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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

30
Jun21

O peso de uma herança

Tenho andado com tanta vontade de escrever. Por mim, para mim, para pôr para fora este turbilhão de emoções que por aqui anda.

E não é que a vontade passe. É o tempo que se escapa entre os ponteiros, numa correria, é o cansaço físico e, acima de tudo, emocional que me retrai e afasta deste espaço de encontro comigo.

Páro. Respiro fundo. Encontro um momento para me dar uma folga. Como que para ganhar fôlego para nova investida. Tem de ser. E é por este "tem de ser" que me movo e me deixo, em determinados momentos, levar pela ansiedade e angústia. Sinto-me a carregar um pesado mundo às costas.

Com a morte do meu pai, sendo eu filha única de pais divorciados, vejo-me neste papel de única herdeira. Com tudo o que acarreta de bom e menos. bom. Acho que de positivo é a questão de não ter de andar "à batatada" com ninguém, com stresses e discussões que nunca levam a lado nenhum, a não ser a um desgaste emocional e da própria relação familiar, que pode já não ser muito equilibrada ou harmoniosa. O resto é estar sozinha com o peso de uma herança em cima e tudo o que isso implica, desde impostos, encargos, responsabilidades e tomada de decisões que não, não são nada fáceis.

Os meses vão passando, algumas decisões foram sendo tomadas, as conversações com o meu tio (irmão do meu pai) para concluir o processo de partilhas do lado do meu avô até corriam bem, havia espaço para diálogo e entendimento, só que houve um reverso provocado por outra pessoa, próxima do meu tio. Nos entretantos, o meu pai já tinha herdado a casa dos pais (meus avós), que agora passou diretamente para mim. E eis-me na ingrata tarefa de esvaziar a casa, ter de dar novo destino a mais de 60 anos de histórias de vida desta família. E ontem, ao encaixotar fotografias, cartas e postais, diplomas e outros itens de natureza pessoal, que são marcos na história de vida destas pessoas, senti que estava a fazer um segundo funeral, a enterrar o que resta da passagem delas por este mundo que conhecemos. E doeu. Abriu aquela ferida da perda, de quem tem vivido um luto a par do trabalho terapêutico de aceitação, reconciliação e perdão com a história de vida desta família.

Sinto-me esgotada. Emocionalmente esgotada. E a sentir este dever de ter de me manter firme porque há decisões a tomar, há assuntos a tratar, uma série de coisas a resolver. E ninguém me disse que esvaziar uma casa era tão difícil. Que tudo o que as pessoas acumulam ao longo de anos e gerações numa casa é absolutamente assustador na hora em que é necessário dar novo destino, porque a vida segue e para a frente é o caminho.

E não é a questão do desapego que me trava. Não sou materialista, não me apego a objetos e coisas como se fossem o elo de ligação com as pessoas. Para mim guardarei as fotos, cartas e postais, diplomas e a condecoração que em tempos o meu avô recebeu do Presidente da República. Não me interessam serviços de louça que ainda têm o preço agarrado. Nunca foram usados, portanto não posso olhar para os pratos e lembrar-me de um jantar de natal qualquer passado naquela casa. Não moro numa mansão (nem tenciono sequer mudar de casa por agora) para guardar mobílias e outras coisas, não sou (mais agora que tenho esta tarefa hercúlea) de ter mais do que aquilo que preciso e uso e, ainda assim, acho que já tenho os meus armários cheios, para ainda estar a levar para minha casa louça ou o que calha só porque sim.

Em abril comecei a contactar antiquários, casas de oportunidades e 2ª mão, interessados por velharias. Fotografei o espólio e divulguei fotografias. E até para dar a instituições de solidariedade, são mais os problemas e dificuldades que levantam, que as soluções que apresentam.

O desânimo tem sido uma constante. E esta terrível sensação de estar perdida, desorientada e sem saber para que lado me virar.

Posso fugir? Posso ir para uma ilha deserta e ficar lá até que tudo isto se resolva num passe de magia? Posso simplesmente virar costas e assobiar para o lado como se não fosse nada comigo?

Por aqui vivem-se dias difíceis. Num turbilhão de emoções. Demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo e que estão a exigir muito de mim e a sugar a minha energia.Vou tendo as minhas bolhas de oxigénio para respirar fundo e ir aguentando. Por ora, terá de ser o suficiente. E a esperança que em breve possa ficar mais aliviada.

 

02
Jun21

10 meses de tanto

Há exatamente 10 meses despedia-me do meu pai. Ainda vivo. Ou melhor, em coma induzido, ligado ao ventilador, com vários órgãos em falência e uma questão de horas até dar o último e derradeiro suspiro. Vi-o num fio ténue de vida, mais ali num limbo entre os dois mundos. 

Finalmente, na presença de uma das médicas que o acompanhou nos seus últimos dias, pude fazer as várias questões dos "ses". Se ele tivesse procurado um médico mais cedo, se tivesse sido detetado mais cedo, se tivesse havido chances de tratamentos... os "ses" que a razão queria ver respondidos para acalmar o coração. Não sei, nunca saberei, se a médica em apreço foi sincera ou deu ali uns pozinhos de piedade, estou mais tentada a acreditar que foi mesmo sincera, sem pruridos ou pozinhos. Nunca teve hipótese. O tumor era agressivo, desenvolveu-se de forma intensa e galopante, numa zona demasiado crítica. Ainda que aos primeiros sinais ele tivesse ido ao médico e tivesse sido detetado, o desfecho seria o mesmo, tendo pelo meio tratamentos extremamente agressivos que trariam imenso sofrimento e significativa perda de qualidade de vida. 

Agarrei-me ao "foi como teve de ser, foi como ele escolheu e decidiu, foi como foi e nada pode mudar". 

Não é porque faleceu que agora vai ser considerado o pai do ano. Não o foi. Estávamos, sim, numa fase de reaproximação e eu toda contente pela oportunidade de deixar um passado de mágoa e afastamento para trás, e poder ter novamente o meu pai na minha vida. Durou pouco. Muito pouco. E doeu muito esta partida brusca, quase sem pré aviso, num dia deixo-o nas urgências do hospital, na semana seguinte vou busca-lo dentro de um caixão. Num dia estava a recuperar o tempo perdido de uma orfandade paterna forçada e no outro estava efetivamente órfã de pai e a ter de assumir e tomar decisões que não contava, de todo, ter entre mãos.

O processo de luto vai além da perda de um ente querido. Há todo um luto de uma vida cheia de mágoas e abandonos. Esse tem sido o mais doloroso. A morte é irreversível. A forma como se viveu a vida (e as relações) é que deixa muitas questões com as quais se tem de lidar.

Aceitar. Perdoar. Libertar. Honrar. Agradecer...

Aceitar que tudo foi como tinha de ser.

Perdoar porque, como pessoas comuns e com as suas próprias dores, deram apenas o que tinham para dar, e foi suficiente.

Libertar o que não me pertence, o que não é meu. 

Honrar os meus antepassados, pois sem eles eu não estaria aqui.

Agradecer. Sou o que sou hoje por tudo o que vivi.

A dor permanece. O vazio que ficou. E se acentuou.

Aprendo a lidar com essas emoções. A viver os dias de forma mais leve. A encontrar os meus rituais de autocuidado, que me ajudam no equilíbrio emocional. Um dia de cada vez. Aqui e agora. E a mudança tem acontecido. Dentro de mim. Para fora de mim. 

10 meses. De tanto. 

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