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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

26
Ago20

O texto que tenho adiado escrever...

Quem segue a Caixa no Instagram sabe o que aconteceu neste último mês. Sabe que há um mês comecei com obras em casa (pinturas de paredes e tetos com alguns arranjos de fissuras pelo meio). Sabe que há um mês o meu pai deu entrada no hospital e depois de uma semana excessivamente intensa a nível emocional, com as notícias dia após dia a conduzirem a um desfecho previsível, esperado mas que nada nos prepara para o derradeiro momento, aquele em que, depois de ter sido chamada ao hospital para me despedir dele, me comunicam que faleceu.

Continuo sem palavras para descrever o momento em que esta realidade se abateu sobre mim. Continuo sem perceber muito bem como me tenho mantido de pé a tratar de uma imensa burocracia que enerva, esgota a paciência, suga toda a energia que resta num momento destes.

As férias deixaram de ser férias para tratar de um funeral e desencadear uma série de processos em diversas entidades, processos que ainda decorrem, e ontem, mais um dia de férias queimado para ultimar burocracias, mas afinal ainda há mais uma declaração que é precisa para entregar nas Finanças e fazer uma adição ao imposto de selo e só depois, só depois é que pode voltar cá e prosseguir... e só para iniciar o processo desembolsa x, e desembolsa y e mais o caralhinho para tanto papel e selos timbrados e o raio que parta esta máquina burocrática que empata e entrava e chateia e nos suga vida e dinheiro. A sério que estamos no séc XXI, em plena era digital? A sério que, alegadamente, devido à pandemia, muitos serviços tiveram de agilizar procedimentos? Ah não. Isso era a expetativa. A realidade é que ainda estão mais bloqueados, difíceis de aceder e resolver de uma vez.

Poupo-vos detalhes, porque tudo isto ainda é uma ferida aberta e dolorosa. Recebo o embate da morte do meu pai e, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta, sou única herdeira. Em cima de mim caem todas as decisões, responsabilidades, despesas. E isto de herdar propriedades é muito giro na boca do povinho ignorante que acha que agora devo ser uma espécie de condessa lá da terrinha. Eu só vejo dinheiro a sair da conta, tudo se paga, os impostos não esperam, os encargos com as propriedades também não e agora está tudo nos meus ombros.

Respiro fundo. Tudo se resolve. Não escolhi que isto acontecesse na minha vida. Aconteceu. Agora é lidar da melhor forma possível. Se haveria momento ideal para pôr em prática o que, também nesta altura, aprendi naquele desafio de auto coaching, que com tanto entusiasmo me inscrevi, foi este. Na semana do internamento e na semana em que faleceu, valeram-me as meditações diárias do desafio, cada dia com um tema a explorar num pre talking. Valeram-me esses momentos em que, durante cerca de 30 minutos por dia, eu estava comigo e a tratar de mim. Encontrei força onde não julgava haver. Mantive um equilíbrio quando achava que ia simplesmente colapsar.

Houve dias difíceis. Muito difíceis. Sei que os haverá. Ainda este fim de semana fui abaixo e andei a chorar descontroladamente com um sentimento de vazio, de estar sozinha no mundo, porque as pessoas que mais amei e de quem guardo as melhores memórias já se foram. Tal e qual como a casa que acabo de herdar, sinto-me vazia, abandonada. Morreram. Foram-se para sempre e não voltam. Ficam aquelas paredes repletas de anos de memórias e histórias de três gerações de uma família.

Houve um momento que me afastei das redes sociais no geral, de pessoas em particular. A silly season a decorrer, o Instagram repleto de fotos de férias, praias, piscinas, famílias, verão no seu esplendor e leveza que deixa as pessoas felizes. E eu a ter de lidar com a dor que a morte de alguém tão próximo deixa, aquele vazio que nada nem ninguém nunca preencherá, enredada numa teia de burocracia que estava a exigir demasiado de mim, a sugar-me a pouca energia que sentia. Houve dias que não atendi telemóvel nem respondi a mensagens. Agradeci ter pessoas preocupadas e a mostrarem todo o seu carinho e apoio. A seu tempo expliquei-lhes, desculpando-me, que precisava do meu tempo de sossego e solidão para carpir a dor, quando ao mesmo tempo a vida exigia demasiado de mim.

O tempo não cura. Acalma. Cicatriza.

Regressei ao trabalho e isso permitiu-me sentir de volta a vida como a conhecia, na sua normalidade que nos faz sentir numa zona de conforto. Voltei a sentir apetite e vontade de comer, voltei a ler, voltei a estar com as outras pessoas. Voltei à minha vida. Diferente. Eu e a vida.

Estou a voltar. Porque a vida continua e eu tenho de continuar. Por mim. Pela memória dos que partiram. Pelos que estão ao meu lado e foram excecionais neste momento tão difícil e doloroso da minha vida.

Estou a voltar. Aos poucos...

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