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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

25
Set18

A solidão que dói

Estava de férias quando, abalroada pela notícia da minha amiga, decidi agir em vez de permanecer no “eu gostava, um dia eu vou…”. Procurei informações, liguei, e soube que afinal eu não precisava deslocar-me a outra cidade para me inscrever como dadora de medula. No mesmo dia tornei-me dadora de sangue e de medula. Fiz testes, preenchi questionários, tive uma consulta médica, fui logo para a doação de sangue, onde me deu um fanico (tensão baixa é assim), e saí de lá com um orgulho (e braço dorido) de dever cumprido.

Mas quase fui barrada logo na primeira fase de seleção. No questionário para dador de medula, mesmo no fim, eram solicitados dois contactos de emergência. Preenchi o primeiro com os dados do Gandhe. Deixei o segundo em branco, achando que era opcional. Só que não, e só aceitavam a minha humilde candidatura com preenchimento de um segundo contacto.

Para a grande maioria das pessoas isto é simples e corriqueiro, até devem sobrar opções de preenchimento. Há pai, mãe, irmãos, tios, primos, and so on... mas eu bloqueei, completamente congelada na minha consciente (e dolorosa) solidão. Não há mãe, não há pai, não há irmãos, os primos estão longe, distantes, em vidas tão afastadas da minha, os tios idem… quem me sobra?

Gandhe sugeriu pôr os dados da mãe dele. Que remédio, ou engolia esse orgulho e dava os dados da sogra como meu segundo contacto de emergência, ou vinha-me embora sem sequer ter tentado voluntariar-me para o banco de dadores.

Vim para casa, meia combalida do que se passou durante a doação de sangue, e totalmente aturdida com um vazio que se abriu dentro do meu peito.

À noite, já mais recuperada, entrei em contacto com uma das minhas amigas mais próximas, que ironicamente, vive noutra cidade, expliquei-lhe o que tinha acontecido e perguntei se podia, caso voltasse a confrontar-me com uma situação destas, dar os dados dela. Prontamente me disse que sim, que era uma honra. E agradeci tanto quanto pude, engolindo esta solidão amarga de não ter ninguém na vida.

Ontem voltei a sentir este amargo. Num momento de grande dor e angústia, quis falar e não tinha com quem. Corri mentalmente a lista dos amigos com quem me sentiria à vontade para procurar colo, e felizmente ainda são alguns. Detive-me, no entanto, por não querer incomodar. Têm a sua vida, alguns com filhos pequenos, pouco passava da hora de jantar, estariam ocupados a jantar com a família, a arrumar a cozinha, a preparar as coisas para o dia seguinte, eventualmente a descansar ou a aproveitar para ver uma série, um filme, para namorar ou ler uma história ao filho.

Fiquei sozinha, enrolada no meu casulo, quebrando o silêncio com as soluçantes lágrimas que caíam desamparadas sobre o peito vazio.

Eu sei, tenho este feitio orgulhoso de me fazer de forte e independente. Estupidamente consciente das carências afetivas e emocionais que fazem parte do meu ADN, da minha herança genética e educacional, criei esta fortaleza em meu redor. Mas caramba, é uma muralha de papel. E que não fosse, até os fortes caem e precisam de uma mão estendida, de um ombro que ampare a cabeça que tomba, de um abraço que conforte, de uma palavra que acalme a angústia.

 

17
Set18

Estórias e cenas tristes do espectro profissional deste Portugal (sub)desenvolvido!

Há um ano e tal atrás mudei de equipa de trabalho. Mudei de funções. Dei uma volta de 180º. O desafio era enorme. Assustou-me. Nem tanto o desafio em si, mas saber que o apoio seria pouco ou nenhum, que teria de enfrentar muitas dificuldades sozinha, que teria de aprender muita coisa em pouco tempo, que teria de aguçar sentido crítico, capacidade de análise. Tive muito medo de falhar. Ainda há dias em que esse medo vem e atrapalha. Mas um ano e meio volvido, e sabendo que ainda há muito a aprender, a estudar, a analisar, a evoluir, caraças, também há aqueles dias em que me faço ouvir, em que questiono, em que dou voz ao sentido crítico sem medos, em que quero ir mais além do que foi indicado, porque acho que é insuficiente... há dias em que defendo as minhas ideias à hierarquia superior e sou questionada. Tenho de fundamentar. Justificar. Argumentar. E caraças, se não fico com uma pontinha de orgulho quando, mesmo depois de porem em causa o que estou a dizer, acabam por me dar razão. Afinal já aprendi umas coisas. Afinal até já posso falar com conhecimento de causa. Estudar e ter que lidar diariamente com legislação e, simultaneamente, com parte técnica/operacional já me dá algum arcaboiço para defender determinados processos e pontos de vista. 

Mas isto é sol de pouca dura, esta sensação de crescimento, de aprendizagem, de metas atingidas. Porque o pão nosso de cada dia é a desvalorização, o não reconhecimento de evolução de competências, o constante questionar/duvidar que põe uma pessoa em xeque (em dias maus chego a duvidar que saiba escrever). 

Como diria o sábio JJ: "é uma faca de dois legumes". E é sempre muito mais fácil ceder à sufocante pressão de ter de justificar cada passo, cada decisão. Difícil é alimentar a autoconfiança (e autonomia) quando o retorno que se tem é um constante duvidar do nosso trabalho, da nossa análise, no fundo das nossas competências e conhecimentos. Quando tudo o que fazemos tem de ser validado superiormente, passar por um apertado crivo de fundamentações, como se estivéssemos a defender uma tese digna de candidatura a um prémio Nobel. 

Mais frustrante é perceber que a exigência tem parâmetros elevados para uns, enquanto outros, que muitas das vezes ganham bem mais e têm muitos mais anos de "casa", passam o dia a coçar a micose, o pouco que fazem ainda dá merda, mas está sempre tudo bem, palmadinhas nas costas e até lhes diminuem a carga de trabalho porque, jazus, estão assoberbados. 

Ora, mentalmente, eis a minha resposta:

 

 

17
Set18

Fico com uma neura!

Sabem aqueles dias em que uma pessoa não pára, come fora de horas, porque perde noção do tempo e só se dá conta porque o estomâgo grita no vazio, passa o dia a saltar da cadeira para ir acudir outros fogos, sai tarde e más horas e chega ao final e, em retrospetiva, não fez merda nenhuma?!

Um minuto de silêncio pela minha segunda feira perdida... 

 

12
Set18

Regressos

Setembro é mês de recomeços. Não vou ser mais uma a falar do assunto que esgotou logo ao segundo dia do mês.

Este ano, como tirei férias na segunda quinzena de agosto, setembro foi efetivamente o regresso às rotinas, ao trabalho, aos horários. As aulas de cardiofitness recomeçaram logo na primeira semana, esta semana regressei também às danças, os dias ficam mais preenchidos e mais pequenos. Literalmente. 

As férias deixam saudades, claro, mas também é boa esta sensação de voltar a casa e sentir que a vida prossegue no seu ritmo rotineiro, numa sucessão de horários e atividades previstas e programadas.

Daqui a dias já estou a maldizer a correria e o stress, os horários apertados e a rogar-me pragas por querer meter-me em tudo e achar que tenho tempo para tantas atividades.

Por ora, vou desfrutar deste breve momento zen, em que me sinto a voltar aos meus lugares comuns.

 

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