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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

04
Abr16

O Prisioneiro do Céu

Depois de me ver arrebatada pela Sombra do Vento, intrigada e inquieta com o Jogo do Anjo, a verdade é que não esperei muito para ler O Prisioneiro do Céu, crente que me traria as respostas às dúvidas deixadas pelo anterior. E assim, num dia de férias que me saiu de chuva, instalei-me no sofá, rodeada de gatos, e, apesar de não ser fã de ebooks, lá li em formato PDF no tablet. É o mais pequeno dos três livros, não só em número de páginas, como também em extensão ou complexidade narrativa. 

O_Prisioneiro_do_Céu_2016

O Prisioneiro do Céu é, atrevo-me a dizer, um conto, uma pequena extensão aos dois livros anteriores. Em termos cronológicos a ação é posterior aos seus antecessores, mas através do relato de Fermín, que conta a Daniel parte do seu passado, é nesse relato do passado que obtemos respostas para as dúvidas deixadas no Jogo do Anjo, e percebemos a rede, pouco aleatória, que interliga as personagens desta saga. 

É um livro pouco independente. Quem o ler sem ter lido os outros, lê e percebe, mas deve ficar pouco impressionado.  Essencialmente é uma narrativa de memórias, onde uma das personagens, o nosso conhecido Fermín Romero de Torres, desvenda parte do seu passado, quando prisioneiro de guerra, as pessoas com quem se cruzou, como sobreviveu. Na partilha da sua história, surgem outras personagens, já conhecidas de quem leu os anteriores, e assim são desvendados alguns pormenores que dão resposta ao que ficou em aberto, ou pouco explorado, nas narrativas anteriores. Quer a narrativa de A Sombra do Vento quer a do Jogo do Anjo convergem no Prisioneiro do Céu. Fermín é agora o centro das atenções, e traz com ele revelações que explicam o passado e podem alterar o futuro. 

Mantendo a mesma linha a que nos habituou, continuamos, enquanto leitores, perante um romance com mistérios à mistura, um fundo histórico social a servir de contexto ao enredo, a presença de Fermín acrescenta o cómico de situação, ainda que seja uma personagem carregada de complexidade trágica. Uma personagem misteriosa, um livro, o Cemitério dos Livros Esquecidos... o poder dos livros e da literatura como mote e elo de ligação para toda esta trama de amores, intrigas, crimes e mistérios.

Tenho esperança que haja um quarto livro desta saga de O Cemitério dos Livros Esquecidos. Alimento essa esperança com as últimas palavras d O Prisioneiro do Céu:

(...)sabendo que a história, a sua história, não terminou.
Acaba de começar.

 

Fiquei completamente rendida à escrita de Zafón, a esta saga fabulosa, estou expetante na possibilidade de um novo livro, mas por agora preciso fazer uma pausa de Zafón. 

Foi espetacular ler esta trilogia de empreitada, assim, tudo seguido, sem perder fôlego. Absorveu-me como há muito não me sentia assim por um livro. 

30
Mar16

O Jogo do Anjo: o meu primeiro desafio de leitura

Depois de ler A Sombra do Vento e ter ficado rendida à escrita de Zafón, eis que recebo um convite para participar num desafio de leitura. Ler em simultâneo com um grupo de ávidas leitoras e admiradoras de Zafón O Jogo do Anjo. Agradeço à Magda pelo convite, agradeço a todas as participantes a oportunidade de pertencer a tão excelente grupo de leitura. Comecei bem o desafio, que no fim-de-semana em que arrancou a leitura, eu devorei mais de 300 páginas. Depois o tempo disponível abrandou-me o ritmo, e o próprio livro começava a irritar-me: tanto mistério, andar ali às voltas, respostas nem uma, e já achava que aquilo era uma grande loucura, e não me admirava que chegasse ao fim e o protagonista acordasse de um pesadelo qualquer, de um devaneio, e eu ficava ali, com vontade de espancar o narrador. Não foi assim que aconteceu, mas confesso, fui a última a cumprir o desafio. Vale que é daqueles desafios em que não há vencedor nem vencidos, tão pouco pódio com medalhas para distribuir. Ainda assim, Pandora foi a última a cortar a meta. 

 

Sobre este livro de Zafón... 

o_jogo_do_anjo_2016

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto sobre a cabeça, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.

 

Assim começa O Jogo do Anjo. Uma narrativa de primeira pessoa. O nosso narrador é o protagonista deste enredo denso, um jovem escritor, David Martin, que não me criou a mesma empatia que o protagonista de A Sombra do Vento, Daniel Sempere. O cenário continua a ser Barcelona, nas décadas de 20 e 30. Uma Barcelona escura, misteriosa, gótica: a cidade dos malditos, citando o narrador protagonista. Para quem já leu A Sombra do Vento vai reencontrar locais conhecidos, como o mágico Cemitério dos livros esquecidos e a livraria de Sempere. Cronologicamente, O Jogo do Anjo acontece antes da ação de A Sombra do Vento, já que o nosso conhecido Daniel Sempere aparece referido no final do Jogo do Anjo como tendo nascido e ficado orfão de mãe aos 4 anos. Portanto, é interessante revisitar locais e algumas personagens já cohecidas, mas num tempo anterior, como se assim pudessemos conhecer o seu passado. 

Na linha de A Sombra do Vento, o autor mistura vários géneros: romance, mistério, suspense, crime. Nas palavras do próprio: é novamente uma história de livros, de quem os faz, de quem os lê e de quem vive com eles, através deles e até contra eles. É uma história de amor, amizade e, em alguns momentos, sobre o lado obscuro de cada um de nós.

Na leitura que fiz, do que me ficou, predomina o mistério e o suspense. A história de David Martin é trágica, como se ao nascer já estivesse condenado a uma vida de sofrimento, destino ao qual não consegue fugir por mais que tente. É um lutador. Abandonado pela mãe, filho de um pai violento e alcoólico, viu-se sozinho no mundo muito novo. O seu amor pelos livros foi a sua salvação. E provavelmente a sua maldição. Num relato alucinante, os mistérios sucedem-se, os crimes também. Mistério sobre mistério, becos sem saída, um suspense de cortar à faca. Chegamos a duvidar da sanidade do nosso protagonista narrador, principalmente quando há outras personagens com versões diferentes dos mesmos factos. Um amor trágico, amizades incondicionais, daquelas "até que a morte separe", o mistério e obscurantismo de algumas personagens, tudo parece conduzir David ou a um final trágico ou a um final de glória. Apostaria mais no trágico, porque o próprio encadeamento dos acontecimentos assim o faz prever. David Martin perde tudo o que ama, e perdeu-se a si próprio no dia em que aceitou a proposta do misterioso Andreas Corelli. Mais não posso dizer, e creio já ter dito muito... 

Confesso que o final me deixou um doce amargo. Se houve mistérios que foram minimamente desvendados, outros ainda se adensaram mais. Como leitora que gosta de descobrir a lógica dos acontecimentos narrados, confesso que este livro me deixou à deriva em muitos aspetos. Não tivesse eu esperança de encontrar respostas nos próximos livros da saga, e estaria de facto desiludida com este desfecho. Assim, só estou completamente viciada na saga de Zafón e ansiosa por ler o próximo. Se este é o objetivo do autor, prender os seus leitores desta forma tão intensa, missão cumprida. 

 

Para quem quiser confrontar as opiniões das restantes participantes deste desafio, deixo aqui a lista das meninas, a quem agradeço novamente pela oportunidade:

Magda; JP; M*Me, myself and I; Just Smile; Sofia e a Nathy

 

Espero não me ter esquecido de alguém, se sim, por favor digam-me, para eu completar a lista.

 

 

29
Fev16

A Sombra do Vento

"... a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma..."

 

Lembro-me de há uns dois anos, mais coisa, menos coisa, ler em vários blogues sobre este livro. Cheirou-me a sururu, a febre de autor, e eu, não sei explicar porque sou assim, quando anda meio mundo com um livro na mão e o seu autor na boca, eu desconfio e não lhe chego perto. Fica-me ali a curiosidade, deixo o sururu acalmar, e só depois da febre massiva passar, é que então pego no dito livro ou autor e julgo de minha justiça. Foi assim com Dan Brown, foi assim com Zafón. 

No verão passado, ao escolher um livro para oferecer, deparei-me com uma edição de bolso de A Sombra do Vento. A bom preço. Pensei que com os pontos acumulados no cartão ainda conseguia melhor preço e achei que era a minha oportunidade de dar uma oportunidade a Zafón. No entanto, o livro foi para a minha prateleira da vergonha, onde estão vários em fila de espera para minha leitura, e não era minha escolha quando ia selecionar o seguinte. Foi então que li este post da Magda e fiquei deveras com a chamada "pulga atrás da orelha"! O que estava eu a perder por ter o livro a apanhar pó na prateleira da vergonha??!! Comentei no post da Magda e ela fez-me o ultimato: para ler já, não te vais arrepender. Bem mandada que sou, mal acabei a leitura que tinha então em mãos, peguei nele. 

Demorei dois meses a ler. É certo. Noutros tempos, naqueles idos tempos em que eu lia compulsivamente, era livro para me ter durado três dias. Fui lendo ao sabor dos meus dias, do meu tempo, da minha disponibilidade emocional. Havia alturas em que parava a leitura para ficar ali, como quem saboreia vagarosamente um qualquer doce, houve alturas em que tinha de me obrigar a parar, que já era tarde e o despertador não perdoa. 

A minha opinião sobre o livro? UAU! Como já escrevi recentemente, quero ler os outros

A escrita de Zafón é sedutora, cativante, envolvente, apaixonante. Os momentos descritivos não são nada cansativos, pelo contrário: envolvem-nos, transportam-nos para o cenário que o autor descreve, quase que sentimos o cheiro, a chuva, quase que vemos as ruas, o que as personagens sentem.

O fio condutor de todo o enredo é um livro, no meio do universo dos livros. Há um que desperta a atenção do protagonista, que conhecemos com 10 anos, e que o cativa de tal maneira que dedica os seus dias de rapazinho orfão de mãe, ajudante do pai livreiro, a procurar saber mais sobre o misterioso autor do livro. E leva-nos, na mesma curiosidade e suspense, na sua aventura de descoberta. A par desta sua busca, assistimos à sua própria vida a acontecer, o primeiro amor, o primeiro desgosto amoroso, as amizades, as suas dúvidas e medos, os seus sonhos e a sua incessante busca pelo misterioso autor do livro do qual se tornou guardião. E é essa busca que nos leva numa rede de mistérios, revelações, numa espiral que vai afunilando até às revelações finais. Surpreendente a cada virar de página, a cada descoberta, a cada novo mistério que surge por explicar. O enredo é uma teia, e vemos as vidas do jovem Daniel e do misterioso autor Carax entrelaçarem-se, como uma ironia do destino, como o crescendo da tragédia grega, onde humanos desafiam o destino e a sua sorte, onde sofrem as consequências da sua hybris (desafio às leis dos deuses, do destino, da família, da cidade), onde acontecem inúmeras peripécias que mudam o rumo dos acontecimentos, levando ao desenlace trágico, à catástrofe que pune quem ousou desafiar todas as leis do destino, e no fim, bem ao gosto da tragédia grega, a catarse: o momento de purificação das paixões e emoções, o momento em que o universo perfila novamente num certo equilíbrio, despertando em nós, leitores, uma espécie de piedade, depois de tanto sofrimento. Mas não pensem que é só sofrimento de fazer chorar as pedras da calçada. Há humor, há sátira, há crítica social, há um personagem que encarna bem a figura do bobo da corte, na sua pose cómico-trágica, Fermín Romero de Torres é uma lufada de ar fresco na narrativa, e na própria vida do Daniel.

Li algures que o enredo de A Sombra do Vento se assemelhava às bonecas matrioskas: a cada revelação o enredo vai-se afunilando, até só restar a verdade nua e crua.

Não discordo da metáfora das matrioskas, mas vejo o enredo criado por Zafón como uma tragédia grega: quer em estrutura, quer no dramatismo, quer na poesia que adorna emoções, quer na catástrofe, no sofrimento, e, repito, em toda a ironia do destino que parece brincar com a vontade das personagens, como se, independentemente do que quisessem ou fizessem, o destino é soberano. 

Outra característica que me arrebatou neste livro foi a mistura: não temos só um romance (de amor), não temos só um romance histórico, não temos só suspense e mistério, não temos só crime e policial, não temos só narrativa poética. Temos tudo, harmoniosamente orquestrado. 

Um livro sobre livros, sobre a paixão dos livros. É o mote, o ponto de partida, atrevo-me a dizer, de chegada. É o fio condutor que liga todos os elementos deste complexo enredo, que nos envolve de forma absurda e inexplicável.

Só posso dizer o que a Magda me disse: leiam! Só assim perceberão a miscelânea de elementos que se conjugam, de forma muito harmoniosa e equilibrada, num só livro. 

 

10
Fev16

Aos poucos

Vou avançando na leitura de A Sombra do Vento. Há momentos, como o de ontem à noite, que fui vencida pelo cansaço, mas queria continuar, sem parar, sôfrega. Há momentos que paro mesmo a leitura para lhe fazer a devida pausa. Ficar a saborear a parte da história lida, alimentando aquele sabor de deslumbramento e aumentando a curiosidade para as páginas seguintes. 

Noutros tempos eu teria lido este livro em dois dias. Agora leio ao sabor do tempo que os dias me dão. Da minha própria disponibilidade emocional. Há dias que termino com um cansaço tão grande que as letras de dançam, os olhos choram, o bocejo vem, a concentração está a níveis abaixo de zero.

Estou ansiosa pela parte da história que se segue, pela personagem que vou descobrir e me vai desvendar parte de todo o enredo. Não sei se conseguirei saciar a leitura hoje, já que o dia promete ser longo e cansativo. Aos poucos. Sem pressas. Saboreando as histórias desvendadas, as personagens que se descobrem e entrelaçam. Aos poucos.

 

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