quero mais, preciso de mais. Acima de tudo sei que preciso de ajuda e orientação neste percurso de autoconhecimento. Porque sei que será difícil, duro de enfrentar, duro de digerir... e por isso o tenho evitado e vou recorrendo a pensos rápidos para ir aguentando. Chega de pensos rápidos. 

O ano 2019 foi mau. Escrevi várias vezes sobre isso por aqui. 2020 chegou com a minha promessa de procurar a minha cura. Ironicamente um vírus atirou o mundo para um isolamento social e fez a vida parar. E se calhar era mesmo isso que precisava(mos). De parar. De ter tempo para olhar para dentro de mim, para a minha vida, sem interferências exteriores que servem sempre de desculpa para ligar o piloto automático, enfiar a cabeça na caixa de areia e deixar rolar porque tem de ser. Se quero mudar, tenho de fazer diferente. Se preciso de ajuda e orientação, então que seja. 

Coincidência ou não (eu acho que não), estou eu há duas semanas a dar os meus primeiros passos (pequeninos) neste processo de cura interior, de autoconhecimento, quando esbarro com uma página de Instagram e subsequentemente o canal de YouTube. E fico ali a explorar e a deixar-me envolver. Quis o acaso que me cruzasse com o que poderá ser a ajuda que preciso? Seja... vou embarcar neste desafio, nesta viagem. 

Respiro fundo. 

Amanhã será o dia de regressar ao mundo e sair desta bolha. Que seja a metáfora para um renascer, o primeiro dia de uma nova fase, uma fase de mudança. Espero que de conquistas também. 

 

28
Mai20

Seis semanas, seis livros!

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Robert Bryndza, um nome que já estava na minha mira há algum tempo. Ler estes seis livros seguidos foi uma experiência em tudo semelhante a ter feito uma espécie de maratona a ver uma temporada de uma série. Vá, espero que esta ainda não tenha chegado ao fim, nada no sexto livro indica que a história da inspetora Erika Foster terminou. Entretanto o autor já lançou novo livro, mas com outra detetive, portanto, parece-me que há nova série policial deste autor (a não perder, até porque já li os primeiros capítulos disponibilizados na WOOK e promete ser tão bom como os da série Erika Foster).

Para sinopse livro a livro, ver links abaixo.

  1. A Rapariga no Gelo
  2. A Sombra da Noite
  3. Águas Profundas
  4. O Último Fôlego
  5. Sangue Frio
  6. Segredos Mortais

Não vou dar um feedback individual, livro a livro, mas do todo. Para quem é fã de séries policiais, ao estilo do Castle, tem aqui uma boa e empolgante leitura.

Escrita fluída, capítulos breves, quando damos conta já lemos 100 páginas e nem demos por isso. O autor sabe manter a curiosidade do leitor, mesmo quando, e isto é muito interessante, numa fase precoce, quase inicial, sabemos a identidade do assassino. E por que é que eu digo que é interessante? São livros que constituem uma série, podem ser lidos isoladamente, pois há sempre referência a dados e informações das personagens principais (e suas histórias e passado), mas nem por isso têm todos a mesma estrutura narrativa. Alguns descobrimos a identidade do assassino no fim, a par da investigação, noutros sabemos bem antes da equipa de investigação quem é o culpado, mas a curiosidade e o interesse não se perdem, pois o foco da atenção está voltado para a investigação em si, no que vai acontecendo e que vai afastando ou aproximando a equipa de detetives, liderada pela insperora Erika Foster, da resolução do crime. 

E há crimes para todos os gostos, o que é também interessante pois denota a mestria do autor em, apesar de recorrer ao mesmo núcleo central de personagens, consegue variar as histórias. Temos serial killer, temos crimes passionais, temos crimes que começaram por ser um acidente e depois perde-se o controlo na ânsia de camuflar o que aconteceu, temos uma inspetora viciada em trabalho, em parte para esquecer o drama da vida pessoal, em parte porque é extremamente dedicada e empenhada para descobrir a verdade e fazer justiça às vítimas. Temos as histórias pessoais e familiares do núcleo central de personagens que também despertam interesse e curiosidade ao leitor. 

Recomendo mesmo esta série. Podem ler separadamente, podem ler por outra ordem (não aconselho, mas...), podem ser malucos e fazer como eu, ler tudo de seguida. É viciante.

E não, não andei a ler à maluquinha sem fazer mais nada dos meus dias. A quarentena acaba por proporcionar mais tempo livre, ainda que esteja a trabalhar. Há outras atividades que tinha na minha vida a.C. (antes Covid) e agora, por força das circunstâncias, não tenho, como por exemplo as aulas de dança ou de dance fitness. Portanto, o facto de não andar a correr em contra-relógio, sair do trabalho, vir a casa, mudar de roupa, seguir para a aula, vir mais tarde para casa... só isso já significa tempo livre. E tempo livre que dedico mais à leitura, por exemplo. Aliando ao facto de ter ficado muito empolgada com as leituras e ter escolhido ler os seis seguidos, foi assim uma média de um por semana e quase sem dar por isso. Acontecia acabar um e ir logo buscar o seguinte para começar. Dá para ter uma ideia de como andei mesmo entusiasmada com esta coleção de livros, não?! 

 

21
Mai20

Breve reflexão

Ontem falava com uma amiga via Whatsapp (a nossa forma de comunicar frequente, visto que estamos a kms de distância) e trocávamos impressões sobre isto de estar de quarentena, experiências, sentires.

Somos muito parecidas. Já o sabíamos. A viver a quarentena também. 

Já tivemos os nossos momentos de break down, já nos reerguemos, já estamos com esta rotina do teletrabalho bem interiorizada e chegamos a conclusões muito semelhantes.

  1. O que nos faz falta, assim mesmo mesmo mesmo mesmo falta (ou saudades, também)? É a liberdade de poder escolher sair ou ficar em casa. Isto é, chegamos ao fim de semana e no sábado está um sol fabuloso, aquela liberdade de decidir que vamos passear, almoçar fora, ir visitar um local específico, ir a uma exposição ou evento, ir experimentar aquele restaurante ou aquela coffee house que tem umas waffles e uns crepes de fazer babar o cão de Pavlov. Ou escolher ficar em casa porque sim, porque apetece e não porque tem de ser. 
  2. Também sentimos falta de estar com pessoas, sim, mas apenas aquelas nossas pessoas com quem gostamos de estar, de marcar um café, um jantar, a quem se telefona e as horas passam, ou as conversas via Whatsapp ou messenger pelo dia fora, ou à noite. Mas erguemos as mãozinhas e agradecemos a bendita quarentena e isolamento social que nos livra dos fretes sociais, da convivência forçada, que nos dá motivos válidos para nos mantermos longe das pessoas no geral, algumas em particular. A quarentena não me fez descobrir como manter o contacto à distância. Tenho algumas amizades à distância, e não foi preciso vir o Covid para me mostrar como devo alimentar as relações humanas quando a distância se impõe. 
  3. Poupar. Gasolina, tempo, roupa e calçado, vai-se a ver e é uma série de coisas, que até tínhamos noção que não eram imprescindíveis mas íamos consumindo porque sim. Agora tanta coisa deixou de ser necessária. Em contrapartida gastamos naquilo que verdadeiramente nos dá prazer. Eu tenho comprado livros. E aproveitei para, finalmente, comprar uns artigos para a casa, que há muito tempo estavam em lista de espera. 

No geral estamos confortáveis, agradecidas pela sorte e privilégio que temos de poder trabalhar a partir de casa, por termos sabido ver o que de melhor podíamos aproveitar neste contexto tão extraordinário e inimaginável, conseguindo relativizar ou ir gerindo o lado menos bom. Tem dias. 

 

18
Mai20

Questões que me assolam o espírito por alguns nano segundos

Então a praia este fim de semana? Boa? Sim? Espetáculo. Bato palmas ao egoísmo desmedido de centenas de pessoas, FAMÍLIAS que usam o argumento que "as crianças precisam, estão fechadas há muito tempo". Isto vindo de quem já foi à praia em fins de semana anteriores, mesmo com tempo encoberto, e neste fim de semana foi dose dupla, sábado e domingo, realmente o argumento de "muito tempo fechadas" é de louvar. Só que não!! Tenham vergonha na puta da cara! 

Aposto o meu dedo mindinho em como estes cromos da merda são os mesmos que depois manifestam muito pesar e preocupações várias com a reabertura das creches.

Como diz a outra, FODEIBOS!!!

Com estas atitudes, prevê-se uma palhaçada quando abrir, oficialmente, a época balnear. O apelo ao bom senso, a que cada um tenha de ser o seu próprio fiscal para respeitar as normas de segurança e higiene, dá vontade de rebolar no chão a rir. Só não o faço porque depois TODOS sofrem as consequências da irresponsabilidade e egoísmo destes acéfalos. 

Um breve exemplo: um dos apelos é as pessoas fazerem manhãs ou tardes, para assim mais gente poder ter acesso a um bocadinho de praia (recordando que este ano por força das circunstâncias extraordinárias que o MUNDO vive, o acesso é limitado e restringido a um x número de pessoas, que varia consoante a área disponível). Recordando que há dois meses houve um açambarcamento de papel higiénico, álcool, depois farinha e fermento, que se foda quem também precisa, era levar stock para 50 anos, que nunca fiando, isto o mundo acaba e a malta tem de limpar o cu enquanto come pão... está-se mesmo a ver só ficarem meio dia na praia para que outros possam ir a seguir?!  

Este verão promete... eu só lamento é que, por causa de uma cambada de egoístas, toda uma sociedade tenha de sofrer as consequências deste fenómeno chamado: umbiguismo.

 

15
Mai20

Deixar a vida acontecer

Perdi a conta às vezes que abri o editor de texto e voltei a fechar sem escrever uma palavra. 

Ando pouco ou nada inspirada para escrever. 

O aniversário passou-se. Este ano eu até tinha pensado fazer uma jantarada com um grupo de amigos, o que para uma pessoa como eu, que não vibra com o aniversário, era assim uma coisa pouco vista. E eis que a pandemia suspende planos e a vida como a conhecíamos. Há que reajustar. Depois custou encaixar que já cá contam 39. É que não me sinto nada com essa idade e pensar que para o ano entro nos 40 dá-me assim um ataque de pânico.

Ok, já passou.

Os dias têm passado nesta rotina já instalada. Continuo em teletrabalho e continuarei. As previsões de regresso apontam para setembro. São previsões, portanto valem o que valem. Pode ser antes, pode ser depois, depende de muita coisa.

Há novas possibilidades que antes no corre corre não havia. Vive-se com mais vagar, sem ser a contra-relógio. Aliás, só olho para o relógio durante o dia quando estou no PC a trabalhar. E este viver o tempo sem a pressão do relógio tira logo uma boa dose de stress e ansiedade de cima. No entanto pode haver outras fontes de stress ou ansiedade. E para isso contribuem muito as redes sociais. Tenho filtrado imenso. Para não me sentir frustrada e culpada por não tirar 4h (pelo menos) do meu dia para exercício físico, por não fazer pão ou bolos todos os dias, por não me vestir, calçar e maquilhar como se fosse para uma festa...

Eu estou a trabalhar. Começo por volta das 9h30 e é até às 18h30, 19h. Desde que comprei a bicicleta indoor que faço uma sessão de 30 minutos de manhã. O que implica que assim que acabo, e depois de alongar um pouco, vou tomar um duche, visto-me e vou tratar de comer um bom pequeno almoço. Quando dou o dia de trabalho por terminado, não, não me vou pôr a fazer vídeos de fit e do raio. Vou lanchar com o Gandhe, vou até ao sofá, leio ou vejo tv, conversamos. Vou tratar do jantar. Se houver roupa para tratar ou outra coisa para fazer em casa, faço. Jantamos nas calmas, arrumamos cozinha. Banho, hora do chá e mais um pouco de sofá a ver ou um episódio de uma série ou a ler um pouco, por norma ambas. Há dias que adianto o pequeno almoço e deixo as panquecas (por exemplo) preparadas de véspera, quer para ele que sai de casa às 5h30, quer para mim. Estou bem assim e sem pressões, sem comparações, sem correrias para fazer mil e uma merdas que os outros "dizem" fazer. A minha vida não anda à volta das redes sociais. Não vivo para e em função delas, portanto não tenho de me comparar com o que os outros fazem e mostram ao longo de todo o dia... mas é inevitável, não é? Vamos até ao Instagram para "relaxar" e levamos com uma overdose de pão, bolos, receitas várias, outfits e dicas de organização, e muito muito muito exercício físico. Temo que depois da pandemia os ginásios não terão clientes. Logo este ano que o acesso às praias estará condicionado, é tudo com corpos danone a querer desfilar. E depois o comum mortalzinho do outro lado sente-se uma nulidade porque não consegue fazer nem um terço... que nódoa! Só que não... e é preciso ter mesmo uma grande capacidade para filtrar muito do que se vê nas redes sociais.

Encontrei, por ora, o meu equilíbrio e estou bem assim. 

Nas leituras ando com um bom ritmo, não porque esteja em competição, mas porque estou a adorar ler a série da detetive Erika Foster do autor Robert Bryndza. Ainda não vim aqui deixar o meu feedback, porque acho que vou ler os 6 livros de enfiada (já vou no 4º, portanto já não falta tudo...) e depois escreverei sobre toda a série. 

Um bom fim de semana... deixem a vida acontecer ao vosso ritmo, sem pressões e sem comparações.  

 

04
Mai20

Quarentena: últimas duas semanas!

A última semana que aqui vim escrevinhar umas coisas foi a semana mais difícil nesta quarentena. Talvez por ter estado doente, ter tido febre, ter pensado em coisas que, mesmo não sendo hipocondríaca, os tempos que vivemos levam uma pessoa a pensar. Talvez porque me sentia muito em baixo, desanimada, sem energia, sem produtividade, passaram-se dias em que me arrastava e não tinha cabeça para absolutamente nada. 

E então uma pessoa sente que bate no fundo e dali só tem um sentido a seguir: para cima. Portanto daí em diante tem sido o objetivo dos dias, levantar o ânimo.

Uma das primeiras coisas que decidi pôr em prática nesta operação "levantar o ânimo" foi ir fazer uma caminhada. Foram 5,5 km no meio da natureza, aqui tão pertinho da minha casa, quase como quem vai ali ao fundo do quintal e volta. É incrível as coisas boas que temos à nossa mão, tão perto, tão acessível, e nos passam ao lado dia após dia. Voltei a casa com outra energia. E confesso que um pouco tonta, acho que foi do excesso de ar puro e livre de paredes. Quem  segue a Pandora no Instagram pôde apreciar uma bela foto desse meu passeio.

A ideia era ter ido mais dias, não deu. Sim, porque ironia das ironias, quando isto começou uma pessoa não sabia o que fazer ao tempo disponível. E realmente somos criaturas de hábitos e mais fácil do que muitas vezes achamos, habituamo-nos a novas rotinas e realidades. Neste momento já não está muito diferente de quando ia para o escritório da empresa todos os dias. Há dias que desligo o computador mais cedo, outros mais tarde, também giro de acordo com o trabalho que tenho em mãos e com os horários que fiz ao longo do dia. Não se proporcionou mais caminhadas porque uns dias estava de chuva, outros desliguei o trabalho mais tarde e ir até ao sofá antes de ir fazer o jantar também sabe bem.

Uma nova rotina implementada nas últimas duas semanas: andar de bicicleta. Estática. Já tenho a bichinha há uns anos, e durante um tempo era diariamente usada. Mudanças de horários de trabalho, de turnos, mudanças de local de trabalho, trouxeram mudanças ao dia a dia e uma desculpa a seguir a outra, a bicicleta tem estado encostada. Há os dias da semana que vou para as aulas de dança, de local fit, de cardio fitness, os outros dias em que não há aulas descansa-se e aproveita-se o tempo para tarefas domésticas. E assim a bicicleta ficou encostada, ótima para pendurar cenas. E começou a quarentena. Primeiro, e para não perder o ritmo de exercício que já tinha na minha agenda semanal, comecei por fazer exercício recorrendo a aulas partilhadas nas redes sociais ou YouTube. E comecei bem, estava até certinha, até vir uma semana menos boa, seguida de uma má, e verdade que chegava a hora de desligar o computador e a última coisa que eu queria era voltar a olhar para um ecrã para fazer exercício. Era arrumar a cadeira de secretária e estender o tapete para fazer exercício. Esmoreci. E teve um efeito ainda mais devastador olhar para o Instagram e ver resmas de pessoas mega fits a fazer exercício de manhã, à tarde, a meditar enquanto apanham sol na janela, a preparar aqueles mega pequenos almoços dignos das novelas brasileiras (pelo menos as que eu via há anos atrás). Era só energia e vontade e tempo e eu ali, a sentir-me um verdadeiro trapo, um caco, uma lontra incapaz de mexer uma pestana já exausta de tanto exercício que me aparecia no feed. Acho que à conta disso tenho um six pack na retina, o que explica o comentário do oftalmologista quando fui à consulta este sábado: você tem cá uma retina... naquele tom como quem diz: estás cá com uns glúteos 

Foi quando definhava e esmorecia que olhei pelo canto do olho para a velhinha bicicleta e pensei: por que não? 30 minutos todas as manhãs antes de começar a trabalhar. As manhãs até ganharam novo ritmo e energia. E se ao fim do dia ainda me apetecer ir caminhar ou até fazer uma aula de localizada com apoio das redes sociais ou YouTube, tudo bem, se não, não me pesa a consciência (e o rabo) por não mexer uma palha e sentir os músculos a atrofiar por terem pouco movimento. E eis que a bicicleta fica sem o monitor que mede tempos, distâncias, calorias. Atenção, era um modelo muito básico, com anos, e sim, já foi muito usada num passado. Continuei a pedalar os 30 minutos, mas sem noção do resto. Não me interessa contar calorias ou treinar para a volta a Portugal. Mas se uma pessoa está a fazer isto diariamente, convém ter noção da evolução, assim como ir variando esforço e dificuldade. Comecei a procurar modelos de bicicletas estáticas. Falei com Gandhe, pedi opinião sobre funcionalidades e cenas dessas. Ele acabou por se entusiasmar e a comprar, mais vale investir num equipamento razoável para os dois (a outra só dava para mim porque era muito pequena para ele). Começou a pesquisar e deu com uma bicicleta semi profissional da Domyos no OLX. E a vendedora era daqui perto. Mostrou-me a bicicleta, fiquei um bocado de pé atrás com o modelo, aquilo parecia too much em tamanho e programas e cenas. Fez umas perguntas à vendedora, artigo novo, excelente estado (confere, nem um risquinho), negociou preço e foi ontem vê-la. E trouxe-a. Portanto agora tenho ali uma besta de uma bicicleta que já me pôs a suar em bica logo de manhã e tenho os glúteos em fogo até agora. 

Li um livro em 5 dias. Já comecei o segundo volume, mas com mais calma para durar mais. Assim como assim, estou rendida a este autor e à série da inspetora Erika Foster, que os 3 volumes seguintes estão encomendados... 

Já fiz um bolo com a batedeira nova. Correu bem. Este fim de semana não houve bolo porque fui cobaia dos dotes doceiros de uma amiga e recebi em casa uma pavlova com lemon curd. DIVINAL!!!! (Percebem porque tenho de pedalar?)

O dia de ontem foi um soberbo dia de verão. Sem facilitismos, nada de sair de casa e ir pôr o pé na areia. Pintei as unhas dos pés, andei de vestido fresquinho, fizemos churrasco no terraço e bebemos caipirinhas. Há que reinventar e nunca o slogan da IKEA fez tanto sentido: VIVA MAIS A SUA CASA! 

 

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