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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

19
Fev24

A constante inconstância

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Fotos tiradas neste sábado e domingo. Fotos tiradas praticamente do mesmo ponto, com cerca de 24 horas de diferença. E o sol radioso de sábado ficou escondido entre as nuvens de domingo. Quase parece que também o sol tirou o domingo para aquela ronha entre mantas no sofá.

A inconstância é uma das constantes da vida. Não há dias iguais, mesmo que nos pareçam a mesmice de sempre, quando estamos demasiado embrenhados numa rotina em piloto automático. A vida flui. Simplesmente assim. O sol nasce, brilha com maior ou menor intensidade, põe-se, as marés mudam, a noite vem com a lua numa das suas fases, e tudo parece igual. E é sempre diferente. Já vi árvores a florir, anúncios da primavera a chegar, a natureza que se prepara para uma nova estação, que apesar de repetida, é diferente e única. Porque mesmo aquilo que parece repetir-se, não é uma repetição do que foi, é uma renovação, um (re)começo. Um novo nascer. 

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Penso na dor que ainda me vai consumindo. Penso no sentido que faz (digo já que é nenhum) eu permitir que a dor do passado venha até aos dias de hoje, depois de tantas marés e fases de lua. Como posso fazer isto a mim própria, este desvalorizar, este sentir-me menos, esta comparação que me tolhe e derruba, me atira para um pântano enquanto coloco num pedestral divino a outra mulher que vejo como melhor, incomparavelmente melhor que eu. 

Então respiro. E deixo de pressionar a ferida. Olho com amor e cuido de mim. A falta de empatia ou sororidade não é responsabilidade minha. A dor não coube só a mim, mas também a ela. E a sua dor é a sua dor, ela que cuide, que trate, que olhe, que retire as aprendizagens que tiver a reter. Ou não e que repita tudo outra vez. Eu junto os meus cacos, cuido das minhas feridas, deixo sangrar ou tento controlar os danos. Das lágrimas que já derramei, faz-se passado. Agora quero sorrisos. Mereço sorrisos. Os meus, os dos outros, os da Vida. 

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16
Fev24

É barriga, senhor, é barriga

Ontem, na pausa do café de manhã, um colega de trabalho pergunta-me, de forma genuinamente simpática e interessada:

- Então, está tudo a correr bem? 

Aquela expressão, com as sobrancelhas erguidas, de quem não está de todo a perceber a pergunta.

- Se está tudo bem com a barriguinha?

- Oi? - som de grilos na minha cabeça.

- Com a gravidez! - exclama ele como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Quem eu? Eu não estou grávida.

- Então mas... ai... então foi o teu nome, disseram-me que eras tu que estavas de bebé. 

...

...

...

Não é a primeira vez que passo por situações deste género. E ainda assim, continuo a ser surpreendida. E há ali um momento em que me sinto uma merda, uma gorda que parece grávida, mas não, é "só" gordura. Ou gases. Ou intestinos inflamados. Ou inchaço de período menstrual. Ou outra merda qualquer, não interessa. 

É este o ponto, não é? É a constante observação e julgamento sobre o corpo da mulher. Emagreceu, 'tá doente, ou parece mais velha, ficou feia. Engordou, 'tá grávida, ou "era tão jeitosinha", ou discorrem teorias da trampa sobre o peso a mais, sempre com o olhar de julgamento e condenação. 

E se estivesse grávida? Se ainda não assumi publicamente, o que é que interessa? Querem fazer o enxoval, é? Ou organizar o baby shower? Ou oferecer um ano de creche? 

E se, na verdade, estiver há mais de dois anos a tentar engravidar e nada, o que parece que essa pergunta me faz sentir?

Deixem-me em paz. Porque agora sou eu que tenho de cuidar dos cacos do meu vasinho da autoestima. 

 

Mais tarde, a remoer este episódio, recorro à minha costela de humor negro para lidar com o estrago emocional. Relativizar. E anotei mentalmente mais uma possível resposta a dar quando me vir confrontada com tal questão: Oh, a sério? Tou grávida e não me avisaram? Será que o email foi para o SPAM?

 

 

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