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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

26
Jul21

Notas soltas

Ontem fez um ano que recebi um telefonema do meu pai. Pedia que o levasse ao hospital que não aguentava mais. Há um ano que o vi sair de casa pelo seu pé, ainda que muito enfraquecido, e não voltou a entrar. Sinto que esta semana vou estar em loop a reviver pelas memórias tão frescas todo o processo desde que ele entrou nas urgências, foi ao bloco operatório, houve um vislumbre de esperança que ia ficar bem, para haver uma recaída sem retorno. Segunda ida ao bloco operatório, de onde saiu em coma induzido, para não mais acordar. Foram dias numa contagem decrescente angustiante, em que ouvia o que a equipa médica ia dizendo de todo o quadro clínico, até vir a sentença final. As memórias são tão frescas como se tivesse sido há um mês e foi há exatamente um ano. E um ano parece tão pouco tempo e, simultaneamente, uma enormidade de tempo. Misturam-se cá dentro estas diferentes perceções do tempo, que é ele igual e si próprio, impávido e sereno, implacável na sua passagem. É só tão parvo este reviver de algo tão doloroso, que já passou, já foi, nada pode mudar, é aceitar e seguir em frente, honrando a memória e a vida, que foi como foi, como tinha de ser. E ao mesmo tempo parece inevitável este reviver, lembrando o dia do mês, o dia da semana, e até as horas em que falei com ele, ou com a equipa médica, dias após dia, o que me iam dizendo e como tudo se foi desenrolando num fatalismo inelutável. 

 

Estou em contagem decrescente para as férias. Daqui a uma semana espero estar no meu pequeno paraíso, refúgio junto ao mar, a respirar e curar a alma, a parar o tempo e ficar suspensa nessa paz e tranquilidade que aquele sítio me traz. Só quero atirar os biquínis (e fatos de banho) para dentro da mala, juntar uns vestidos soltos e as havaianas e seguir, leve e solta.

 

Por falar em biquínis... finalmente ganhei coragem (não, foi mesmo aproveitar a pelintrice de um desconto de 40%) e comprei um biquíni Ros Lisbon. Foi devolvido esta manhã. É muito bonito na modelo magra, com 1,70 de altura. Num metro e meio de gaja roliça, com curvas generosas e anca boa para kizomba, o dito cujo fica só estranho. Paciência. Tirei as teimas. 

 

Tenho andado às voltas a pensar na minha vida profissional. Cada vez mais insatisfeita com o trabalho, ando com umas ganas de bater com a porta e virar as costas. Só que não é tão simples assim, e sem ter plano B ou C, fica só muito irracional e irresponsável simplesmente virar costas e depois?  Depois "mais nada, nem sol nem madrugada" (lembrei-me da música, deixai lá estes pobres e queimados neurónios). A pandemia veio revelar o pior das pessoas e ando, acima de tudo, farta de muitos dos exemplares da espécie humana com quem me cruzo no dia a dia. Era pegar nelas e mandá-las para a ilha do Santo Caralhinho. Só com bilhete de ida. Nada a agradecer.

 

Vi a série Sex Life. Curiosamente, não foi por ter lido sobre ela nas internetes, foi mesmo a minha terapeuta que me falou da série e me recomendou ver, sob o ponto de vista da abordagem sistémica. Gostei muito da série. É uma série em camadas. Pode-se ficar na superfície e desfrutar de boas cenas de sexo, bem mais escaldantes e inspiradoras que as 50 sombras de Grey (é que nem tem comparação), devidamente contextualizadas numa história de quase triângulo amoroso, pode-se encarar como a crise de identidade de uma mulher na casa dos 40 (ou lá perto), que acabou de ser mãe pela segunda vez, que vive num casamento absolutamente perfeito e seguro, aquele que todas desejam e sonham, só que há algo que falta... e aqui, comum à grande maioria dos mortais, vemos a rotina e a relação a ser vivida como um dado adquirido a levantar dúvidas e questões (levante o dedo quem, a dado momento, também não as teve... poderá a vida ser só isto? Sendo que o "só isto" não é necessariamente mau, contudo, quer-se mais). Ou pode-se ir descascando as camadas e ir mais profundo na interpretação da história das personagens. O peso do passado, os traumas que vêm das relações familiares, condicionam comportamentos e levam a repetição de padrões, o respeito pela privacidade do outro, a aceitação da vida, que foi como tinha de ser e só assim se chegou onde chegou (em vez de ter ciúmes dos ex's, aprender a aceitá-los, pois foi por eles terem existido na vida que foi possível vir o seguinte e formar-se aquela família), e outras questões que, agora, tenho ferramentas que me fazem estar mais atenta e ir mais fundo na visão de certos temas e assuntos. Portanto, não é uma série apenas sobre os dramas de uma dona de casa entediada e com saudades do sexo intenso e escaldante que teve na juventude, é muito mais que isso. 

 

Na quinta levei a 2ª dose da vacina Covid. Se na 1ª fui toda cagunfas e fiquei apenas com dores no braço onde fui picada, na 2ª fui toda confiançuda e levei com uma pedreira inteira de sono, ainda gostaria de perceber como não fiquei com QWERTY marcado na testa (sim, porque aqui a pessoa é responsável e tal e veio trabalhar mesmo estando toda fodida... é que reconhecem muito esses sacrifícios, uiiiiii), seguido de umas dores de cabeça e dores de corpo que imagino serem semelhantes às de alguém que foi atropelado por uma manada de javalis em fúria. Depois de dois benurons no bucho e algum repouso, no sábado acordei bem, sem sinais de sintomas. 

 

Calha que na sexta foi o aniversário do namoro. 17 anos depois, 10 kgs a mais e eis-nos a jantar numa agradável esplanada com vista para a Ria de Aveiro, noite que terminou cedo, cortesia da pandemia, na farmácia de serviço mais próxima a comprar Benuron, para mim que ainda tinha um resquício de sintomas da vacina, para ele que anda com uma contratura no pescoço e uma inflamação no tendão que lhe provoca dores e mal estar. A ternura dos 40. Ou como estamos a envelhecer juntos. Com muitos trancos e barrancos pelo meio, e ainda, por ora, juntos. Os 17 já somaram. A ver se chegamos à maioridade para ir beber um copo 

 

 

20
Jul21

O Yoga e eu

Cronica_Yoga.JPG

Artigo completo aqui, revista Saber Viver

 

Houve um tempo em que eu olhava para o yoga e achava que não era para mim. E não era. Naquele tempo. Demasiado parado e eu precisava de gastar energia em coisas mais mexidas, não tinha paciência, não tinha flexibilidade, e outras inúmeras coisas que me passavam pela cabeça. Havia aulas de yoga na escola de dança que frequento, e não me faltaram oportunidades e convites para experimentar. Adiei sempre.

No confinamento dei uma oportunidade ao yoga. E havia algo diferente. Em mim. Comecei a apreciar muito mais os movimentos fluídos que respeitam o corpo em vez de o estar a esforçar para além dos limites em aulas de cardiofitness, nos moldes de 40 segundos em modo intensivo a fazer um exercício e 10 segundos de repouso. Repetia. Várias Séries. Múltiplas dores musculares. Um andar novo. Ou não andava de todo. 

No yoga aprendi a respirar. A centrar-me. A estar presente e focada. A parar. A aceitar os limites. A perceber que os limites são diferentes todos os dias e está tudo bem. A viver o momento, o aqui e agora, ir até onde eu posso naquele momento e está tudo bem. Respeitar os limites. Ir conquistando aos poucos, estendendo esses limites, com todo o respeito pelo corpo. Sem forçar. Sem rasgar músculos e ficar com dores durante dias.

O yoga tornou-se muito mais que uma forma de exercitar o corpo. Tornou-se muito mais do que exercitar o corpo. E por isso não me faziam sentido as publicações que via no Instagram de posições dignas de contorcionistas chinesas nos Jogos Olímpicos. E ontem encontrei o artigo acima mencionado e identifiquei-me com cada vírgula. O yoga é uma prática de autocuidado, é um hábito de amor-próprio. É isto. É tão isto. E sorri para mim ao ler o artigo, por saber que estou no meu caminho, não há certos ou errados, há o caminho que cada um escolhe para si. E o meu é este, o yoga como um dos meus momentos de autocuidado, pessoal e privado, uma das ferramentas usadas no meu desenvolvimento pessoal, na procura do meu equilíbrio interior. O bem estar que sinto por dentro é visível por fora. 

 

14
Jul21

Ponto de vista do utilizador

Estou aqui com cócegas nos dedos para libertar uns quantos "what the fuck" que me surgiram durante a hora de almoço, quando entre uma garfada de salada e uma dentada numa coxinha chicken style (é o que dá andar viciada em vídeos de compras de supermercado que brotam como cogumelos no YouTube), ia pondo o olho no Instagram. 

Eu não sou digital cenas especialistócoiso. O que vou escrever é meramente a minha opinião, ponto de vista do utilizador, aquele ser comum, banalíssimo, do mais ordinário que podem imaginar, que vegeta nas redes sociais quando coloca o cérebro em modo pausa (nem sempre consegue, mas é o objetivo). 

Ora bem, qual é o sentido das redes sociais, especificamente Instagram pois é lá que vejo estes fenómenos? Publicar cenas da sua vidinha. É assim uma espécie de reality show, com muito show e pouco reality. Uma cena de real life in real time (quase, ou é um pouco a intenção). Regra geral, quem publica um prato de comida que fez em casa ou comeu num qualquer restaurante, a foto é recente e não de há três meses atrás. Portanto, se eu vejo influencers a apanhar o avião significa que estão a ir de viagem e as publicações seguintes (fotos, stories, you name it) serão da viagem, certo? É a expetativa criada nos seguidores. Exemplo, algumas bloggers / influencers que sigo estão de férias e as fotos são das férias, dos passeios, das piscinas, etc. Vê quem quer, passa à frente se não interessa. Fulana está na Madeira, ah que cascata tão gira, ah que flores tão bonitas. Beltrana está nos Algarves, passa à frente, que não tarda vou eu. 

Agora, há uma certa influencer na praça que eu sigo, imagine-se, apenas e só porque é de Aveiro e é giro ver nas redes sociais cenários da minha amada cidade. A influencer em si faz-me revirar os olhos (juro, não consigo apreciar o conteúdo da personagem). Foi o grande WTF de hoje. Então publica stories a entrar num avião coajamigas para uma despedida de solteira, e três stories depois (atirei o três ao calhas, tá, não me dei ao trabalho de contar) publica uma foto estupidamente verosímil (SÓ QUE NÃO) de bicicleta, numa das ruas da cidade, com um solar como cenário, vestida com um macacão cheio de folhos e cenas (andar de bicicleta com aquilo deve dar cá uma saúde aos entrefolhos) e o conteúdo é (rufem tambores)... para ter mais tempo para passear de bicicleta, faz as compras no Continente Online. 

Silêncio... som de grilos ao fundo...

Foda-se! Que coerência de publicações é esta? Dá até a impressão que saiu do avião só para ir ali posar para a foto publicitária, que isto de ir de viagem é preciso ter uns trocos para comprar uns ímanes para o frigorífico. 

Já nem falo da pub em si que é tão absurda e ridícula, que a minha inteligência não atinge. Mas quem sou eu? Se a Sonae paga por merdas destas, problema do departamento de marketing. Assim como assim nem sou cliente do Continente, e definitivamente não é este tipo de pub que me torna cliente. 

 

 

Nota: os tais vídeos de compras de supermercado nos quais ando meia viciada, guardarei para outro post, quem sabe. Não sigo ninguém em concreto, mas bastou por curiosidade ver um ou outro vídeo sobre Mercadona, quando abriu por estes lados, para ter uma ideia dos produtos e respetivo feedback. Agora é um tal de me aparecerem vídeos destes nas sugestões do Youtube. E eu vou ver, pois claro, que aqui a criatura vai ao supermercado e gosta de saber novidades e cenas que valem a pena experimentar, nomeadamente na área alimentar e limpezas. E foi assim que já descobri produtos com excelente relação qualidade / preço e é assim que me desgraço a acrescentar à lista de compras coisas novas para comer. Até ver ainda não vi nenhum vídeo cuja Youtuber estivesse em cima de uma bicicleta no meio da rua, a mostrar as compras que fez online e assim ganhou tempo para passear na sua bicicleta de Barbie. 

07
Jul21

A hipocrisia das redes sociais

Há umas semanas atrás estive a cuscar o site da Shein, secção swimwear.

Coincidência ou não, na mesma altura apareceu-me nas sugestões do Youtube um vídeo, acabadinho de publicar, de uma (creio) youtuber nacional no qual experimentava e dava o feedback de bikinis comprados no Aliexpress. Fui ver pela curiosidade de perceber qual seria a opinião e como vestiam estes bikinis comprados por via destas plataformas de vendas online.

Se venho falar do que achei dos ditos bikinis? Nem por isso. Talvez o facto de não ter voltado a ir espreitar e tão pouco arriscar uma encomenda fale por si.

O que me fez uma espécie de reação visceral ao dito vídeo foi a youtuber em apreço pedir desculpa aos seus seguidores e pedir a sua compreensão porque não estava na sua melhor forma física, que se encontra em processo e emagrecimento e portanto, "pessoal, tenham lá calma com as críticas que eu sei que não estou no meu melhor" (parafraseando).

E só me passou assim uma coisa pela cabeça...

A sério? A sério??? Não é suposto andarmos nesta luta para derrubar estereótipos e padrões de beleza absurdos e irrealistas, louvar a beleza dos corpos, seja qual for o tamanho que vestem ou a forma que têm?

É esta puta desta hipocrisia das redes sociais que me tem afastado de lá. Cansada de ler ou ouvir discursos apologistas do bem estar emocional e mental, amor próprio, respeito por si própria, aceitação e o camandro, para depois as mesmas oradoras publicarem as suas fotos e stories dos seus corpos esculturais, em posições de yoga em que o 3º olho deixou de estar entre as sobrancelhas para estar entre as nádegas (normalmente acompanhado do peach emoji, que claramente não é uma alusão à fruta mas às nádegas firmes e hirtas). E as que não têm os corpos esculturais dignos do peach emoji, pedem desculpa e justificam que estão em processo de perda de peso. Ora fodeibos!!!!!

E lembrei-me de partilhar esta publicidade da Dove, que é tão crua e real, para lembrar que está nas nossas mãos inverter os danos que a pressão das redes sociais e os padrões ridículos de beleza causam na autoestima de todos(as) nós. Um grande basta a isto de termos de caber todos dentro do mesmo molde. Não somos "ovelhas Dolly". Não somos feitos numa linha de montagem, moldados dentro do mesmo espartilho.

E não será esta enorme diversidade de tamanhos e formas a beleza da nossa espécie?

 

 

01
Jul21

A coragem (ou loucura) de ser diferente

ovelha_negra.jpg

Nos últimos meses vi-me num papel onde nunca me tinha imaginado. Tive de assumir o lugar do meu pai na questão das partilhas da herança indivisa após a morte do meu avô. O meu pai deixou tudo preparado e assinado. Tinha contratado uma nova advogada para tratar do assunto, já que o advogado do meu avô assobiou para o lado e fez-se de esquecido. O meu pai andava muito ansioso e inquieto para resolver as coisas com o irmão. E morreu antes de sequer conseguir que o irmão se pronunciasse sobre o assunto.

Eu consegui sentar-me com o meu tio. E conversámos muito. E partilhámos muitas histórias. E ficámos a saber de coisas que não sabíamos. E emocionámo-nos muito. E ouvi o meu tio falar de arrependimento, daquele arrependimento de quem viveu muitos anos nas suas crenças sem se aperceber que a verdade nunca é absoluta, que há diferentes perspetivas, que há nuances da história que ficam entrelinhas ou deliberadamente escondidas. Aquele arrependimento de quem percebe que houve tanta manipulação das verdades, que houve afastamentos que foram provocados e alimentados, que houve intrigas e mal entendidos que teriam sido completamente evitados se tivesse havido espaço para diálogo.

Eu disse ao meu tio que estávamos a conseguir fazer algo que nesta família nunca tinha sido feito: conversar. Encontrar um entendimento. Encontrar paz.

O meu tio emocionou-se quando percebeu e viu documentadas as vontades férreas do pai dele, de como ele jogou com a vida dos filhos como quis e lhe apeteceu. O meu tio emocionou-se quando percebeu que os últimos meses de vida do irmão, o meu pai, foram dedicados a procurar compensar o irmão pela desigualdade provocada pelo pai deles. E vi o reconhecimento no seu rosto quando lhe disse que eu pretendia manter o que era vontade do meu pai, porque concordava com ele, porque era o que podia ser feito para tentar equilibrar o fosso criado pelo próprio pai entre os irmãos. E tudo corria bem com o meu tio até ele perceber que, sendo casado, a esposa teria de ir assinar documentação, escrituras. E começaram os problemas em casa dele.

Entretanto deixou de atender o telefone à advogada. E a mim.

Eu não quero problemas, ou tão pouco arranjar problemas em casa dele, no seio da família dele. Mas vejo-me com assuntos para tratar onde ele tem de ser chamado à sua responsabilidade, como herdeiro do meu avô, atualmente "cabeça de casal" da herança, já que é o único descendente direto vivo. Esbarro no silêncio, na fuga, sempre o caminho mais fácil, o fechar a porta e fingir que não ouve a campainha.

Nesta família sempre me senti diferente. Uma espécie de ovelha negra, constantemente criticada e apontada pelas diferenças que tinha e me afastavam do clã e das suas características e dinâmicas. E agora sou eu, a ovelha negra, que, em prantos, enterra e honra os que já partiram, que se vê a braços com tomadas de decisão que não deveriam ser apenas e só minhas.

 

30
Jun21

O peso de uma herança

Tenho andado com tanta vontade de escrever. Por mim, para mim, para pôr para fora este turbilhão de emoções que por aqui anda.

E não é que a vontade passe. É o tempo que se escapa entre os ponteiros, numa correria, é o cansaço físico e, acima de tudo, emocional que me retrai e afasta deste espaço de encontro comigo.

Páro. Respiro fundo. Encontro um momento para me dar uma folga. Como que para ganhar fôlego para nova investida. Tem de ser. E é por este "tem de ser" que me movo e me deixo, em determinados momentos, levar pela ansiedade e angústia. Sinto-me a carregar um pesado mundo às costas.

Com a morte do meu pai, sendo eu filha única de pais divorciados, vejo-me neste papel de única herdeira. Com tudo o que acarreta de bom e menos. bom. Acho que de positivo é a questão de não ter de andar "à batatada" com ninguém, com stresses e discussões que nunca levam a lado nenhum, a não ser a um desgaste emocional e da própria relação familiar, que pode já não ser muito equilibrada ou harmoniosa. O resto é estar sozinha com o peso de uma herança em cima e tudo o que isso implica, desde impostos, encargos, responsabilidades e tomada de decisões que não, não são nada fáceis.

Os meses vão passando, algumas decisões foram sendo tomadas, as conversações com o meu tio (irmão do meu pai) para concluir o processo de partilhas do lado do meu avô até corriam bem, havia espaço para diálogo e entendimento, só que houve um reverso provocado por outra pessoa, próxima do meu tio. Nos entretantos, o meu pai já tinha herdado a casa dos pais (meus avós), que agora passou diretamente para mim. E eis-me na ingrata tarefa de esvaziar a casa, ter de dar novo destino a mais de 60 anos de histórias de vida desta família. E ontem, ao encaixotar fotografias, cartas e postais, diplomas e outros itens de natureza pessoal, que são marcos na história de vida destas pessoas, senti que estava a fazer um segundo funeral, a enterrar o que resta da passagem delas por este mundo que conhecemos. E doeu. Abriu aquela ferida da perda, de quem tem vivido um luto a par do trabalho terapêutico de aceitação, reconciliação e perdão com a história de vida desta família.

Sinto-me esgotada. Emocionalmente esgotada. E a sentir este dever de ter de me manter firme porque há decisões a tomar, há assuntos a tratar, uma série de coisas a resolver. E ninguém me disse que esvaziar uma casa era tão difícil. Que tudo o que as pessoas acumulam ao longo de anos e gerações numa casa é absolutamente assustador na hora em que é necessário dar novo destino, porque a vida segue e para a frente é o caminho.

E não é a questão do desapego que me trava. Não sou materialista, não me apego a objetos e coisas como se fossem o elo de ligação com as pessoas. Para mim guardarei as fotos, cartas e postais, diplomas e a condecoração que em tempos o meu avô recebeu do Presidente da República. Não me interessam serviços de louça que ainda têm o preço agarrado. Nunca foram usados, portanto não posso olhar para os pratos e lembrar-me de um jantar de natal qualquer passado naquela casa. Não moro numa mansão (nem tenciono sequer mudar de casa por agora) para guardar mobílias e outras coisas, não sou (mais agora que tenho esta tarefa hercúlea) de ter mais do que aquilo que preciso e uso e, ainda assim, acho que já tenho os meus armários cheios, para ainda estar a levar para minha casa louça ou o que calha só porque sim.

Em abril comecei a contactar antiquários, casas de oportunidades e 2ª mão, interessados por velharias. Fotografei o espólio e divulguei fotografias. E até para dar a instituições de solidariedade, são mais os problemas e dificuldades que levantam, que as soluções que apresentam.

O desânimo tem sido uma constante. E esta terrível sensação de estar perdida, desorientada e sem saber para que lado me virar.

Posso fugir? Posso ir para uma ilha deserta e ficar lá até que tudo isto se resolva num passe de magia? Posso simplesmente virar costas e assobiar para o lado como se não fosse nada comigo?

Por aqui vivem-se dias difíceis. Num turbilhão de emoções. Demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo e que estão a exigir muito de mim e a sugar a minha energia.Vou tendo as minhas bolhas de oxigénio para respirar fundo e ir aguentando. Por ora, terá de ser o suficiente. E a esperança que em breve possa ficar mais aliviada.

 

02
Jun21

10 meses de tanto

Há exatamente 10 meses despedia-me do meu pai. Ainda vivo. Ou melhor, em coma induzido, ligado ao ventilador, com vários órgãos em falência e uma questão de horas até dar o último e derradeiro suspiro. Vi-o num fio ténue de vida, mais ali num limbo entre os dois mundos. 

Finalmente, na presença de uma das médicas que o acompanhou nos seus últimos dias, pude fazer as várias questões dos "ses". Se ele tivesse procurado um médico mais cedo, se tivesse sido detetado mais cedo, se tivesse havido chances de tratamentos... os "ses" que a razão queria ver respondidos para acalmar o coração. Não sei, nunca saberei, se a médica em apreço foi sincera ou deu ali uns pozinhos de piedade, estou mais tentada a acreditar que foi mesmo sincera, sem pruridos ou pozinhos. Nunca teve hipótese. O tumor era agressivo, desenvolveu-se de forma intensa e galopante, numa zona demasiado crítica. Ainda que aos primeiros sinais ele tivesse ido ao médico e tivesse sido detetado, o desfecho seria o mesmo, tendo pelo meio tratamentos extremamente agressivos que trariam imenso sofrimento e significativa perda de qualidade de vida. 

Agarrei-me ao "foi como teve de ser, foi como ele escolheu e decidiu, foi como foi e nada pode mudar". 

Não é porque faleceu que agora vai ser considerado o pai do ano. Não o foi. Estávamos, sim, numa fase de reaproximação e eu toda contente pela oportunidade de deixar um passado de mágoa e afastamento para trás, e poder ter novamente o meu pai na minha vida. Durou pouco. Muito pouco. E doeu muito esta partida brusca, quase sem pré aviso, num dia deixo-o nas urgências do hospital, na semana seguinte vou busca-lo dentro de um caixão. Num dia estava a recuperar o tempo perdido de uma orfandade paterna forçada e no outro estava efetivamente órfã de pai e a ter de assumir e tomar decisões que não contava, de todo, ter entre mãos.

O processo de luto vai além da perda de um ente querido. Há todo um luto de uma vida cheia de mágoas e abandonos. Esse tem sido o mais doloroso. A morte é irreversível. A forma como se viveu a vida (e as relações) é que deixa muitas questões com as quais se tem de lidar.

Aceitar. Perdoar. Libertar. Honrar. Agradecer...

Aceitar que tudo foi como tinha de ser.

Perdoar porque, como pessoas comuns e com as suas próprias dores, deram apenas o que tinham para dar, e foi suficiente.

Libertar o que não me pertence, o que não é meu. 

Honrar os meus antepassados, pois sem eles eu não estaria aqui.

Agradecer. Sou o que sou hoje por tudo o que vivi.

A dor permanece. O vazio que ficou. E se acentuou.

Aprendo a lidar com essas emoções. A viver os dias de forma mais leve. A encontrar os meus rituais de autocuidado, que me ajudam no equilíbrio emocional. Um dia de cada vez. Aqui e agora. E a mudança tem acontecido. Dentro de mim. Para fora de mim. 

10 meses. De tanto. 

31
Mai21

Escolhas...

Vem aí um casamento de uma amiga. Uma amiga muito especial, que jamais imaginaria conhecer quando comecei nestas andanças dos blogs.

E poderia estar aqui a falar sobre esta amizade que o blog me trouxe e a vida se encarregou de nos aproximar, à distância de um abraço, aquele nosso abraço, como sempre nos dizemos.

Ora, na hora de escolher o meu outfit lembrei-me de um vestido verde que comprei para um batizado que não aconteceu. Vestido novo, por estrear, não havia muito a pensar. É aquele e pronto. O problema esteve no calçado. Casamento em início de julho "pede" sandálias e eu, as sandálias que tinha dignas de cerimónia foram descartadas porque era tudo com saltos agulha vertiginosos que deixei de usar.

Andei a procurar sandálias em vários sites e marcas. O que gostava era tudo com saltos para cima de 9 cm. O que aparecia com saltos entre os 5 e os 7 cm eram saltos grosseiros, que não me diziam nada, eu não gostava ou tão pouco achava elegante. E andei a matutar na vida dos meus pés para esse dia. Investia numas sandálias que me iam fazer sofrer para usar só naquele dia e depois nunca mais? Não estava para aí virada, sinceramente.

Fui esperando, fui estando atenta a algumas marcas cujas coleções acompanho e, foi nesta esperança de encontrar uma solução que esperei pelo lançamento da coleção Ros Lisbon. E quando começaram a ser publicadas as primeiras fotos vi-as e pensei que eram perfeitas para levar ao casamento e depois usar e usar e usar até me cansar (se é que me iria cansar).

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Foto do site Ros Lisbon, com respetivo link associado

Sim, sandálias rasas. Com promessa de conforto. Lindas. E elegantes. Até para um casamento.

Andei ali uns dias a suspirar e a pensar se gastava 90€ numas sandálias (não é um budget nada habitual em mim). E antes que esgotassem, lá encomendei as sandálias, argumentando mentalmente comigo própria e convencendo-me da compra. Ainda não as usei, como aliás ainda não usei sandálias pois o calor (ou falta de) ainda não o justifica. Tenho de começar a andar com elas por casa para não haver riscos de desconforto típico de calçado novo no dia D. Ainda que não acredite muito que aconteça, porque efetivamente são confortáveis, bem alcochoadas. Só preciso que os meus pés colaborem e não inchem como um peru.

Se estou totalmente segura da minha escolha? Quase. A verdade é que estou aqui com aquela vozinha que deveria ir de salto alto, é uma cerimónia e mimimimi bla bla bla. E no entanto sei que faço melhor figura com estas sandálias do que ir de salto vertiginoso e andar lá feita pata manca e acabar por tirar e calçar outra coisa qualquer (normalmente não pensada para o outfit), só para não estar com os pés em sofrimento.

Dei por mim há dias a ver novamente sandálias de salto. Deparei-me com o mesmo: saltos médios são grosseiros e feios (para mim), saltos altos mais elegantes mas também mais desconfortáveis (para mim). Sim, até encontrei duas ou três ali num meio termo que poderiam (talvez) ser opção. Só que aí lembrei-me do investimento feito nas da Ros, sem arrependimento. E pensando bem fundo, eu estou muito bem com a minha opção das sandálias rasas para usar num casamento. O que ainda está aqui a incomodar um pouco? A opinião alheia. E sabem que mais? Quero lá saber. Tenho de me libertar disso. Não sei o que os outros vão pensar. E não quero saber. Não vou agradar a todos, vá de rasos ou de altos. E não é o meu foco. Eu quero sentir-me bem e confortável no casamento da minha amiga. Quero desfrutar, da melhor maneira possível, o dia especial dela para o qual fui convidada e estou muito feliz por isso. O resto? Que se f...

 

21
Mai21

Aos 40

Aos 39 vivi uma pandemia mundial. Enterrei o meu pai e o meu mundo tremeu. Aos 39 finalmente procurei a ajuda que precisava e tanto adiava. Iniciei uma dura, porém maravilhosa e indescritível, viagem interior.

Os 39 foram um ano de transformação e metamorfose. Os 39 foram um ano para fechar ciclos e preparar a nova década de vida. Os 39 foram cinzas para entrar nos 40 qual Fénix renascida. Mais forte. Mais confiante. Mais resiliente. Mais empática. Com muito mais amor próprio e aceitação daquilo que sou. Com um novo mindset: eu posso e mereço! EU POSSO E MEREÇO*!

Entro nos 40 a aceitar tudo o que passei, tudo o que foi, como foi. Porque se me aceito e me amo tal como sou, então aceito todo o passado que me moldou e forjou. Aceitação e perdão. Os pilares a que me ancorei para libertar tantas mágoas e dores, para largar arrependimentos sem sentido.

Os 40 chegam com amor e leveza. Com nova energia. Com maturidade. Com um poder interior que é novidade para mim e tem sido maravilhoso senti-lo.

Alguém (muito especial) disse-me nos seus votos de parabéns que a melhor fase da vida das mulheres começa agora. A minha sem dúvida.

Portanto, aos meus 40 (e vindouros), que sejam vividos e sentidos da melhor maneira possível, que sejam de crescimento, amadurecimento, sabedoria, gratidão. Que sejam muito mais de amor, de ser e estar presente no aqui e agora. Que sejam espetaculares, porque eu posso e mereço que assim seja, nada mais nada menos.

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* À guru do empoderamento que me transformou, Sara, um profundo e eterno agradecimento por fazeres parte da minha metamorfose, por seres o farol da minha viagem às profundezas do meu ser.

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