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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

03
Jan17

Os sonhos têm limites

Sim, é verdade. Os sonhos também têm limites, ou pelo menos para pessoas como eu, e o Gandhe, nós que até somos muito diferentes em muitas coisas e tão iguais em algumas outras, que gostamos de ter os pés no chão e a cabeça no lugar. 

A viver uma estabilidade profissional que até então não tivéramos, da minha parte, Gandhe fechou o ano com o lançar um sonho antigo dele para o plano do projeto num futuro não muito longínquo. E se comprássemos uma casa?

Aquilo deixou-me a matutar. Eu que até estou tão bem no meu T2, que não sonho com uma grande moradia, que pode ter muito espaço e tal, mas também mais trabalho e despesa, mas porque não? Não precisa ser uma casa enorme, se fosse térrea era perfeita, com um pequeno quintal para desfrutar de uma churrasqueira e espaço exterior, com privacidade, com mais espaço, mais arrumação, quiçá uma divisão toda dedicada aos gatos... porque não? Começamos a investigar as ofertas imobiliárias na zona, dentro dos nossos valores realistas, dentro das características desejadas por ambos. E encontrámos algumas boas opções. Passo seguinte, informarmo-nos sobre as atuais condições de crédito à habitação, até porque em quase nove anos, desde que fizémos o nosso para o apartamento, que muita coisa mudou. E aqui foi o balde de água fria, previsível, mas não deixou de ser balde de água fria. Financiamentos até 80%, num máximo de 30 anos, obriga a ter 20% do valor de compra do imóvel disponível para entrada, acrescentando o valor da escritura. Ora, não somos ricos, não temos ajudas parentais a nível económico (nem a outro nível qualquer, mas isso agora não interessa nada), teríamos de vender o apartamento de forma a cobrir a hipoteca atual, e dado o valor de mercado, não ficaríamos com muito dinheiro na mão para novo investimento, com as condições muito limitadas do crédito à habitação, lá se foi o sonho, quase projeto para 2017, da compra da casa. E até já a tínhamos encontrado. Perfeita para nós, reunia o que gostamos e pretendíamos numa casa.

Se estamos descontentes com o nosso apartamento? Nada. Seria perfeito e não nos faria equacionar mudar se tivesse mais um quarto. Um T2 dá para nós enquanto casal, para os quatro gatos. Temos o privilégio de morar numa zona sossegada, de estar perto de tudo o que precisamos, incluindo empregos, de termos divisões com excelentes áreas e um terraço enorme com vista para um jardim. Na eventualidade de um filho, sim, há quarto para ele. Mas há sempre aquele "ah, um terceiro quarto dava jeito". Mais arrumação também, embora eu tenha a teoria que quanto mais despensas, arrumos, arrecadações uma pessoa tiver, mais tralha acumula, coisas que não se usa, não se precisa, e ali estão, a ocupar espaço e a fazer ruído visual. 

Não nego que ficou aqui um certo sabor agridoce. Não estamos nada mal, não senhor, mas podíamos ir para "melhor". Só que não se pode ter tudo o que se quer, portanto, 2017 será ano de investir no T2, reorganização de espaços e novas mobílias, já que numa nova casa nos parece missão impossível, pelo menos para nós, pessoas com os pés assentes na terra, conscientes dos riscos e das limitações. 

Há sonhos que têm limites. Um dos nossos tem limites bancários. Paciência. 

 

18
Nov16

Pandora, mãos de gelo

Sofro do síndroma (se é que isso existe) de mãos geladas. Sempre. 

Eu não as sinto frias. Faço tudo e mais alguma coisa sem incómodo de sentir as mãos frias. Mas efetivamente, quem as sente, arregala os olhos. 

Pandora marota, gosta de pregar partidas ao Gandhe. Vai por trás, enfia as mãos nas costas, no pescoço... o desgraçado torce-se todo.

Pandora para se redimir das traquinices, ontem pôs uma luvas para lhe ir fazer festinhas na barriga. 

 

29
Ago16

Pandora a espalhar pelintrice

Normalmente é o Gandhe, moço desde sempre dado ao desporto (o oposto de mim, portanto) a arrastar-me até à Decathlon. Nesses momentos eu sinto na pele o que os homens, com caras de suicídio psicológico, sentem à porta da Zara em época de saldos. 

Mas recentemente fui eu que o arrastei lá. E ele, todo contente, lá foi à secção de desporto masculina ver o que restava de saldos que pudesse aproveitar. Pegou numas quantas coisas, nenhuma em saldos (tão gaja) e foi para os provadores. Mas eu lá andei a fuçar nos artigos em saldos e descobri umas t-shirts cavadas para corrida ou ginásio, em amarelo (daquele dos coletes refletores) pela módica quantia de 1€. Tinha o tamanho dele e lá vou eu, orgulhosa da minha descoberta, levar ao provador. Quando ele me vê com aquilo na mão fez um ar horrorizado, como se eu o fosse mandar a Fátima, a pé, com aquela coisa refletora. 

- Toma, é porreira para o ginásio.

- Que raio de cor é essa?!

- Qual é o problema da cor? É pró ginásio, pra suar e ficar a cheirar mal. Além disso... custa 1€!

Lá pegou na t-shirt, contrariado, experimentou e oh, nem desgostou assim tanto e ah, por 1€ que se lixe...

Agora adivinhem qual é a primeira t-shirt que ele pega à segunda feira, quando vai ao ginásio? Pois claro, a amarela refletora de 1€.

Pandora 1 - Gandhe 0

 

28
Mar16

Sobrevivi

A semana passada foi esgotante. A nível emocional. O convite da sogra, a minha recusa, ele querer ir fez com que a relação terminasse. E ressuscitasse. Falámos como nunca falámos sobre o assunto. Chorámos ambos como nunca chorámos. Juntos. A compreensão da parte dele pelo que tenho vindo a acumular ao longo dos anos, como me sinto, a confissão que ele próprio já se pegou com a mãe porque ela tem de respeitar e aceitar a pessoa de quem ele gosta e escolheu apanhou-me, em parte, de surpresa, em parte não. No fundo eu sabia que ela fazia esse jogo com ele: falar mal de mim, convencê-lo que não era mulher para ele. Se na minha cara já disse e fez certas coisas, nas minhas costas então, seria mais que previsível.

Depois argumentou, como menino ferido, que já perdeu o pai e terá sempre a angústia com ele de não ter aproveitado o tempo que teve para estar com ele. Não quer que aconteça o mesmo com a mãe, independentemente do feitio dela. Nem com a avó, que tem quase 90 anos e não se sabe quando é o último convívio de família que terá com ela. Que faz questão destes convívios de família com as pessoas de quem gosta, eu obviamente incluída, e que lhe ia custar muito ir sozinho, sem saber o que dizer à avó sobre a minha ausência.

Cedi. Por amor cedi. Enterrei o machado de guerra e acompanhei-o ao almoço. Estive com a avó dele, conheci o namorado da mãe, pouco liguei à sogra, e por umas horas hastearam-se bandeiras brancas. É possível. 

Hoje tirei o dia de férias. Ele não conseguiu. Estou sozinha em casa, já despachei umas quantas coisas como estender roupa, passar a ferro, limpar cozinha. A seguir almoço e dou um salto ao supermercado. Se estivesse sol era provável ir até à praia, tomar um café comigo mesma, com o murmúrio do mar no fundo. Está de chuva e apetece-me sofá, gatos e um filme, enquanto a chuva cai lá fora e eu sinto-me em paz, depois da tormenta.

 

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