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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

22
Abr20

Últimas duas leituras

Luís Miguel Rocha é um autor internacionalmente reconhecido, infelizmente faleceu demasiado cedo. 

A temática da sua obra centra-se no Vaticano e nos jogos de poder, corrupção e espionagem nos bastidores da Igreja enquanto instituição. Até onde são capazes de ir para esconder segredos que podem pôr em causa os dogmas universais que sustentam a religião católica e o poder do Vaticano? 

Dos quatro livros publicados em vida, li agora os dois que ainda me faltavam. Falha minha, não li pela ordem de publicação (o que recomendo). Não torna a leitura difícil, mas se há um evoluir das personagens que são transversais aos livros, é normal que ao ler por ordem inversa, saiba de coisas antes de conhecer o antes e o que pode ter levado ali. Além disso os livros estão escritos pela ordem cronológica da História. 

Bem, a ordem de publicação:

1. O Último Papa

2. Bala Santa

3. A Mentira Sagrada

4. A Filha do Papa

A ordem pela qual aqui a menina leu. A Filha do Papa, O Último Papa, A Mentira Sagrada e por fim Bala Santa.

Adorei A Filha do Papa. Adorei O Último Papa. A Mentira Sagrada foi bom. Já Bala Santa foi um bocadinho difícil de ler pela forma como a trama está apresentada. Estes dois últimos foram as minhas leituras mais recentes.

Todos juntos completam um ciclo que começa com João Paulo I e a sua misteriosa morte, passa por João Paulo II e os atentados de que foi vítima, chega até Bento XVI e um grande segredo guardado a sete chaves que, só a dúvida que levanta, pode arruinar a Igreja Católica e o pilar em que esta assenta: a ressurreição de Cristo. Por fim, qual terá sido o motivo (não oficial) real para que o Papa Pio XII não fosse beatificado? Teorias sobre a existência de uma filha, uma vez mais segredos que são guardados a todo o custo para preservar a imagem da Santa Fé. 

Para quem gosta de uma boa história de espionagem, de ser surpreendido porque as personagens nunca são o que parecem, sucessivas reviravoltas na trama, e aprecia a temática dos segredos mundanos nos bastidores do Vaticano, estão aqui quatro boas apostas. 

 

21
Abr20

Quarentena: dia 35

Ontem terminei o dia com febre, deitada no sofá com tremores de frio. Nem exercício físico, nem jantar nem nada. O homem fez o jantar mas eu só consegui comer sopa. Um banho bem quente, um chá e um brufen no bucho, cama. Vida cheia de glamour, portanto. 

Acordo sem febre, mas com uma dor de cabeça do raio. Outro brufen no bucho com o pequeno almoço. E a triste ideia de abrir um link de uma "notícia" que confirma aquilo que o meu bom senso já previa: praia este ano? Só por um canudo. Isto claro está para as pessoas que estão a cumprir com as medidas propostas para controlo do contágio. Para as egoístas vai haver um verão com direito a tudo. Depois em setembro se verá a segunda vaga de contágio por covid-19 (que aliás está previsto).

 

Mudando de assunto, sugestões para aproveitar sobras de carnes de churrasco? Tenho ali carne grelhada que sobrou do churrasco de domingo e hoje o jantar será gourmet: restos! A via mais fácil? Aquecer a carne, fazer um arroz e uma salada e siga. Mas vá, quero fazer algo "diferente" com aqueles restos. Estou aqui a pensar num feijão preto com bacon e a carne cortada em pedacinhos, vai com arroz branco na mesma e uma salada. Agrada-me. Vai na volta peço ao homem para fazer uma caipirinha, assim como assim tem vitamina C e tem álcool: uma é boa para o sistema imunitário, o outro desinfeta. Perfeito. Também podia dar uma de chef de cozinha do Instagram e fazer bolinhos de carne (vulgo croquetes), quiche, uma tarte ou um risotto, uma bola (pãodemia ao rubro) de carnes ou outra cena assim muito chic cuisine. O que poderia implicar ter de ir comprar ingredientes que, por norma, não há em casa, o que não é de todo recomendável. A modos que a lata de feijão preto que está por ali na despensa me parece uma ideia do caraças. Isso e as caipirinhas. É.

 
20
Abr20

Quarentena: dia 34

Sexta jantei sushi. Abençoado serviço de take away do restaurante onde habitualmente vou ao sushi.

Sádado foi dia de limpar e arrumar o "palácio". E também de andar de catalógo Ikea online numa mão e a fita métrica na outra. No carrinho de compras já constam alguns artigos... encomenda por submeter. Estamos em período de reflexão.

Domingo aproveitou-se o bom tempo e foi dia de churrasco com direito a caipirinha.

Vive-se dentro de portas, tentando trazer algum do mundo lá fora cá para dentro. Vai-se, assim, tentando fintar esta quarentena, este isolamento e distância social. Mas há sinais de cansaço. De desanimo também. Por aqui mantêm-se as regras de confinamento e lá fora parece que foi dada ordem de soltura, é só pessoas na rua, a passear ao sol, famílias de quatro elementos a irem para o supermercado, crianças sem máscara, encostam-se ao balcão da caixa, mãos, queixo, provavelmente boca (desabafo de uma pessoa amiga que trabalha num destes postos de trabalho e tem de ver coisas que custam a engolir quando se tem dois dedos de testa e um neurónio, no mínimo, a funcionar). Parece que as creches vão reabrir. Está tudo bem. As redes sociais cansam de tanto unicórnio e vidas de Barbie. Não imaginava que os portugueses viviam todos (quase) em casas com piscina, algumas com vista para o mar. Assim a quarentena até é um favor do universo para as pessoas gozarem mais as suas casas. E pululam padeiros e personal trainers. Toda a gente está exímia a fazer pão, bolos, petiscos vários. Isso e exercício físico. Tanto que nem vale a pena os ginásios voltarem a abrir portas. Está provado que não são precisos. Há quantidade absurda que me passa à frente dos olhos de exercício físico eu já tenho um six pack abdominal completo. Nas pestanas.

Desmotivo. Cumpro o meu horário de trabalho, que com reuniões quase diárias de 1h ou mais e em dias com muitas falhas de rede, acabo por esticar o dito horário para compensar na produtividade. Tenho dias que quando desligo o computador e penso que 20 minutinhos a fazer exercício seguindo um vídeo do Youtube até ajudaria a descomprimir, não fosse o cansaço ser muito, a cabeça gritar por sossego e mais depressa aterro um bocadinho no sofá antes de ir para o fogão, do que vou estender o tapete e pôr-me a malhar o corpinho que grita por descanso horizontal. 

Sinto-me moída, dormente. 

Uma amiga teve um ataque de pânico e crise de ansiedade. A falta de ar levou-a às urgências de um hospital privado que a pôs na rua e recusou-se atender. Foi ao público. Foi muito bem atendida. Está novamente em casa, sozinha, a tentar recuperar, com medicação SOS. Posso pegar no carro e ir lá ter com ela, tomar um café, dar-lhe um abraço e conversarmos cara a cara e não por vídeo chamada? 

A parte invisível da quarentena, aquela que não é vistosa e bonita de publicar nas redes sociais. A solidão, o medo, as dificuldades financeiras, as preocupações, a tentativa vã e o esforço hercúleo de criar uma nova rotina e realidade e "fingir" que está tudo bem e vai ficar tudo bem. Estou cansada, posso?! Cansada das tretas otimistas. Cansada dos egoístas e estúpidos que põem em causa todo o sacrifício que outras pessoas estão a fazer para controlar o contágio. Cansada da falácia das redes sociais que, mesmo neste momento que vivemos, continua a mostrar um lado paradisíaco e idílico de uma vida em quarentena, em que estão todos muito pró ativos, muito bem emocionalmente (quem vê a enxurrada de figuras tristes no tik tok não diria que é gente sã de espírito)... de repente tudo faz e come pão, aquele inimigo da dieta e bem estar que até há bem pouco tempo atrás toda a gente era alérgica. Só que não. A covid curou a doença celíaca de milhares de pessoas. Milagre, milagre! Haja pão. E vinho. E muito fit e yoga e merdas, já vomito pelos olhos tantas dicas de treinos em casa. Biquíni só para 2021, ok?! 

Cansaço. Íssimo íssimo íssimo cansaço. 

 

16
Abr20

Devo preocupar-me?

Soa estranho quando, hoje, acordo com aquele "típico" pensamento de outrora, quando o despertador toca e ouve-se um pequeno dilúvio lá fora: ai, ficava tão bem a dormir, mas tenho de ir trabalhar. Não me apetece nada.

Tudo isto é verdade, mais ainda depois de uma noite que fui assaltada por uma insónia nada fofinha que não me deixou pregar olho. Agora o trabalhar é ir ali para a divisão do lado. Até podia levar o edredão atrás de mim... não tenho propriamente de enfrentar o dilúvio, que normalmente é o bode expiatório para não apetecer ir trabalhar (= sair de casa).

Acho que esta realidade paralela, fruto da quarentena, já se está a entranhar nos neurónios duma pessoa. 

15
Abr20

Com pronúncia do norte... e humanidade!

Há muito tempo, long time ago, que este canal não conta com a minha audiência. Mesmo quando faço distraidamente zapping para ver o que está a dar, continuo suficientemente atenta para passar à frente do botão 4. 

Não fiquei muito surpreendida com o sururu que se levantou nas redes sociais a propósito deste "erro grosseiro". Exemplos destes são os que validam a minha opção de nem sequer ver tal canal que prima pelo mau jornalismo, pouco profissionalismo, ética duvidosa e nada nada nada imparcial. Mas já diz o ditado, falem bem ou mal, o importante é que falem. E é assim que este canal anda sempre nas bocas do povo. Lamentável.

Não queria comentar. Queria manter a indiferença que mantenho para com esta estação de televisão, num sentido ato de desprezo. Prefiro ver o trash tv da TLC, a ver o que seria suposto ser um serviço informativo de qualidade. Alguma, pelo menos.

Não queria comentar para não ser mais uma a alimentar este erro de semântica que vem levantar as hostes da secular rivalidade Norte/Sul. 

Portugal é um país geograficamente pequeno, no entanto é rico e denso em diversidade cultural, regional, gastronómica, sem falar dos séculos de história que carregamos no nosso ADN nacional por sermos um dos países mais antigos. (Recorrendo à educação que tive, seria agora o momento de recordar que o berço de Portugal é no norte... deve ser por isso que é só velhos.) Devemos orgulhar-nos desta nossa identidade nacional e cultural, dos séculos de história, das conquistas e descobertas. Que seria o mundo se não tivéssemos partido à descoberta? Seria como o conhecemos hoje? 

Não deixa de ser verdadeiramente triste e lamentável ver num canal de televisão, mais, num serviço de notícias que se quer rigoroso, imparcial e ético, uma frase destas. Não é só um erro grosseiro ou semântico. Não é justificável e tão pouco desculpável. 

A par das vozes do norte que vêm defender a sua honra (e estão no seu direito), vêm outros defender o canal e achar que os do norte são umas virgens ofendidas e, burros, não percebem o lapso jornalístico de uma (única) pessoa, que sozinha não faz a equipa nem o canal (isto é que é trabalho de equipa, exemplar!). Cá está, a eterna rivalidade que divide e reduz o país a Norte e Sul, a Porto e Lisboa (espremidos os argumentos). 

Eu sou Aveiro. Faço parte do Norte. Sou portuguesa. Com muito orgulho. 

Adoro o sul, tenho uma paixão pelo Alentejo e isso não faz de mim menos aveirense, menos nortenha nem menos portuguesa. 

No entanto não gostei de ver aquela infeliz frase que reduz uma boa parte do país a gente sem educação e velhos. Puxando os galardões, a Universidade de Aveiro é uma das melhores do país e está bem posicionada no ranking de universidades mundiais, assim como a Universidade do Porto e a do Minho.  Se isso é sinónimo de educação e cultura, então o Norte não tem de se sentir ofendido com vozes que vêm "de baixo".

A guerra que estamos a viver é mundial. O vírus não distingue nações, línguas, estratos sociais, contas bancárias, graus académicos... pronúncias . Tanto quanto sei e foi notícia no mundo, desde atores de Hollywood, a príncipes europeus e dirigentes políticos, o vírus apanhou de tudo um pouco. Se calhar acaba por ser mais inteligente que nós, porque só "reconhece" seres humanos, enquanto nós andamos aqui a discutir teses verdadeiramente científicas de que o vírus contamina essecialmente pobres e sem educação e velhos isolados no norte... 

O corona vírus veio mostrar-nos a vulnerabilidade do ser humano. Somos todos iguais, apesar do tanto que nos distingue ou que usamos para nos distinguirmos.

Agora, mais do que nunca, é momento para estarmos unidos e solidários com os nossos pares e semelhantes. Em todo o mundo. E por isso alimentar esta rivalidade bairrista é só idiota e completamente ridículo. Numa altura em que enfrentamos o mesmo inimigo, faz-me pensar que afinal a humanidade não está a aprender a lição de vida implícita nesta pandemia.

 

14
Abr20

Quarentena: dia 28

Isto de ter um fim de semana de cinco dias é muito bom. Cinco dias inteiros para estar em casa. Se tivessem avisado mais cedo da tolerância de ponto, talvez eu tivesse conseguido reserva no Algarve, assim já estava tudo cheio, não deu.

Que fiz eu em cinco dias? Ora, vegetei no sofá e vi filmes. Fui atrás do sururu das redes sociais e fui ver o filme turco que anda a dar que falar, e chorar: O Milagre da Cela 7. Se me puxou à lágrima, sim, mas tal como aconteceu com o Titanic que era tudo numa choradeira pegada e eu ali, de olhos lacrimejantes a olhar à minha volta sem perceber porque choravam copiosamente: seria o naufrágio, as centenas de mortos, ou seria apenas e só o Di Caprio ali congelado a afundar enquanto a porca da Winslet ficava em cima da porta (diriam as más línguas que isso aconteceu porque ela era magra, se fosse agora ia logo ao fundo... mas o argumento seria igualmente válido para o Di Caprio. Se fosse agora ele nem chegava a congelar, ia logo ao fundo). Bem, deixando o humor negro, sim, fiquei comovida, o filme tem uma mensagem muito bonita de amor puro, incondicional e desprovido de interesses que não seja a possibilidade de amar assim, de forma simples e absoluta. Um amor apresentado como sendo vivido na inocência e ingenuidade entre duas crianças, ainda que na verdade sejam pai e filha. Um amor inocente e puro contextualizado numa sociedade devastada pelo poder e pela corrupção. Um amor que quase é destruído por causa de injustiças e de uma enorme podridão de quem detém o poder. Ainda assim, o amor é mais forte, ainda que vivido por duas crianças, e inspira várias pessoas que por esse amor vão lutar, enfrentar o poder ditatorial e arranjar forma de manter pai e filha unidos. A mensagem de que o amor transforma as pessoas, desperta nelas o melhor que têm dentro de si, cura almas atormentadas, o amor vence barreiras, mesmo aquelas que parecem impossíveis de transpor. Sim, o filme tem uma mensagem intensa numa aparente simplicidade da trama. Agora não me pôs a chorar durante horas, nem é o filme mais bonito que vi na vida, nem o fui rever para andar a apanhar pontas soltas (uma colega minha viu o filme novamente e construiu toda uma teoria baseada em detalhes que passam despercebidos... até pode estar certa, mas não me senti tentada a ir rever para verificar a teoria dela). Tal como o Titanic, estou aqui a sentir-me um cubo de gelo enquanto olho em volta e vejo reações emotivas que o filme provocou em toda a gente. Podia usar a quarentena como desculpa, mas quando foi o Titanic não havia quarentena. Depois lembro-me do filme O Clube dos Poetas Mortos, esse sim, o filme da minha vida, que me põe a chorar sempre que o vejo, e acreditem, já o vi dezenas de vezes. O Milagre da Cela 7 é um filme bonito, inspirador, comovente, mas não me deixou assim extasiada e sem fôlego, como por exemplo o Joker me deixou. Lá está, acho a mensagem do Joker bem mais intensa. Pronto, cada um é como é.

Sogra está internada. O teste ao corona vírus deu negativo. Até ter o resultado, ela foi diariamente contactada por uma médica da unidade de saúde familiar da área de residência para fazer um acompanhamento aos sintomas. Já li que há pessoas que não estão a ser acompanhadas, ninguém lhes liga, sentem-se abandonadas, mesmo quando os testes são positivos. Ora, tudo isto é novo para o mundo inteiro. Em nenhum país as unidades e profissionais de saúde estavam preparados para esta pandemia. Eu imagino que as pessoas estejam assustadas, em pânico, que em situações limite, como confirmar-se a contaminação, se sintam abandonadas, mas há aqui que também dar o testemunho que não é generalizado e depende muito da organização e da capacidade de resposta das equipas que estão "no terreno". Os casos que soube "de perto", alguns por prevenção porque estiveram em contacto com pessoas infetadas, outros por estarem infetados, ainda que em casa por não apresentarem sintomas que justificassem internamento hospitalar, foram devidamente acompanhados e monotorizados. Voltando à sogra, não é por corona vírus que está hospitalizada, mas por causa do coração. Em fevereiro ela levou um pacemaker, e agora descobruiu-se uma embolia pulmonar subsequente da intervenção de fevereiro. Obviamente, nesta situação que vivemos por conta do corona vírus, ela não recebe visitas, Gandhe passou no hospital para deixar no segurança um saco com coisas que ela precisava. Não sabemos quanto tempo vai ficar internada, depende de como reagir à medicação que lhe estão a dar para drenar os pulmões de forma não invasiva. 

A Páscoa não foi nenhuma loucura. Assim como assim é uma época festiva que não nos diz muito, já houve outros anos que passamos o dia só os dois, como um qualquer domingo normal. Dei-me folga e encomendamos cabrito assado a um restaurante local. Sinceramente, o que custou com três acompanhamentos diferentes e a quantidade de carne que era, não sei se ficaria mais barato se tivesse feito em casa... a carne de cabrito não é propriamente barata, a somar o custo da preparação (principalmente o consumo de eletricidade no forno), provavelmente não haveria grande diferença. Estava muito bom, soube melhor ainda por não haver cansaço à mistura. Não houve amêndoas nem ovos de chocolate, houve um pudim de ovos maravilhoso. Ainda anda ali um resto no frigorífico, para mal dos meus pecados. 

Aproveitei o sábado, dia que tinha cabeleireira marcada, para tratar de pintar o cabelo. Já houve uma altura em que pintava o cabelo em casa, portanto foi só recordar o processo e executar. Correu bem, já publiquei o resultado no Instagram, e lá porque estamos fechadas em casa sabe bem e faz-nos bem tratar de nós. Se isso passa por pintar o cabelo, seja. 

Depois destes dias em que os horários andaram mais soltos e ligeiros, hoje é dia de retomar horários e rotinas nesta vida de quarentena que já começa a tornar-se menos estranha. 

 

07
Abr20

Quarentena: dia 21

Três semanas.

Ainda não cortei os pulsos. Nem me atirei da janela (também não ia longe, que o RC não está longe do pavimento).

Os dias vão passando numa falsa rotina. Horário de trabalho a cumprir (tem havido uns lapsos, entrar tarde ou sair mais tarde para não deixar coisas a meio) e depois, bem depois perdeu-se um bocadinho o controlo. O que estava como tempo para exercício físico e ainda sobrava tempo para relaxar antes de fazer o jantar, agora está mais numa de sai da cadeira do escritório, vai para a cozinha e começa a preparar o jantar, estou estupidamente cansada que só quero comer e ficar a vegetar em frente à TV enquanto passam os episódios diários de duas séries que ando a (re)ver.

Não ajuda o tempinho de chuva que me põe num estado anímico igual a uma cenoura. Murcha. Com a chuva nem ao terraço posso ir uns minutos sentir ar fresco na cara e levar com o sol nos olhos. Com a chuva adormece o urso polar que habita dentro de mim, e só tenho vontade de também ir ali para o sofá hibernar debaixo da manta.

Junte-se a isto a maldita TPM, com enxaquecas e cólicas à mistura e temos o caldo entornado. Os últimos dias eu andei imprópria para consumo, impossível de aturar.

Já passou. Está a passar. O pior pelo menos... hoje já me sinto mais enérgica, mais ativa, mentalmente mais desperta também.

Recebi há pouco o email a dar conta da tolerância de ponto nos próximos dias 9 e 13. Fiquei radiante com a perspetiva de um fim de semana de 5 dias para #gotoanywhere. Pelos vistos eu antecipei-me no modo urso polar a querer hibernar. Tivesse esperado mais uns dias e tinha o caminho livre para o sofá sem obrigações a cumprir.

Cenas dignas de registo para a posteridade:

1. Sogrinha querida teve sintomas, ligou-nos aflita porque estava com tosse e falta de ar. Filho deu-lhe instruções para tirar a temperatura (por acaso esta fui eu que lembrei) e para ligar para a Saúde 24. Nem um minuto depois ligava ela de volta. Ninguém a atendia, o drama, o horror, a tragédia. Filho fez uma simulação de chamada e foi logo atendido (atendimento automático, no qual se responde a umas questões de triagem prévia antes da chamada ser atendida efetivamente por alguém). Liga-lhe e volta a dar-lhe instruções mais precisas, detalhadas, explicando que TEM DE ESPERAR e que pode demorar, um colega dele esteve uma tarde inteira. Nem um minuto depois ela liga novamente. Que não consegue, que não a atendem, que não falam com ela. Foda-se... qual é a parte do esperar que não percebeu? O raio da mulher foi feita numa rapidinha ao estilo "então, estás a gostaste?", que não pode esperar 5 segundos que sejam. Filho volta a simular uma chamada para a Saúde 24, tem logo acesso, desliga, como é óbvio, e volta a ligar à mãe e já a cerrar os dentes e a revirar os olhos diz-lhe que ela tem de esperar para ouvir a primeira pergunta que fazem, e clica na tecla 1 e ESPERA que a seguir a atendam. Era ela voltar a ligar no minuto seguinte que eu fazia uma malinha de viagem e recambiava o gajo pra casa da mãe que o pariu. Que a ature e fique lá. Nova chamada da senhora, uns 10 minutos depois. Ah já tinham falado com ela, tinha de ir ao hospital fazer o teste. Que ainda perguntou se o filho a podia levar, NÃO (WTF, se ela visse mais notícias e menos novelas da TVI talvez estivesse minimamente informada do que se está a passar), ou ia sozinha de carro se se sentisse em condições ou ia uma ambulância buscá-la. Mas ela não podia estar com ninguém. Eu bem disse que já me estava a imaginar a recambiar o filho para debaixo da saia dela e que ficasse lá por tempo indeterminado. Pois então foi fazer o teste, ficaram de ligar no dia seguinte com o resultado. Ora, era suposto ontem ter o resultado, não teve. Mas ligou uma médica a perguntar como ela estava (está melhor, fresca que nem uma gota de orvalho) e que iam ligar duas vezes por dia para saber como ela estava. Resultado do teste? Ainda não havia. Portanto estamos neste compasso de espera. A senhora está bem, igual a ela própria, para mal da minha paciência, acredito que o corona vírus passou-lhe ao lado. Nem ele tem pachorra para aturar uma criatura daquelas. Mas até ter resultados concretos, é esperar por uma resposta definitiva. Então mas e a senhora é das que anda na rua como se nada fosse? Seria, se por um lado quando isto começou há três semanas o filho não lhe andasse a ligar diariamente a dizer que ela não podia sair de casa, ainda mais sendo doente cardíaca, e por outro lado porque onde ela costuma ir está fechado. Ainda assim, por mais que o filho lhe dissesse que se precisasse de alguma coisa do supermercado ele ia buscar e deixava lá em casa, a senhora achou que ir até ao Continente era giro para esticar as pernas. Depois teve ainda o azar de ir ao centro de saúde para uma consulta de pós cirurgia que estava marcada, mas que obviamente foi cancelada e não a avisaram. Sucede que ela foi lá na véspera do centro de saúde ser encerrado por haver profissionais de saúde infetados. Estas saídas temos conhecimento porque contou. Mas a senhora também só conta o que lhe interessa, portanto não posso pôr a mão no fogo em como efetivamente tem estado quieta e sossegada em casa.

2. Gandhe voltou ao trabalho. Não contava que fosse já, a empresa entrou dia 1 em lay-off mas a administração tem andado a reunir diariamente e o que hoje é, amanhã já não é... e isto é mesmo próprio do contexto em que vivemos, não há planos a curto nem médio muito menos a longo prazo. Vive-se ao dia, quando muito à semana em questões de planeamento. Na sexta passada recebeu informação que esta semana arrancaria a produção, para dar resposta às encomendas que chegam, curiosamente, dos países asiáticos que regressam agora à normalidade possível. Vai produzir a meio gás, algumas equipas convocadas, e normas muito restritas de higiene e segurança para voltarem ao trabalho. Gandhe não estava no leque de pessoal que regressaria de início, mas ontem o chefe ligou a perguntar se ele não se importava de ir... e hoje já voltou ao seu normal horário de trabalho. Vamos lá a ver como isto corre.

3. A minha diretora vai fazendo reuniões por skype para ver como a equipa está. Pelo meio vai lançando assim umas indiretas para nos deixar de sobreaviso. Pelo andar da carruagem, regressamos à base lá para julho. Nada que eu já não tivesse pensado. Numa fase inicial achava que em junho já poderíamos regressar a uma certa normalidade, mas depois que as previsões apontam o pico da infeção para fins de maio que deixei de ter ideias de pseudo liberdade em junho. E mais, a ser realista, o voltar à normalidade não será como se nada tivesse acontecido, ou melhor, que já passou e não há mais riscos. Não acredito muito nisso. Será um regresso faseado, com restrições para segurança de todos, o que implica que espaços públicos ou que permita aglomerados de pessoas estejam bastante condicionados. Começo a achar que em agosto, por segurança de todos, não será de todo aconselhável ir até à praia, essa coisa que temos como garantida no verão: ir à praia. Eu até posso ter a toalha a 3m de outra pessoa. Mas e o ir até à água? E à casa de banho? E à esplanada comer um gelado? Pois... cenários a pensar. Logo se vê. Não coloco muitas expetativas para não me desiludir muito.

4. As redes sociais continuam a ser um mundo próspero em idiotice. Note-se que idiotice é a incapacidade de coordenar ideias... Vou ficar por aqui. Hoje. Pode ser que me dê vontade de fazer um apanhado dos tesourinhos deprimentes.

01
Abr20

Quarentena: dia 15

Ontem foi um dia de trampa. Chuva, frio (muito frio), um humor de caca. Ontem estava boa para me enfiar debaixo de uma manta e hibernar.

Felizmente hoje o humor está melhor, o tempo também. Tenho a janela do escritório um pouco aberta, pelo que ouço facilmente o que se passa na rua. Seria de ouvir silêncio, quando muito os sons da natureza primaveril. Só que não. Ouço pessoas. E uma teve o desplante de dizer: está bom para andar na rua (deduzo que se tenha cruzado com alguém conhecido).

E é isto. Tivesse eu um balde de água aqui à mão e era logo pela janela, sem dó nem piedade.

Vou achar que sou supé influencer e as marcas ouviram-me. Agora as newsletters são sobre a tendência fato de treino e até já criaram um separador #stayhome, com propostas várias de modelitos. Eu até percebo, lojas fechadas, o prejuízo, faturação a cair a pique, têm de recorrer a estratégias para colmatar a quebra das vendas. Só compra quem quer...

As newsletters das marcas a apelarem ao consumo, eu ainda entendo. É negócio. Das vendas dependem postos de trabalho, objetivos de faturação, toda uma estrutura empresarial a manter. O que já me custa a engolir são as influencers e pseudo influencers a apelarem ao consumo. Sejam coerentes, foda-se. Por um lado é toda uma lista de dicas e ideias para estar em casa. E as lições de vida e humanidade que se retiram deste isolamento social, coisa mais profunda, a la Gustavo Santos. Por outro é mostrarem merdas que são realmente essenciais para ir à varanda apanhar vitamina D nos cornos, como sapatilhas para cima de 100€. Espero que sejam bem recompensadas pela "prostituição" que fazem da sua imagem nas redes sociais.

Ah e tal e coiso estás com dor de corno porque não tens marcas a pagarem-te ou a oferecerem-te cenas. Pois não. Porque não quero. Porque os emails que recebo com essas propostas vão diretos para o caixote do lixo.

Esse tipo de publicações e as pessoas que andam na rua a dizer alto e bom som "está bom (tempo) para andar na rua" iam direitinhas para um sítio onde o sol nunca chega. Um buraco negro em Plutão, estavam a pensar o quê?!

Por aqui atingiu-se o 15º dia de quarentena, sem sintomas. Portanto, ao fim de 14 dias é de presumir que o vírus não me apanhou.

Até já estou aqui a pensar que para festejar vou encomendar umas sapatilhas fashion para ir à rua aproveitar o bom tempo... (estou a ser irónica, ok?!).

 

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