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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

13
Abr16

Rascunho 2 (ou como sou uma chata)

Eu tinha uma ideia para explorar o tema. Não a consegui concretizar. Veio um bloqueio. Insisti. Saiu um texto que não me preencheu. 

Volto a abrir a folha de word e deixo fluir. Pegando na minha ideia inicial, retiro-lhe alguns elementos, simplifiquei, deixei correr a escrita. E saiu novo texto.

Não me deixa tão inquieta como o anterior. Ainda assim, e como perfeccionista que sou, podia ser melhor. Pode sempre ser melhor. 

Ainda não decidi qual publico logo, no encontro do grupo de escrita criativa. Alguns colegas já publicaram os seus textos, e deixam-me siderada. Tão bons. Difícil igualar o nível.

 

Os mais pequenos baús são os mais pesados

Sempre que podia, Alice esgueirava-se com o cão Pantufa para o bosque nas margens do rio. Ficava ali perto de casa, perto o suficiente para que a mãe não se importasse que ela fosse sozinha com o cão, longe o suficiente para estar afastadas dos gritos, das portas a bater, das caras feias dos pais, em constante azedume.

Tirava a trela ao Pantufa e corriam, lado a lado, saltando pelos carreiros, pulando arbustos caídos, numa valsa descompassada, corriam e apanhavam-se mutuamente. Cabelo desgrenhado, arranhões nos braços e nas pernas, mas uma leveza no peito, de quem encontra a paz. E assim, quieta e cansada, sentava-se na margem do rio, enquanto o Pantufa bebia água e arfava de língua de fora. E assim ficavam, aqueles dois amigos, sentados a ver o rio, sem olhar para relógios, sem noção do tempo que corria em volta deles. Livres e despojados de tristezas e preocupações, sombras e medos.

- Sabes Pantufa, ontem li uma lenda muito bonita. Falava de uma menina que, por ser muito curiosa, abriu um baú onde os deuses tinham escondido todos os males do mundo. Assustada, fechou o baú a tempo de segurar uma última coisa guardada nele: a esperança.

Pantufa, de orelhas no ar, olhava Alice, língua de fora, cabeça inclinada, todo ele atenção, como se percebesse. Alice, de olhar perdido na água que corria, nas árvores que sussurravam nas margens do rio, suspirou: é a esperança que resta, Pantufa. É ela que fica. É ela que nos salva. Mesmo o mais pequeno baú pode ser o mais pesado: pesado de dor, mágoa, angústia, medo, tristeza. Para nos sentirmos mais leves, temos de abrir o nosso baú. Deixar sair o que nos pesa. Mas segurar a esperança, Pantufa. É ela que nos salva.

Sorri, e com leveza, desata a correr apanhando o Pantufa desprevenido. E assim correm os dois, livres e leves, pela margem do rio, esquecidos do tempo, escondidos da vida, correm ao encontro da esperança, que teimam em não perder.

 

 

13
Abr16

Rascunho?!

Apesar do cansaço de um dia frio e chuvoso, trabalhoso e turbulento, culminando com uma nada fantástica trovoada, sentei-me de portátil à frente, folha de word em branco, com o mote a negrito: Os mais pequenos baús são os mais pesados.

Houve uma ideia que queria explorar. Escrevi, apaguei, reescrevi, apaguei, mudei a direção do tema, escrevi, apaguei... desesperei. O cansaço contrasta com a leveza da pena. Escrever não é magia que flui na ponta dos dedos. Às vezes flui mais, outras menos, outras nada. Umas vezes desiste-se, outras insiste-se. Hoje insisti.

Não gosto do óbvio e sinto que fui pelo óbvio. Leio o meu texto e não me sinto satisfeita. Parece um conjunto de lugares comuns, não sei, estou tentada a, uma vez mais esta noite, carregar no delete e eclipsar o texto no vazio do disco rígido.

Ainda assim há parte de mim ali. Que não gostaria de apagar, sem dó nem piedade.

Aqui o deixo, tal como está, provavelmente para olhar para ele amanhã e apagar e recomeçar. Ou não. Ou fazer-lhe ajustes. Alterações. Não sei. O cansaço permite-me a desculpa deste desconforto em processo de escrita. 

Eis o rascunho que sobreviveu nas últimas horas.

 

 

Os homens não se medem aos palmos. Nem os baús pelo seu tamanho. Nem sempre os maiores são os que mais pesam. Tantas vezes os maiores estão cheios de eco, e os mais pequenos pesam, como se guardassem todos os segredos do mundo.

Os mais pequenos baús são os mais pesados. Viro e reviro a frase, procurando-lhe um contexto.

E se eu fosse um baú? O que guardaria dentro? Recordo-me da lenda de Pandora e da sua caixa. Todos os males espalhados pelo mundo, ficou a esperança. Será esse o destino dos homens? Moldados pelas mãos do tempo, na roda da vida, condenados a angústias e tristezas, a perdas e dores, mas com a esperança como farol em dias de tosco nevoeiro. Crianças que sonham e fazem o mundo pular, entre risos e gargalhadas. A esperança que leva pela mão a fé num amanhã melhor. Num futuro que está por desvendar, ainda que esteja escrito. A esperança que nos dá a ilusão de escolher o caminho, decidir o rumo, desviar as pedras, subir os degraus, trepar árvores e escalar montanhas, acreditar no impossível e ter força para isso.

Talvez todos sejamos Pandora. #Jesuispandora! Na moderna linguagem das redes sociais. Todos carregamos dentro de nós um pequeno baú de memórias, de cicatrizes, feridas de vida, de mágoas e alegrias, de amores e desamores, de risos e lágrimas, de conquistas e derrotas.

E naqueles dias em que o nosso baú atinge o limite, ameaça rebentar as dobradiças e estourar a fechadura, há que o abrir e libertar os males que nos pesam, nos carregam e nos atrasam na nossa caminhada. E há que segurar a esperança, que é a cola que une os cacos que se quebraram pelo caminho.

Gosto de lendas. Nos primórdios dos tempos era com lendas que os homens preenchiam os ecos da sua existência. Gosto de as guardar no meu baú de memórias e estórias…

 

06
Abr16

Perdi a carteira (exercício de escrita criativa)

O sítio proibido é o mais apetecido. – Lá diz a vox populis. 

A arrecadação da nossa escola primária, lá da aldeia, tetos altos, porta de madeira pesada, recreio de areia e árvores para trepar, a arrecadação era aquele imaginário que nos lembrava o sótão da casa da avó, cheio de relíquias e tesouros por descobrir. 

O que mais nos deslumbrava na arrecadação eram aquelas carteiras em madeira, tampo da mesa inclinado, que levantava para guardar os livros, e tinha uns buracos para os frascos de tinta permanente usados pelas nossas avós, quando anos e anos atrás andaram elas naquela mesma escola, tetos altos, porta de madeira pesada, recreio de areia e árvores para trepar. 

Não havia muitas carteiras dessas na arrecadação. Duas ou três, ainda em bom estado, guardadas com o cuidado de quem quer preservar um pedacinho de passado. E nos armários pesados os antigos livros de ponto, o registo dos alunos daquela escola ao longo dos anos. Mas não era isso que nos cativava a atenção. Eram aquelas carteiras, onde gostávamos de nos sentarmos e nos sentirmos abraçadas naquela união entre o banco e o tampo partilhando as marcas deixadas pelas mãos de quem ali aprendeu a juntar as letras e a rabiscar contas.  

Nós também queríamos que aquelas carteiras fossem as nossas. Lembravam-nos a Ana dos Cabelos Ruivos, desenhos animados que víamos com devoção inocente. Todas queríamos ser a Ana dos Cabelos Ruivos: corajosa, traquina, reguila, aventureira, doce… 

Nunca tivemos aquelas carteiras na escola, estavam guardadas na arrecadação, para onde, de vez em quando, nos esquivávamos e onde brincávamos à Ana dos Cabelos Ruivos a aprender a juntar as letras e a rabiscar números naquelas carteiras que nos envolviam num abraço mágico. 

Sinto-me a sorrir, de olhar perdido no horizonte da janela do comboio. Perco-me na paisagem que fica para trás. Suspiro com ternura pela lembrança daquela carteira mágica, guardada como tesouro na arrecadação da escola, ainda de tetos altos, porta de madeira pesada, mas sem meninos a encher o recreio de areia e a trepar às árvores. Pergunto-me se ainda lá estará? Gostava de ter uma. E sentar-me-ia com a filha que está por nascer, a ajudar a juntar letras e a rabiscar números, a contar-lhe as histórias da Ana dos Cabelos Ruivos, assim, enlaçadas pela magia daquela carteira. 

Próxima paragem… - ouço a voz metálica. É a minha. Cheguei ao destino. Volto à realidade. Levanto-me, pego no casaco, vou para a porta, segurando-me enquanto o comboio abranda. Menina, menina! Viro-me. A sua carteira. Sorrio. Com a lembrança da perdida carteira da minha velha escola primária, ia perdendo a carteira de mulher adulta no comboio.  

 

Um agradecimento especial à doce Alice, que me inspirou neste jogo de homonímia. 

 

05
Abr16

Perdi a carteira

Não perdi, mas podia ter perdido. Embora ache que mais facilmente perco a chaves dentro da mala, as malditas têm vida própria e adoram jogar às escondidas.

Perdi a carteira é o tema para o texto a apresentar nesta segunda semana no grupo de escrita criativa. 

Podia inspirar-me na Maria das Palavras, mas sem mala e carteira, ou na Just, mas estou a tentar pensar fora da caixa e evitar o óbvio, o lugar comum. 

Perdi a carteira. Ainda perco é o juízo por me meter nestas andanças. 

 

31
Mar16

Crónica para o grupo de escrita criativa (saiu, porra!)

Terminadas as mini férias da páscoa, eis que foi dia de regressar ao ativo. Dia de trabalho que acabou com aula de ginástica.

Sendo que eu estou para o exercício físico como os vegetarianos estão para a carne, é fácil perceber que vou para a aula em modo mandrião, como se uns carrascos invisíveis me arrastassem para uma sessão de tortura medieval. 

Lamento, mas não tenho o fit no meu código genético. Nunca serei como aquelas musas das redes sociais, que publicam fotos à velocidade da luz em trajes (menores) desportivos coloridos e apelativos à vista, que divulgam os seus vídeos a fazer levantamentos e agachamentos com a mesma facilidade com que eu barro manteiga no pão pela manhã. Manteiga de amendoim. 100% amendoim, sem aditivos, conservantes e outras cenas. 

Lá me arrastei para a aula. Cheguei cedo. Juntei-me a colegas e uma andava a distribuir pequenos ovos de chocolate, os resquícios da páscoa. Chega a professora e topa-nos a lambuzar os dedos de chocolate. Tremi. Estava com cara de Hitler, de quem nos ia fazer arrepender daquele inofensivo ovinho, de todas as amêndoas que andei a degustar nos últimos dias. Ah e o leitão assado com batatas fritas!!! Comi salada. Muita alface e laranja. Mas lambi os dedos com o leitão e as batatas fritas. Shiu!

Aula a começar. Quase me benzo, qual jogador da bola a entrar em campo. 

A primeira parte da aula é cardio e a Hitler de leggings fez coreografias softs. Sem grandes agachamentos e pulos que nos põem de língua de fora, a suar que nem... poupo-vos a imagem pouco sexy.

Colchões. Anuncia aquela voz de trovão. Bebo um gole de água, enquanto penso que dava jeito começar a levar uma garrafinha de oxigénio também para a aula. 

Hoje serão só abdominais. - Céus, morri e fui parar ao inferno. Por pouco os olhos não se soltaram das órbitas quando a vi a demonstrar os diferentes abdominais que teríamos de fazer. Em especial um, que por mais que eu tente, não há como atinar com aquilo, desequilibro-me e tombo para o lado, para além das dores. Não podia ser. Maldito ovo. Malditas amêndoas. Que se dane os buracos de celulite e o rabo da Sara Sampaio, que me deixa sempre a babar quando aparece nos anúncios dos biquínis da Calzedónia, enquanto a pequena morsa aqui lambe um magnum amêndoas.

E começa a tortura. Concentra-te. Respira. Não te esqueças de respirar. E vai contando. Porra, não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Está quase. Próximo. Daaaa-se, afinal ainda foi só O PRIMEIRO exercício. Da PRIMEIRA série. Hoje saio daqui de maca. E seguiu-se outro e mais outro, aquele do demónio é dos últimos. Como???? Já não aguento mais. Inspira. Expira. Concentra. Aperta a barriga! -  grita a Hitler de leggings tonificadas, com rabo de fazer frente à Sara Sampaio. 

E eis que chegou a vez do mais que temido. Aquilo é para levantar as pernas, bem esticadas, em direção ao teto, até levantar rabo e ficar só apoiada nas costas, depois baixar enquanto se levanta o tronco, depois recolhe as pernas para novo balanço e tá a levantar. Bem alto. Rabo também. Levanta tudo. Ai que caio, vou tombar, je vais tomber... não tombei. Oi? Fiz tudo? A sério?! Pela primeira vez?! Se conseguisse, corria para festejar. Corria dali para fora, entenda-se. Porque vai começar nova série e tá a repetir TUDO!!!! 

Alienei. Já pouco sentia. Só queria manter a respiração, para ter certeza que ainda estava viva. E terminou. UFA!!!!!

Alongar. 

Oh porra. Uma pessoa pensa que chega o descanso digno do guerreiro, e afinal ainda falta esticar o esqueleto até aos limites da dor. E puxa. E respira e vai mais abaixo. E onde eu tinha a cabeça para me meter nisto??? Deixa estar os buracos de celulite em paz.  

Acabou. Acabou. A-C-A-B-O-U! Estou viva. Mal me mexo, mas respiro e sinto dor. Estou viva, certo?!

Enrolo o colchão, bebo um gole de água, visto o casaco, agarro na mochila, e despeço-me com um: até quinta! De sorriso nos lábios. Só faltou a selfie pra espetar no Instagram, mas achei que ia assustar o pessoal, com o meu ar pouco fresca e pouco fofa. E nem as leggings pouco tonificadas me iam salvar a foto.

 

Ma-So-Quis-Ta! It's my middle name!

 

Qualquer semelhança entre ficção e a realidade experienciada pela minha pessoa na última aula de ginástica, NÃO é pura coincidência.

30
Mar16

Enquanto o vento uiva lá fora

Eu conclui o raio da crónica para apresentar amanhã no encontro do grupo de escrita criativa.

A dificuldade é escolher um tema. Escolhido, é soltar os dedos e deixar fluir. Mais ou menos, vá.

Sou demasiado perfecionista e leio e releio e não acho nada de especial. Mas pronto, está escrito, dei voltas à cabeça, deixei fluir, ainda me ri, fiz algumas correções no final, uns retoques aqui e ali, e não mexo mais.

A dita já está ali nos rascunhos, à espera de ser revelada também aqui. Ainda mais depois de me aturarem com a neurose da falta de criatividade ou imaginação. 

 

29
Mar16

Um pontapé na criatividade

Quando fiz o curso de escrita criativa, tive a sorte de pertencer a um grupo de alunos muito boa onda. Chegaram a organizar alguns almoços para convívio dos Canecos, assim fomos batizados, almoços esses que por vicissitudes da vida não pude ir (foram sempre na zona de Lisboa e aconteceram na minha altura de desemprego, ir de Aveiro para Lisboa para almoçar não sai propriamente barato). Criámos um grupo secreto no facebook e durante uns tempos aquilo era bem animado, gente a publicar, outros a comentar, partilhas animadas...

Com o tempo foi esmorecendo. 

Semana passada um dos ilustres Canecos lançou o repto de reativar o grupo. Temos marcado um encontro online por semana, escrever uma pequena crónica semanalmente para partilhar e comentar, trocar ideias. 

Eu gosto disto. Mesmo. Mas o tema da primeira crónica é tema livre, o dia do encontro está a chegar e eu sem nada escrito para publicar. 

O meu drama da folha em branco, com um vazio imenso e um eco enorme.

Vou escrever sobre o quê? Ai balha-me o santíssimo das causas perdidas! 

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