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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

03
Nov16

Era uma vez (começam assim as estórias)

Numa pequena aldeia vivia um casal com dois filhos. O pai trabalhava numa boa fábrica, a mãe era dona de casa, explorava terras e criava vacas e porcos. Um filho varão, que era o orgulho dos pais, uma filha mais nova que foi criada para rainha. Um dia veio uma terceira filha. Sem contarem. Sem quererem. Vinha estragar o casal. Mas já que veio, que fosse para cuidar das terras, das vacas e dos porcos e para olhar pela velhice dos pais. Não precisava de ir à escola. Enquanto reuniram esforços para que o filho varão estudasse e, quem sabe, se fizesse doutor, a filha do meio aprendeu costura e foi à escola, a mais nova desde cedo era para tratar da casa, das terras e dos animais. Não era filha, era criada de servir. Comum naquele tempo. Só que o filho varão não queria estudar, queria boa vida, e o pai, para não perder o filho na gandaia, meteu-o a trabalhar nos barcos de pesca de bacalhau. 

Nessa mesma pequena aldeia havia outra família. Um pai, vindo da cidade, uma mãe, filha de família rica da terra, dois filhos pequenos. Rumaram à capital porque o pai arranjou lá bom trabalho. A aldeia era para passar férias. O filho mais velho queria ser arquiteto, o pai tirano não deixou. Teria a mesma profissão que ele, e para isso bastava um curso técnico. O mais novo era o menino lindo dos papás, fazia o que queria. Ambos os filhos tiveram de pertencer, contrariados, à Mocidade Portuguesa, quando jovens tornaram-se comunistas, como protesto contra o regime e contra o pai tirano, salazarista convicto. Um dia dá-se o 25 de abril e o pai tirano, defensor acérrimo do regime salazarista, elemento integrante da PIDE, vê-se expulso da capital sob ameaças várias. Exilou-se na aldeia de origem. Filho mais velho, rapaz educado e criado na capital, vê-se na plenitude dos seus 19/20 anos isolado na aldeia do norte. 

Num qualquer dia o destino destes dois jovens cruza-se. A jovem que era criada de servir dos próprios pais e irmãos, que foi à escola só até à 4ª classe, e porque a isso obrigaram os pais, e o jovem que vinha da cidade grande, revoltado e contrariado. Podia ser uma grande história de amor. Não foi. Ele provavelmente viu na campónia uma forma de se divertir, ela viu o bilhete de saída da vida miserável que lhe estava predestinada à nascença. E para que o seu objetivo fosse conseguido, simula uma gravidez e obriga o jovem a casar com ela. E ele, feita a desonra e com um suposto filho a caminho, contrariado, não tem outro remédio senão casar. Entretanto há um suposto aborto. E o casamento manteve-se. Reza a história que ele quis um fato preto para o casamento, porque casar, casava, mas a seguir enviuvava e usaria o mesmo fato no funeral da mulher. As fotos atestam: ele casou de fato preto. E a ela valeu-lhe o sogro, que mesmo não gostando dela, não queria as mãos do filho manchadas, e a salvou de um estrangulamento, dias depois do casamento.

E, entretanto, este casamento que era suposto pouco durar, acabou por durar quase 25 anos. E porquê? Porque uma criança nasceu. 13 meses depois do fatídico casamento. Uma menina. A filha que a avó paterna sempre quis ter e não teve, a neta dos avós maternos que não era neta, porque era filha da sua filha desnaturada que tinha fugido ao seu destino: cuidar da velhice dos pais, cuidar das terras, das vacas e dos porcos.

A menina era a salvação da sua mãe, a condenação do seu pai. Pai que não ia trabalhar porque não tinha obrigação de sustentar mulher e filha. Valeram-lhe os avós paternos, apesar de tudo. A menina não tem culpa. Dizia a avó paterna, com voz autoritária e olhos gélidos, como quem ralha ao filho, mesmo adulto, porque não sabe o que faz. A menina não soube o que era colo ou mimo. Soube o que era pancada. Isso sim. Porque depressa se tornou o saco de pancada, onde pai e mãe descarregavam os seus ódios e raivas. Das memórias de infância não há recordação de um abraço do pai, mas de pontapés e empurrões. Há cicatrizes que atestam, como aquela no canto do seu olho esquerdo. Acreditava a menina, de memórias fugazes, que essa cicatriz tinha sido quando o Farrusco, cão da avó, a tinha mordido. Não filha, dissera-lhe um dia a avó, de voz embargada e olhos baços, o Farrusco mordeu-te na orelha. Isso foi o desgraçado do teu pai que te fez, quando te deu um pontapé só porque estavas a espreitar para os sacos do Pão de Açúcar que estávamos a pôr na mala do carro. Bateste na fechadura da mala do carro e por um triz não furaste o olho. Outras cicatrizes há. A memória apagou-se na menina, ou pela tenra idade ou porque é demasiado mau para recordar, e a avó calava-se muitas vezes, escondendo histórias e engolindo lágrimas, embora soasse a ladainha aquele: cuidado com a menina, isso não se faz!

A menina foi crescendo. A mãe numa posse louca por essa filha, já que ela tinha de ser tudo o que ela não fora. Estuda para mostrares aos outros, estuda para fazeres ver que hás-de ser doutora. O pai, numa raiva cega que crescia abafada. Um dia aquele casal, que de casal nada tinha, deixou de se falar. Na verdade, deixou de gritar e discutir. Numa casa de três era insuportável o silêncio. Porque aquele pai, que de pai pouco tinha, achou que também devia deixar de falar para a filha. Tinha 14 anos. As prendinhas que ela lhe dava, numa busca de afeto, acabavam estilhaçadas no chão, atiradas contra a parede. Os postais que lhe escrevia eram rasgados em pedaços. Mas era a filha adolescente que lhe cozinhava ou lhe tratava da roupa, porque ele se recusava a comer o que a mulher cozinhava, e a mulher recusava-se a tratar-lhe da roupa. E a filha foi crescendo. No meio de uma guerra entre os pais, num completo desespero pela falta de afeto do pai e possessividade da mãe. Do pai recebia apenas dinheiro para estudar. Porque era a promessa dele, a sua única obrigação: quando ela acabar de estudar, desapareço  - profetizava. E quando, pressionada pela mãe para ser doutora, foi para a universidade, o pai ficou ainda mais revoltado, numa fúria cega, porque eram mais uns anos a que se via numa obrigação para com aquela filha que não quis. Foste a desgraça do teu pai - dissera-lhe o avô paterno, já ela era uma jovem adulta, quase formada, quase (ilusoriamente) livre. Não devias ter nascido. Palavras marcadas a ferro e fogo, mas que fazem sentido. Se essa menina não tivesse nascido, aquele casamento, que nunca deveria ter acontecido, acabaria mais cedo. Ainda que condenado socialmente, não havia filhos, seria mais fácil. Mas não. A menina, que nunca pediu para nascer, havia chegado ao mundo para complicar toda esta história. Do lado da família da mãe nunca houve família, porque nunca lhe foi reconhecido esse estatuto. Do lado da família do pai carregava esse fardo de ter sido a desgraça e a infelicidade.

A menina sou eu. E o meu pai só me dirigiu a palavra na altura do divórcio porque precisava de um intermediário para resolver questões práticas, como separação de bens. 

O meu pai faz anos hoje. E eu vasculho nas minhas memórias o aniversário em que ele me tenha dado um beijo de parabéns. Já não falo em prendas. Falo num beijo, num abraço de pai. Não encontro. Encontro as surras que apanhei porque sim. Encontro as vezes que fiz xixi pelas pernas abaixo com medo dele, porque eu tinha tido o desplante de me servir da comida primeiro, e ele simplesmente puxava da toalha, ia tudo para o chão e ninguém comia. Lembro-me de ter trabalhado num part-time nas férias de verão antes do 12º ano e nesse ano nem um centavo ele deu para os livros, porque eu tinha trabalhado, tinha dinheiro, que comprasse eu os livros. E comprei. E paguei metade da carta de condução que comecei a tirar nesse ano. E a merda do carro que supostamente ele me ofereceu na altura que completei 19 anos, foi apenas a sua oportunidade de deixar de ser o motorista da minha mãe (que não tem carta de condução), porque logo a seguir comprou um comercial para ele e deixou de me levar a mim ou a ela onde fosse preciso, e acreditem que "onde fosse preciso" era mesmo o estritamente necessário e indispensável. Na memória tenho um dia em que, adolescente, precisei de ir ao dentista com urgência, e fui de bicicleta, à chuva, à vila mais próxima, que ficava a cerca de 8 km. Porque ele não tinha obrigação de levar a filha ao médico. Na memória tenho muitos episódios destes. Marcados a ferro e fogo na alma. E amaldiçoo este sangue que me corre nas veias. 

O meu pai faz anos hoje. E eu vasculho nas minhas memórias de 35 anos de vida por um motivo que me faça pegar no telefone e dar-lhe os parabéns. Não encontro. A sociedade, que tanto condena os filhos porque pais são pais e tudo se lhes perdoa, que me desculpe, mas eu não encontro motivo algum para pegar no telefone e dar os parabéns ao meu pai. 

Quando arranco de dentro deste meu armário de esqueletos estas memórias dão dolorosas, eu só me pergunto como sobrevivi. Ainda que saiba que, algumas vezes, estive à beira do abismo. Uma mãe tóxica, um pai ausente, frio, distante, que via em mim a sua desgraça e infelicidade. Que cocktail explosivo poderia ter resultado?

Este podia ser o argumento rebuscado de uma qualquer novela mexicana. Não é. É a pura realidade. Aquela em que nasci, cresci, e sabe-se lá como, sobrevivi. Uma história que começou muito antes de eu existir, e por causa da qual eu levei com todas as suas nefastas consequências. A minha única culpa foi a de ter nascido. 

Respiro fundo e fecho o armário, qual Pandora que fecha a sua caixa guardando a esperança. Talvez tenha sido a esperança a mostrar-me o fundo do túnel. O que não nos mata, torna-nos mais fortes. E quando faço estas incursões ao meu passado sinto-me forte. E hei-de continuar a ser forte. Esgotada, mas forte. Mesmo sozinha, orfã de pais vivos, mas forte. Afinal, com pais destes, quem precisa de inimigos? Aprendi desde cedo, muito cedo, a contar comigo e só comigo. Foi assim que me moldaram a ferro e fogo.

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O meu pai faz anos hoje. E eu lembro-me dele. E não encontro uma única boa memória. Dar-lhe os parabéns porquê? Para quê? 

 

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