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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

02
Jun21

10 meses de tanto

Há exatamente 10 meses despedia-me do meu pai. Ainda vivo. Ou melhor, em coma induzido, ligado ao ventilador, com vários órgãos em falência e uma questão de horas até dar o último e derradeiro suspiro. Vi-o num fio ténue de vida, mais ali num limbo entre os dois mundos. 

Finalmente, na presença de uma das médicas que o acompanhou nos seus últimos dias, pude fazer as várias questões dos "ses". Se ele tivesse procurado um médico mais cedo, se tivesse sido detetado mais cedo, se tivesse havido chances de tratamentos... os "ses" que a razão queria ver respondidos para acalmar o coração. Não sei, nunca saberei, se a médica em apreço foi sincera ou deu ali uns pozinhos de piedade, estou mais tentada a acreditar que foi mesmo sincera, sem pruridos ou pozinhos. Nunca teve hipótese. O tumor era agressivo, desenvolveu-se de forma intensa e galopante, numa zona demasiado crítica. Ainda que aos primeiros sinais ele tivesse ido ao médico e tivesse sido detetado, o desfecho seria o mesmo, tendo pelo meio tratamentos extremamente agressivos que trariam imenso sofrimento e significativa perda de qualidade de vida. 

Agarrei-me ao "foi como teve de ser, foi como ele escolheu e decidiu, foi como foi e nada pode mudar". 

Não é porque faleceu que agora vai ser considerado o pai do ano. Não o foi. Estávamos, sim, numa fase de reaproximação e eu toda contente pela oportunidade de deixar um passado de mágoa e afastamento para trás, e poder ter novamente o meu pai na minha vida. Durou pouco. Muito pouco. E doeu muito esta partida brusca, quase sem pré aviso, num dia deixo-o nas urgências do hospital, na semana seguinte vou busca-lo dentro de um caixão. Num dia estava a recuperar o tempo perdido de uma orfandade paterna forçada e no outro estava efetivamente órfã de pai e a ter de assumir e tomar decisões que não contava, de todo, ter entre mãos.

O processo de luto vai além da perda de um ente querido. Há todo um luto de uma vida cheia de mágoas e abandonos. Esse tem sido o mais doloroso. A morte é irreversível. A forma como se viveu a vida (e as relações) é que deixa muitas questões com as quais se tem de lidar.

Aceitar. Perdoar. Libertar. Honrar. Agradecer...

Aceitar que tudo foi como tinha de ser.

Perdoar porque, como pessoas comuns e com as suas próprias dores, deram apenas o que tinham para dar, e foi suficiente.

Libertar o que não me pertence, o que não é meu. 

Honrar os meus antepassados, pois sem eles eu não estaria aqui.

Agradecer. Sou o que sou hoje por tudo o que vivi.

A dor permanece. O vazio que ficou. E se acentuou.

Aprendo a lidar com essas emoções. A viver os dias de forma mais leve. A encontrar os meus rituais de autocuidado, que me ajudam no equilíbrio emocional. Um dia de cada vez. Aqui e agora. E a mudança tem acontecido. Dentro de mim. Para fora de mim. 

10 meses. De tanto. 

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