Um campo de flores que se abrem em múltiplas cores, polvilhando a terra de vários tons.
Folhas dançando ao vento, como notas de uma sinfonia celestial.
Florestas onde cada árvore carrega a sua própria história.
O mar, com a sua força selvagem e indomável, trazendo força e calmaria ao mesmo tempo.
A chuva que cai, molhando a terra e renovando a vida que dela brota.
A lua cheia iluminando o céu à noite.
Tempestades que rasgam o céu, relâmpagos que cortam a escuridão.
Estrelas surgindo no céu infinito, lembrando-nos da vastidão e da magia que nos cerca.
Cada instante na natureza guarda o seu próprio milagre. Cada movimento, cada brilho, cada som é uma lembrança de que o mundo está vivo e pulsando. Basta abrir os olhos e sentir.
E cada um de nós faz parte deste mundo. Cada um de nós é, também, um milagre de vida. E será que conseguimos ou sabemos sentir esse milagre dentro de nós?
Em cada respiração. Em cada batimento cardíaco. Em cada olhar e movimento. Em cada sentir.
Sabemos apreciar este milagre de estarmos vivos?
Fechar os olhos e sentir a vida a pulsar no corpo. Sentir o ar entrar e sair, como uma maré silenciosa que nos sustenta sem pedir nada em troca. Sentir o coração bater, firme, discreto, lembrando-nos de que há um ritmo interior que nos mantém aqui, presentes, vivos, mesmo nos dias em que nos esquecemos de nós, de como respirar. Ou nos dias em que nem damos pelo nosso próprio coração a bater, bombeando o sangue que nos corre pelas veias.
É fácil admirar o milagre que acontece fora de nós - o mar, a lua, as árvores, o céu que se rasga e abre em cores. Difícil é reconhecer que a mesma beleza que vemos lá fora também habita dentro de nós. Que somos feitos do mesmo movimento, da mesma energia que faz uma flor desabrochar, uma estrela brilhar, um rio seguir. Quão desligados estamos para nos esquecermos de que também somos um milagre da vida?
A verdade é que, muitas vezes, demasiadas vezes, vivemos tão ocupados, tão sobrecarregados, tão acelerados, que deixamos de notar. Deixamos de perceber. Deixamos de SENTIR. E o milagre que somos fica à espera de que lhe prestemos atenção. Fica à espera de ser visto. Reconhecido. Valorizado.
Acredito que a natureza nos ensina - e nos lembra - todos os dias a importância de abrandar, de observar. De sentir.
Sentir que somos parte do todo.
Sentir que viver é um milagre extraordinário.
A vida, na beleza das coisas simples, é um espanto constante.
E ao reconhecermos os milagres do mundo, abrimos espaço para reconhecer também o nosso próprio milagre.
Talvez o maior milagre seja este: a capacidade de reconhecer a vida enquanto ela acontece. Perceber que o propósito de vida não é um destino a alcançar, é o percurso em si mesmo.
E que, mesmo no caos, no automatismo, no cansaço, temos sempre a possibilidade de voltar a nós. De regressar ao corpo. De respirar fundo e reencontrar o fio que nos liga ao que é simples, belo e essencial.
É isso que a vida nos pede: menos pressa, mais presença.
Porque, quando abrandamos, percebemos que o simples não é pequeno — é onde tudo começa. É onde a vida sussurra. É onde o milagre acontece.
E, no simples, encontramos sempre o caminho de volta a nós.
Olho para a minha meta de leituras definida para 2025 e sinto-me em falta. Dos 20 livros que me propus ler este ano, ainda só li 13, iniciei este fim de semana o 14º.
Houve fases de inconstância. Ora li um livro num só dia, ora estive dois meses sem ler.
A inconstância ou impermanência faz parte da natureza da vida. Até as estações do ano andam inconstantes, ora temos um fim de semana de sol seguido de uma semana de temporal bravio. Ora temos um dia com temperatura amena e seguem-se dias com um frio digno do ártico.
Uns dias sentimo-nos calmas e serenas, outros num rebuliço emocional. E cansaço. Muito cansaço.
E olhando para a pilha de livros por ler (porque o cansaço não impede acrescentar novos à fila de espera), percebo que o problema nunca é a falta de vontade. É o fluxo natural da vida a empurrar-me, ora para dentro ora para fora de mim, tal como as marés. Se há dias que a leitura me abraça e acolhe, outros há que a cabeça mal consegue agarrar-se a uma única frase.
Chega o momento em que me forço a lembrar que metas não são algemas. São guias. São faróis. São rotas com inúmeras possibilidades de reajuste. Às vezes, mesmo com um farol aceso, navegamos devagar... ou mudamos de direção. E está tudo bem.
Ler não é um peso. É um refúgio. É descoberta. É navegar por outras estórias. E há que ter disponibilidade para sentir e desfrutar dessa viagem.
Provavelmente, este ano não chego aos 20 livros. E, ao libertar o peso de quem falha uma meta, o que realmente importa é continuar a alimentar esta parte de mim que encontra consolo, inspiração e mundo dentro das páginas.
No fim, a leitura - tal como a vida - não se mede pela quantidade, e sim pela profundidade do que nos toca e preenche.
Mergulhar no trauma é rasgar camadas. Tantas quantas foram sendo criadas para proteção, capa, armadura. Sobrevivência.
Mergulhar no trauma é permitirmo-nos ir a um espaço onde o tempo é uno, sem passado, presente ou futuro.
Mergulhar no trauma é calar a mente e deixar o corpo guiar-nos. Sentir tudo o que vier. Deixar vir. E só observar, sem julgar, sem contrariar. Sem fugir ou esconder.
O corpo agita-se. Treme. Arrepia. Contrai. A respiração pesa, encurta. As lágrimas soltam-se. A garganta aperta.
Respirar fundo. Devagar. Expirar, como quem se esvazia. É a respiração consciente que nos mantém ligados. E seguros.
Quanto mais profundo nos deixamos ir, maior é a sensação extracorpórea. Como se pairássemos entre dimensões. E o tempo se dissolvesse.
Sentimos o corpo expandir-se e encolher-se ao mesmo tempo.
Tudo é apenas sensação. Apenas presença.
Inspira profundo. Expira e solta.
E então, numa brecha, surge o espaço entre os acontecimentos e a nossa respiração.
O trauma deixa de ser só dor. Torna-se mapa. Mapa de quem fomos, de quem somos, de quem podemos ser.
O corpo aprende a dialogar consigo próprio, sem pressa, sem resistência.
Mergulhar no trauma não é afogar-se. É aprender a flutuar dentro de nós mesmos. É reconhecer as camadas que nos protegeram, agradecer-lhes, e suavemente deixá-las ir.
No fim, quando voltamos à superfície, há calma. Há um silêncio nutrido pela consciência. Permanecemos no espaço silencioso entre respiração e presença. Mesmo que ainda reverbere um arrepio que percorre o corpo, e lágrimas ainda caiam. O trauma torna-se parte do nosso mapa interior.
As camadas rasgadas descansam. O corpo aprende a dançar com a própria memória. E no fio ténue entre dor e consciência, descobrimos que podemos sentir-nos inteiros, vivos e presentes.
Está sol, céu livre de nuvens carregadas. Porém vento frio.
Pouco depois chove. Vejo um arco-íris no percurso para o trabalho.
Sol, vento, de repente nuvens, chove, abre sol novamente.
De facto, os dias têm andado esquizofrénicos. Na semana passada apanhei chuva, no fim de semana mergulhei os pés no mar.
Um dia é inverno tempestuoso. No outro um sereno verão.
O tempo muda de dia para dia. E dias há em que passamos pelas estações todas num par de horas.
E estas oscilações andam sincronizadas com o meu humor.
Quase como o mistério de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, atrevo-me a indagar sobre o que afeta o quê? É o estado do tempo que afeta o meu humor? Ou será antes que o estado de espírito faz o clima?
Como manter o equilíbrio quando tudo parece tão incerto?
O desafio logo pela manhã é o dilema: o que vou vestir? Nada muito quente - não está assim tanto frio. Nada muito leve - olha o fresquinho e o nariz que já funga.
Visto roupa. Resposta sempre certeira do marido quando lhe pergunto: "o que visto?". Roupa.
Olho no espelho, uns dias mais confiante na escolha da indumentária. Outros nem tanto. Oscilo, como as nuvens.
Pequeno almoço. Café. Silêncio enquanto sinto o corpo a fazer download da alma.
Antes de sair olho para os gatos. Enroscados no sofá, entre mantas. Sacanas com sorte.
Percurso de carro em silêncio. Download ainda em curso. Permito-me o momento de quietude, exterior e interior, antes de picar ponto e entrar no modo funcional. Abasteço-me no silêncio. Desfruto da paisagem, com a devida atenção ao trânsito.
E aos cromos da estrada, que se julgam pilotos de F1 em pleno temporal, desejo-lhes boa viagem. (Com vontade de lhes mostrar o dedo do meio).
Durante o dia de trabalho, umas pitadas de humor. Daquele que alivia.
Rir ainda é a forma mais eficaz de sermos humanos. Perceber que, modo geral, andamos todos meio nublados, meio ensolarados, a tentar encontrar equilíbrio na incerteza do clima. Interno e externo. O riso une, permite dar espaço à loucura dos dias. O riso extravasa. Purga.
Depois de umas gargalhadas, ficamos mais leves. E voltamos a focar nas tarefas com um pouco mais de ânimo. E quiçá, na esperança de outro momento de leveza, entre piadas e risos, desses que unem.
Entre nuvens e brechas de sol, aprendo a navegar a maré. E, tão importante é seguir, como parar. Um pouco. Para ganhar fôlego. Para rir. De si. Dos outros. Dos insólitos destes dias esquizofrénicos.
E no final, talvez seja este o segredo: manter o humor como guarda-chuva, o coração em modo solar e confiar que o céu, com ou sem nuvens, aberto ou carregado, luminoso ou mergulhado em escuridão, será sempre o símbolo da vida - impermanente, bela e em constante transformação.
Já pululam nas redes sociais, qual milho a estalar em pipoca, fotos das árvores de natal.
Nada de novo eu estar com espírito - e vontade - zero de me meter nessa empreitada. Regateei comigo a tradição de desencaixotar o espírito natalício em forma de bolas e restante parafernália, apenas a 1 de dezembro. E vai a tempo, sem me cansar muito.
Portanto, todos os anos busco dentro de mim esse espírito natalício que me costuma faltar na chegada de dezembro. Não antes.
Contudo algo mudou e eu, em novembro, já pensei no assunto e ando aqui consumida. O que mudou e promete vir a ser uma verdadeira (e emocionante) aventura natalícia doméstica?
Mudou o agregado familiar.
Este ano tenho um Apolo, um gato jovem, traquina, brincalhão, e já me imagino a montar as decorações natalícias, árvore incluída, e andar todos os dias a refazer a mesma. Provavelmente várias vezes ao dia. Ou isso ou optar por um estilo "desmontado" de decoração natalícia, em parceria com D. Apolo. Eu monto, ele desmonta.
Não sei se me apetece preparar todo um parque de diversões temático alusivo ao Natal, para sua eminência se divertir, enquanto eu me arrepio dos nervos e ando de rabo para o ar a catar bolas, bonecos e pinheirinhos. Sem falar em fios roídos e um gato em risco de ser eletrificado - e ficar a piscar.
Temo que este ano, entre bolas roubadas e galhos partidos, entre fios roídos e bonecos espalhados, entre o caos e as gargalhadas (que acabam sempre por vir depois do camadão de nervos), o desafio será, mais que um teste à paciência, um teste à resistência das decorações.
Sei que, invariavelmente, mesmo com o espírito natalício nos mínimos e a minha costela de Scruge, que acorda com fantasmas de natais passados, acabarei por cumprir a minha tradição de natal.
O (im)previsível será chegar a janeiro com a árvore inteira, bolas em parte incerta, e provavelmente na hora de encaixotar o natal, haverá redução de stock de peças alusivas à época.
Em compensação, em janeiro terei o Rei Mago Apolo, com glitter no pelo, ouro nos bigodes... e a paciência da dona mirrada.
Sentir-me insuficiente. Sentir-me não merecedora. Sentir-me inadequada. Sentir que não tenho lugar ou espaço. Para ser vista. Para ser ouvida. Para ser acolhida. Ferida da rejeição. Ferida do abandono.
Fui a criança que se sentiu abandonada, sozinha, sem colo, sem proteção. A criança que cedo desenvolveu os seus mecanismos de sobrevivência. Passar despercebida. Não se mostrar. Não chamar a atenção. Não dar trabalho. Não falar. Não chorar. Não rir. Em permanente estado de alerta. Em vigília. Atenta aos mais ínfimos detalhes... o tom de voz, o bater da porta, o som dos passos, as micro expressões. A criança que esperava a pancada, não o afeto ou carinho. A criança que acreditou que se fosse perfeita, então seria aceite. Amada.
E a inadequação aumentava em igual proporção ao sentimento de insuficiência.
Aprendi a calar-me para evitar críticas. Aprendi a "andar em bicos de pés" para não provocar explosões de raiva. Cheguei a acreditar que era uma maldição estar viva e só a morte seria a minha libertação.
Hoje sou a mulher que quer viver. VIVER. Sou a mulher que descobriu que tem muita alegria e fogo dentro de si. A mulher que percebeu o peso da armadura que carregou durante anos para se proteger. A mulher que toma consciência do seu desejo profundo de ser vista depois de ter crescido e vivido encolhida, quase invisível, com medo de ser vista, como se disso dependesse a sua sobrevivência. Hoje, sou a mulher que descobre a sua luz e apazigua as sombras que foram a sua "casa" e proteção.
Tem tanto de doloroso como de libertador. O corpo ganha nova amplitude para se mover. Mais livre. Mais leve. E, mesmo quando se encolhe e volta à sua zona segura, sinto agora uma confiança e força, antes insconscientes, para expandir novamente. No corpo. E não só.
E neste movimento vou fluindo e ajustando-me a esta nova pele - sem armaduras nem couraças -, transmutando as minhas vulnerabilidades em força vital. Rasgo as várias camadas de crenças, de traumas, e vou largando o tanto que carreguei e nunca foi meu.
Assim, renasço.
Em cada dia, novas oportunidades, velhos desafios. Em cada dia, nós que desato para me libertar da carga emocional que me pesa e bloqueia.
Em cada dia, curando as minhas sombras com o amor que emana da minha própria luz.
Hoje compreendo que a liberdade não está em deixar de sentir medo, mas em permitir-me ser, mesmo com ele. Ser inteira, imperfeita, viva. E, nesse movimento, continuar a renascer — uma e outra vez — em direção à mulher que, finalmente, se autoriza a existir.
A cura não é um ponto de chegada, é um caminho que se percorre com amor e consciência. Cada passo, mesmo os mais lentos, é um retorno a mim mesma. Entre o medo e a liberdade de ser, aprendo que a vida acontece no espaço que crio dentro de mim para acolher-me, exatamente como sou.