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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

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05
Fev19

Pandora pensa, logo sai asneira!

O meu percurso para o trabalho é feito por "atalhos". Segundo o Google Maps, estou a 7 minutos de distância. Peaners (diria o JJ). 

No entanto, e das três alternativas que tenho, onde uma é apanhar um troço um bocado chato e lento na hora de ponta de uma nacional, outro é apanhar uma rotunda grande e chata (porque as pessoas não sabem fazer rotundas) nessa mesma nacional, acabo por optar pelo terceiro, que passo por estradinhas locais, só tenho percorrer uns 100m na estrada nacional até virar para outra estrada local, onde parte do percurso é pinhal e as traseiras de algumas empresas. 

Ora, sucede que num cruzamento, quase quase a chegar à empresa onde trabalho, está uma daquelas senhoras de rua. De manhã e na hora de almoço é certinho passar pelo seu "posto de trabalho", vendo-a muitas vezes.

Acontece que nas últimas duas semanas, um dos sítios onde ela assenta arraiais (entrada de uma mata) foi devastada e limpa. 

O que pensou Pandora quando viu tal cenário de devastação da floresta:

  1. Muito bem, andam a limpar as matas para prevenir incêndios?
  2. Será que aquela senhora vai sofrer de extinção de posto de trabalho?
  3. É uma tristeza, qualquer dia nem árvores temos?

Pois, meus caros, lamento informar-vos, mas aqui a Pandora pensou mesmo na hipótese n.º 2. 

Acho que ando a ouvir demasiado as "histórias do homem que mordeu o cão" a caminho do trabalho. 

 

05
Fev19

Leitura de janeiro: Um Homem Chamado Ove

Antes de mais, eu adorei o Ove. Das críticas que li, é quase unânime as pessoas não gostarem desta personagem, o acharem estupidamente irritante e arrogante. 

Não sei porquê, vi desde início neste homem duro, de rotinas rígidas, de perspetivas muito na base do "preto no branco", um ser humano que era preciso ir descobrindo as várias camadas.

Ove não teve uma vida fácil. Ove perdeu muita coisa na vida. E portanto regia-se pelos valores de humildade, trabalho, sacríficio, regras a cumprir que o seu pai lhe transmitiu, valores esses que levou pela vida fora. Ove era um homem do preto-e-branco. E ela era cor. Toda a cor da sua vida.

O homem aparentemente amargo tinha, na verdade e literalmente, um enorme coração. Teimoso nas suas convicções, persistente no cumprimento do que considerava ser regra e não se podia quebrar, a verdade é que não virava as costas a quem precisava de ajuda. Mesmo que rabujasse, que se mostrasse contrariado, mais não era que a sua carapaça, a sua defesa perante uma vida que lhe fora difícil. E aos 59 anos, perde a cor da sua vida (a mulher que tanto amava e continua a amar com uma devoção tremenda), é empurrado para uma reforma antecipada e de um momento para o outro sente-se inútil, vazio, sem saber o que fazer. Decide suicidar-se. E aqui começam uma série de acontecimentos que interrompem Ove nas suas intenções, ou que o fazem adiar porque alguém está a precisar dele, e afinal ele ainda pode fazer algo e ser útil. 

Diverti-me com o Ove, com as histórias da comunidade que o começa a cercar e a entrar sem pedir licença na vida dele. E compreendi a tristeza e amargura que faziam parte do seu ser, à medida que a história da sua vida, desde tenra idade, ia sendo contada.

Eu adorei o Ove. 

 

04
Fev19

Uma histórias de gatos (é longa, por isso, aviso já a quem não interessar o tema, pode clicar ali no botão no canto superior direito e seguir para outro blog)

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E assim começa uma história... Pandora, amante de animais no geral, gatos em particular, vai alimentando e cuidando, como pode, de uma colónia de gatos na rua onde mora. Em agosto apareceu um minúsculo bebé preto, pelo qual me afeiçoei logo. Alimentei-o meses, a cada dia ia ganhando a sua confiança, mas nunca me deixou tocar-lhe ou aproximar-me muito. Esperava por mim, quando me via vinha ao meu encontro de rabito no ar, a miar, e lá ia para o cantinho onde eu (e algumas vizinhas) vamos pondo comida.

Em novembro apareceu aquele tigradinho. Minúsculo. Lindo, apesar do mau estado de gato nascido na rua. Apareceu assim do nada, e rapidamente se juntou ao tal pretinho.

Na noite de 13 de dezembro o pretinho foi atropelado e morreu. Chorei. Chorei bastante. Apesar de nunca lhe ter conseguido fazer uma festinha que fosse, fui cuidando dele, e vi-o crescer e ficar bonito. 

O tigradinho ficou sozinho. Dois dias depois do falecimento do outro, aparecem aqueles dois pretos da foto (na verdade fêmeas). Quando vi pensei que estava a alucinar. Morre um aparecem dois. Isto nunca acaba. A preta mais pequenina deu logo a mão, deixava-se tocar, ronronava quando lhe fazia festinhas. A maiorzinha foi-se mantendo à distância.

No natal sogra calha de dizer que quer mais gatos. Só tem um, o Chico, o chamado "paz de alma", adotado de uma instituição já há uns anos, já gato júnior. Falamos-lhe destes pequenos que tenho andado a alimentar, viu a foto de cima e pediu que se apanhássemos o tigradinho, que o queria. Que é muito lindo e parece ter um pelo muito felpudinho (fez-lhe lembrar um gato cruzado de persa que era o menino dos olhos dela e morreu há cerca de um ano... adorava tanto o gato que ainda hoje fala nele com uma tristeza e voz tremida).

E assim começa a minha missão. Conquistar a confiança de um pequeno gato de rua, sem qualquer contacto humano, puro silvestre. Lá ia alimentando, tentando manter uma rotina de horários. E lá fui começando a ganhar um pouquinho da sua confiança. Quando estava a comer deixava-me passar-lhe a mão no pêlo, por instantes ao início. Encolhia-se todo, aterrado de medo, mas depois foi deixando que lhe fosse fazendo carícias a cada dia que ia passando. E foi assim que o tentei capturar. Três vezes. Das duas primeiras, falhanço total. Assustei-o, virou demónio, torcia-se todo, mordeu-me, arranhou-me, enfim... Deixei passar mais uns dias, nova tentativa, novo demónio. Não vi um gato mau, vi um gato em verdadeiro pânico. Compreendi. Mais um pouco de paciência e nem pensar em desistir. À terceira consegui capturá-lo.

Chego orgulhosa a casa com ele enfiado na transportadora e, ao contrário do que seria de esperar, estava impávido e sereno lá dentro. Nem um miau, nem uma bufadela, nem atirar-se a ver se conseguia sair.  

Ficámos na dúvida se ficávamos com ele em casa para o "amansar, domesticar e sociabilizar" ou se ia direto para casa da sogra. Achámos que, apesar de termos mais capacidade para o processo de socialização (afinal já passámos por um assim), uma posterior mudança de casa poderia ser um retrocesso e novo trauma. Foi direto para casa da sogra. Mais uma vez, a andar de carro nem um miau, nem ai nem ui. Impávido e sereno dentro da transportadora. Sogrinha recebeu-o toda contente, mas explicámos que o gato ainda estava em estado selvagem e portanto deixámos instruções precisas do que devia fazer para o ir amansando.

Ora, a sogrinha, gosta muito de gatos, trata-os muito bem, mima-os até mais não, mas só lidou com gatos já domesticados. Portanto, achou que neste caso era de um dia para o outro que o animal silvestre, com verdadeiro pânico de pessoas, se sentisse à vontade na "casinha, no bem bom e com comidinha da boa". Só que não. Pequeno bicho virou o diabo da Tasmânia, trepou paredes, cortinas, uma verdadeira aflição para encontrar um buraco para fugir. Conseguimos com que entrasse na transportadora, onde, surpreendentemente se sentia seguro e acalmava, e foi para a lavandaria da sogra, divisão grande, onde tem as coisas do gato dela, mas também tem muita tralha onde o pequeno demónio se podia esconder. Sogra insistiu que ali fechado acabava por dar a mão com o tempo. Só que não. Comia, ia à caixa da areia, dormia junto do gato dela, mas quando ela entrava, zás, escondia-se e nada de aparecer.

Ao fim de duas semanas disto, chamou-nos e lá fomos a casa. A captura foi complicada, da qual resultaram mãos de dedos a sangrar (e sim, estavamos com luvas de proteção). Mas quando apanhado, enrolado numa manta para lhe prender os movimentos, começaram as festas. Orelhas, cabeça, queixo, falar baixinho e com muita ternura. Foi acalmando. Começou a ronronar. Tirei a luva, Gandhe disse-me para não o fazer, mas ele precisava sentir o meu cheiro e o toque da minha pele, caso contrário como ia ganhar confiança?

Tomámos a decisão de voltar ao plano A e veio connosco para casa. Preparei tudo numa divisão, espaço controlado, sem buracos ou esconderijos manhosos, a transportadora que ele tanto gostava como porto seguro para ele, areia, comida, água.

Primeira noite em nossa casa, um de cada vez, até fizemos turnos: fechámos-nos com ele dentro da divisão, sentámo-nos no chão, telemóvel ou um livro nas mãos. Olhava para ele e levava uma bufadela, voltava a minha atenção para o livro ou para o telemóvel. Olhava para ele, bufadela. Voltava à minha leitura. Foram horas disto, só ali, presentes mas sem forçar interação, até perceber que a nossa presença não era ameaça. 

Ao segundo dia as bufadelas já não eram tão intensas e deixou-se tocar. Carícias na cabeçita, orelhas, e começou o ronron. Veio ao colo. Horas depois um ligeiro banho (que ninguém entende como consegui), secar com toalha e embrulhar numa manta. Deixou-se ficar até adormecer profundamente. E juro que deve ter sido o seu primeiro sono verdadeiramente profundo da sua curta vida. Dormiu um par de horas ao meu colo, embrulhado na manta, depois mudei-o para a transportadora (já tínhamos tirado a parte de cima) e ali ficou mais um par de horas a dormir. Ia espreitando de vez em quando e nem me sentia, de tão ferrado que estava a dormir.

Os dias que se seguiram foi manter uma rotina. Alimentar, limpar a areia, ir varrer o chão para se habituar à vassoura, barulhos de água a correr, de aspirador, horas de colo e mimos e brincadeira... e o pequeno diabo da Tasmânia transformou-se num pote de mel. E numa menina. Até então estávamos convencidos que era gato, mas não. Saiu uma gata cheia de ternura. 

Veterinária com ela para check up. Contámos a história, ah e tal deve ter uns quatro meses... Afinal não. Dentição completa e definitiva. Tem cerca de seis meses, pesa pouco mais de 1 kg. Tirando uma ligeira constipação (essencialmente espirros) está boa, pulmões limpos, ouvidos limpos, portanto não há infeções. Desparasitada internamente, fezes limpas. Antes da castração, deixá-la estabilizar e ganhar peso. Amanhã vamos novamente à veterinária fazer reavaliação.

A evolução cá em casa. Eu deitada no chão, com ela às turrinhas a mim, num ronronar sem parar, foi assim um momento indescritível. Adora ser escovada, adora mimos e festas, não gosta de se sentir agarrada (medo), portanto pegar nela ao colo nos braços assusta-a. Adora estar ao colo, enrolada nas nossas pernas, brinca até se cansar e adormecer.

Sábado fizemos a mudança para casa da sogra, afinal, vai ser ela a dona (mas agora vá, tenho motivos para lá ir mais vezes fazer visitas ), e na curiosidade habitual de gato de nariz no ar a explorar o espaço, começou a ficar um pouco nervosa. Sentei-me na cadeira, ao lado da cadeira onde estava o gato da minha sogra deitado na caminha dele, e ao colo fui acalmando-a. Por ela, mudou-se para junto do outro gato... e foi isto:

Há histórias com finais felizes. E a história desta pequena está agora a começar. Sei que vai ter muito conforto e mimo. Que vai para o sofá ver as novelas com a dona, e até dormir com ela. Vai ter companhia permanente e um mano mais velho que já a adotou. 

E aqui está o motivo pelo qual tenho andado desaparecida nos últimos dias. Todo o tempo que tinha disponível foi para me dedicar de alma e coração a esta pequerrucha. Parece que vai ser Rita (Ritinha). Acho que fazem uma bela dupla, o Chico e a Rita.

Amanhã já vou estar com a Ritinha para nova visita à veterinária e já vou saber como foram as primeiras 48h na casa nova, casa que ela já conheceu, mas... enfim, é melhor esquecer essa parte.

Sociabilizar um gato silvestre não é fácil. Nem sempre é possível. Quanto mais velhos, a probabilidade de insucesso é maior. É um processo que exige tempo, dedicação, paciência, perseverança. Uns quantos arranhões e dentadas nas mãos. Mas quando se consegue trazer o melhor deles ao de cima, quando se consegue dar a confiança e a segurança que eles precisam para nos retribuírem com o melhor de si, todos os esforços e mazelas valeram a pena.

Quanto aos outros que permanecem na rua, adultos e juvenis, lá vou eu na minha rotina diária alimentá-los, pelo menos uma vez por dia: comida e água limpa. Não consigo tirar todos da rua, não consigo protegê-los de tudo (ainda há duas semanas outros dois foram atropelados e morreram - não foram os da primeira foto), e custa muito ver isso, só que faz parte do risco de um animal que vive na rua, desprotegido.

Não, não comparo animais com pessoas. Para mim são seres vivos, que como nós enquanto seres vivos, sentem fome, sede, frio, medo. Assim como nós, como seres vivos, têm necessidades e precisam de cuidados. Merecem respeito. E dignidade. 

Não, não comparo animais com pessoas. No entanto, já tenho visto nos animais melhores atitudes e comportamentos que em muitas pessoinhas que andam neste mundo. Há gentinha que tinha muito, mas mesmo muito a aprender com os animais. A gratidão, a lealdade e o altruísmo são só algumas dessas coisas. 

 

26
Jan19

Já está disponível!!!!

Já tenho o meu. Com o enorme privilégio de me ter sido enviado pelo próprio autor e com uma dedicatória que me deixou de coração aconchegado. 

Chegou à WOOK. Também chegou à Bertrand

Orgulho enorme de ver este companheiro de escrita nas grandes livrarias do país. 

Orgulho imenso pela sua coragem, persistência e luta.

«Há uma pessoa - e um escritor - de verdade nestas palavras.»
Pedro Chagas Freitas

Acrescento às palavras do nosso mentor (mestre) que há neste ser humano uma verdadeira inspiração de vida. 

 

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