Seria de esperar que morando na praia, eu já estivesse com um bonze de fazer inveja. Não estou.
Seria de esperar que já tivesse feito muitas incursões à praia (entenda-se munida da parafernália necessária para estar estendida na areia, em modo "frango de churrasco"). Não fiz.
Aproveito muitas coisas que advêm do facto de morar numa praia. Estender-me na areia, de biquíni, é uma das que fica no fim da lista.
Há pessoas que se surpreendem. Ou acham que eu na verdade não aproveito este morar na praia, como se isso significasse ter o tempo todo a toalha estendida no areal e o corpinho ao sol.
O verão tem sido generoso, com boas temperaturas e poucas nortadas, sim. E durante a semana trabalho, a 17 km da praia onde moro. E aos fins de semana tenho, muitas vezes, outros compromissos e afazeres. E aproveito a esplanada, o passadiço, o comércio local, o mercado do peixe, os restaurantes. Aproveito o meu terraço em fins de dia bons, a fazer uma petiscada com o marido, a brincar com os gatos quando vão esticar-se ao sol, a beber uma água com gás, a ler.
Ontem fui finalmente de saco de praia preparado para me estender na areia. Saí da zona de conforto porque fui sozinha. Ultrapassei um bocadinho a resistência de vestir simplesmente o biquíni e ir, cagando na barriga pochete ou nos kilos a mais (eu sei, medo do julgamento alheio, quando eu sou a primeira a julgar-me com os filtros do que consideram padrão de beleza, para chegar à conclusão que: não sou assim tão importante, que fique tudo a olhar para mim quando passo e a julgar-me pelo corpo). Sobrevivi. E o que me soube melhor? Ter lido muito (um livro de fio a pavio e mais de metade de outro), ter estado só deitada, a ouvir o som do mar, de olhos fechados, a isolar todos os outros ruídos para focar só no som das ondas. Som esse que todas as noites ouça da minha varanda... enquanto inspiro devagarinho o cheiro da maresia. E quando me apeteceu, voltei a casa e continuei a sessão de leitura no terraço. Ah, isto sim, são os privilégios de morar na praia. Porque ir à praia de saco às costas qualquer um vai. Ter a praia ao pé de casa, quase como se fosse o quintal, ouvir todas as noites o mar, sentir todos os dias o cheiro a maresia, sim, também levar com a humidade própria de quem mora junto ao mar, faz parte, estar a 5/10 minutos (se tanto) de casa num raio de cerca de 4 km (perímetro da localidade onde moro, com mar de um lado e Ria do outro), ter peixe fresco todos os dias no mercado, entre outras coisas. Tudo isto vale-me muito mais do que o estender-me na toalha, ora vira para cima, ora vira para baixo.
Deixarei para outro dia a partilha destas leituras, até porque uma ainda se encontra em curso. Há algum tempo que um livro não me agarrava assim tão envolvida e sôfrega, para ler mais de metade de uma assentada.
Tenho andado ausente da escrita aqui. Sublinho o aqui (blog).
Recentemente comecei a utilizar um dos cadernos "bonitinhos" que estava lá enfiado numa gaveta, e tem sido muito bom esse discorrer da caneta pelo papel. Autoterapia pura e dura, sem filtros. Sem medos de julgamento ou de opinião alheia não solicitada.
Vejamos, quando nos expomos temos de ter noção que não controlamos as reações, os julgamentos ou opiniões dos outros. Nem mesmo a sua indiferença. Ou a interpretação que fazem do que publicamos. É dos outros. Ponto.
Agora, o meu caderno é apenas meu e para mim. A liberdade de expressão tem outra dimensão.
Não é sobre o meu caderno o que me traz aqui. Na verdade é só e apenas a minha vontade de escrever aqui qualquer coisa, nem que seja uma espécie de sinopse das últimas semanas.
Então já comecei pelo ter voltado à escrita terapêutica. Agora chamam-lhe journaling, no meu tempo de adolescente era diário.
Este mês também me dediquei mais à leitura. Um livro já foi, iniciei outro.
Li A Qualquer Momento de Liane Moriarty e fiquei, uma vez mais, rendida à escrita e construção narrativa da autora. A história é cativante, um desassossego que nos faz virar página atrás de página e sentir as dúvidas e ansiedade que as personagens sentem. Histórias e personagens tão comuns que facilmente reconhecemos características e situações nas nossas vidas ou nas vidas de pessoas que nos rodeiam. E creio que é por isso que Liane Moriarty consegue com que os leitores se identifiquem e se aproximem tanto das suas personagens e enredos. Podia ser qualquer um de nós ali descrito nas páginas dos seus livros. Este, em particular, deixou sementes para reflexão. Leitura que recomendo.
Entretanto, e como ouvi o episódio do Podcast Vale a Pena, da Mariana Alvim, no qual esta escritora foi convidada, comecei o Pequena Coreografia do Adeus, de Aline Bei. Prosa poética e uma sinopse que me leva para os temas que exploro e disseco em terapia.
Ando meia desligada da TV. Ou a TV é que passa muito tempo desligada. As séries que gosto de acompanhar estão em transição de temporada, pelo que agora na silly season os canais de séries ficam desprovidos de interesse. Contudo, há uma série que me mantém cativa, à espera do dia de exibição dos seus dois episódios. Cobra Kai, no AXN. Sou fã do universo Karate Kid, como já aqui escrevi, portanto, estou completamente viciada na série e a adorar. A série está disponível na Netflix, não subscrevo. Tenho o Prime. Então vou fazendo "à moda antiga", esperar que os episódios passem em canal "aberto". Podia dedicar todo um só post, digno de dissertação sobre a série? Podia. Eventualmente poderei fazê-lo no futuro, quando estiver mais avançada nas temporadas. Por ora, deixo só a nota que, para quem é fã do Karate Kid original, a série está genial, absolutamente espetacular. Recomendo este artigo, que descreve muito bem a essência da série.
De resto, a vida vai acontecendo. Assim, conjugada no gerúndio, no vai-se andando, vai-se indo, vai-se vivendo. E não está errado de todo. A vida vai-se vivendo. Dia a dia, momento a momento. Conjuga-se no gerúndio, tempo da ação contínua. E que bom é poder conjugar a vida no gerúndio: é sinal que a temos em movimento.
Ontem a aula de pilates foi na praia: pé descalço na areia, alongamentos, respirações, alguns agachamentos. No fim, ir à água molhar os pés e contemplar o pôr do sol. Simplesmente extraordinário.
No fim de semana emocionei-me com o que fui vendo nas redes sociais sobre as homenagens aos irmãos, Diogo Jota e André Silva. A tragédia que levou cedo demais estas vidas, a tragédia que entra sem pedir licença na casa das suas famílias, arrasando tudo num ápice.
Vou remeter-me a um respeitoso silêncio, pois estas perdas tão abruptas são extremamente dolorosas e devastadoras, para estar a debitar frases feitas e clichés que soam demasiado ocos diante de um imensurável vazio.
Quase tanto quanto me emocionei, também senti vergonha alheia: as palmas das pessoas conforme iam chegando as "celebridades". Ali, naquele momento de profunda dor, não havia lugar a celebridades. Eram amigos e companheiros, que queriam chorar e despedir-se em sossego, em recolhimento. E como se não fosse suficiente, os pseudo-jornalistas em modo abutre: as imagens dos pais, da viúva, de quem chega, as perguntas totalmente descabidas e sem sentido ali, naquele momento.
E depois rebenta a polémica sobre a não presença do Cristiano Ronaldo, porque como Capitão da Seleção era obrigação... e não será obrigação de todos ter o mínimo de respeito por quem chora? Já nem digo empatia, pois isso parece estar fora do alcance da inteligência emocional da maioria. Aliás, viu-se com a corrida ao cemitério para tirar selfies nas campas... a humanidade em completo degredo e podridão de valores morais. Respeito, sabem o que significa? É o mínimo.
E depois deixei de ver. Desliguei das redes. Porque o ver é também alimentar este circo de abutres que se alimentam do sofrimento alheio.
Por estes dias podia ter vindo aqui, a esta caixa de texto em branco, despejar palavras. Teria muito a despejar. A questão é que a sessão de mentoria da semana passada deixou-me naquele estado de quem levou terapia de choque e precisou de silêncio e recolhimento para processar.
Ir cada vez mais a fundo nos traumas recalcados há anos é uma viagem solitária, ainda que esteja a ser devidamente orientada. E sim, é denso, é pesado. Enfrento os bloqueios que toda a vida me serviram de defesa, proteção, sobrevivência.
Não me curvo perante a dor. Sei que o caminho é enfrentar e seguir em frente. E tem o seu preço. E demora o seu tempo. Exige resiliência, consistência e coragem.