Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

20
Mar20

Quarentena: dia 3

Chego ao terceiro dia. Confesso: hoje estou em dark mood. 

Tenho ligado a TV na Sic Notícias enquanto tomo o pequeno almoço. Começo o dia a atualizar-me quanto ao tema que domina as nossas vidas e o mundo em que vivemos. Hoje vieram as lágrimas aos olhos, arrepiei-me, fiquei com um nó na garganta.

A situação em Itália é devastadora. Assustadoramente devastadora. 

O nosso governo vem regulamentar uma série de medidas que grande parte dos portugueses já estavam a fazer por iniciativa. Palminhas para o governo que seguiu o exemplo dos seus cidadãos. Não é por nada mas há cerca de duas semanas atrás vários municípios aqui do distrito de Aveiro já estavam a cancelar eventos públicos, a lançar os alertas para o isolamento social, empresas a tomarem medidas de prevenção, estabelecimentos comerciais, das mais variadas áreas, a fechar portas ou a restringir horários, acessos e serviços. Há restaurantes que só têm o serviço de take away, por exemplo. A Junta de Freguesia onde moro tem sido extremamente proativa e exemplar. Criou uma linha de apoio para idosos e doentes crónicos. A JF garante abastecimento alimentar e de medicamentos a estas pessoas. Anda a desinfetar espaços públicos. Começou por cancelar o mercado semanal que há todas as quintas, agora permite novamente a sua realização mas apenas e só com bens alimentares. O município de Ovar com o surto que teve, não esperou pelo governo central. Declarou estado de calamidade e todo o concelho está com encerramento sanitário: ninguém sai, ninguém entra (ainda que estejam a ocorrer "furos" porque há empresas que ainda não pararam a laboração e as pessoas vêem-se forçadas a furar as barreiras para ir trabalhar). Passam imagens de cidades desertas que me fazem lembrar filmes de ficção científica, quando o mundo era invadido por aliens...

Depois o resto do mundo. A situação em África é preocupante pois prevê-se que milhares de casos não sejam sequer identificados, quanto mais controlados. A falta de condições a vários níveis vai ser um rastilho de pólvora seca. 

O príncipe do Mónaco está infetado. A prova que este vírus não distingue classes sociais, económicas, o que seja. Somos todos humanos, igualmente vulneráveis. 

EUA fecham fronteiras. 

As imagens de cidades desertas espalham-se pelo mundo todo e eu, que até tenho andado calma e relativamente otimista em relação a Portugal e a conseguirmos controlar a pandemia, vejo o resto do mundo nesta luta desigual contra um inimigo invísivel, um inimigo que nos pode "apanhar" só porque tocamos numa maçaneta de uma porta. 

Estamos todos juntos nesta guerra. Somos todos vulneráveis. Somos todos humanos, feitos da mesma carne e do mesmo sangue, com o mesmo risco de infeção por Covid-19 independentemente da cor de pele ou do status social ou da conta bancária.

Este vírus veio lembrar-nos de muitas coisas que estavam esquecidas. A nossa vulnerabilidade. A nossa frágil condição de seres humanos. Este vírus veio mostrar-nos que precisamos abrandar, que a felicidade e a vida não se mede pelo que se tem, pelas viagens que se faz, pelas coisas que compramos e exibimos na nossa fútil vaidade. Veio mostrar-nos que afinal não estávamos assim tão mal, que até tínhamos uma vida boa só pela liberdade de sairmos à rua com segurança, de nos vestirmos para irmos trabalhar, mesmo naqueles dias em que o sono era maior e a preguiça nos fazia desejar ficar em casa (ops, será que depois deste isolamento vamos voltar a desejar isto?). 

Hoje é o meu terceiro dia de quarentena. Hoje sinto-me mais triste, sombria, assustada. Mas prefiro agarrar-me à esperança de que vamos, todos juntos, conseguir ultrapassar este momento difícil que o mundo atravessa. Que, por ora, as minhas pessoas estão bem e em segurança. Que eu estou bem e em segurança. Que ainda temos meios para acedermos ao que precisamos para sobreviver a estes dias, que nos são tão estranhos e diferentes do que conhecíamos e estávamos habituados. O nosso Portugal é feito de gente com fibra e garra. Somos um dos países mais antigos do mundo. Expulsámos mouros, espanhóis e franceses. A nossa história centenária está repleta de momentos de crise em que nos conseguimos reinventar e renascer. Assim será com este inimigo que nos invadiu o território, nos entrou pelas casas adentro e virou as nossas vidas do avesso. 

Juntos venceremos! 

19
Mar20

Quarentena: dia 2

Sobrevivi ao dia 1. 

Ok, não foi assim tão mau. Houve ali um momento à tarde que deu aquela vontade de saltar janela fora, mas moro num RC, portanto deixei-me estar.

Horário de trabalho cumprido, desafio superado quando me atiraram com um fogo para apagar, e, ter de improvisar a partir de casa, à distância foi assim um bocadinho sufocante. Consegui. 

Fiz a minha aula de local fit, já que a profe gostou da sugestão de nos enviar uns exercícios pelo nosso grupo de Facebook. Quem teve a ideia de merda?  Eu. Ah e tal, para não pararmos e para tentar manter a rotina, já que estamos todas em clausura... Agora toma, faz. 

Saio da cadeira da secretária, vou ao quarto vestir a roupa de treino, volto ao quarto que tenho como escritório, uma espécie de closet (calma, é apenas um charriot com casacos e roupa que já foi usada e está a arejar pendurada), e onde está também a bicicleta estática, ótima para pendurar cenas. Estendo o tapete e inicio o plano de treino que a "fofa" da profe filmou. Terminado o treino, viajo até à casa de banho para um duche, próximo destino cozinha para tratar do jantar. Dito assim, fartei-me de andar de um lado para o outro... num limite de 100 m2. 

Ergo as mãos ao céu e agradeço aos santinhos, universo e à minha teimosia que há anos convenceu o Gandhe que este era O apartamento que eu queria, depois de tanta caixinha que vimos. E porquê? Porque tem um terraço com cerca de 40 m2 virado para um jardim. E não serve só para estender roupa ou fazer churrascos no verão. Serve como espaço para arejar a cabeça, apanhar ar e sol nas trombas e sentir que a liberdade está ali, à saída da janela da cozinha. Todo um mundo, portanto. 

Sem surpresas, está declarado o estado de emergência. E à parte tanta parvoíce, cromice e estupidez (que serve de material precioso para muito e bom humor que anda por aí), felizmente há também muito bom senso e gente que não esteve à espera que o governo tivesse tomates e tomasse medidas. Já havia isolamento e quarentena voluntários, já havia muitas empresas a recorrer ao teletrabalho para mandar os colaboradores para casa, já havia muitos negócios e comércios a decidir fechar portas por uma questão de responsabilidade social e saúde pública. Um bem haja também a autarquias e juntas de freguesia (a minha tem sido exemplar) a tomar iniciativas várias, muitas delas com grandes impactos económicos para a região, para combater a propagação desta pandemia e proteger a sua população. 

  a todos os que tornaram isto possível sendo proativos e não estando à espera de quem não prometeu e andou a engonhar. 

Continuemos na luta! Juntos venceremos. Recordemos o lema da nossa Seleção Nacional: Juntos somos mais fortes!! 

 

18
Mar20

Quarentena: dia 1

Tudo isto é surreal. Nunca imaginei que um dia tivesse de carregar com o computador e material de trabalho para casa e trabalhar à distância, por motivos de quarentena, de isolamento social por causa de uma pandemia. Nunca imaginei que pudesse viver um cenário como o que vemos em filmes de guerra, em que não se pode deve sair à rua, de forma a garantir a sobrevivência. Só falta mesmo enfiarmo-nos em bunkers e ficarmos lá, escondidos, porque o mundo vai ser atacado por aliens. Ou coisa que o valha.

Este inimigo invisível chegou e dominou tudo. Dominou pelo medo, pela desconfiança de tudo e todos. Andamos assustados, uns em verdadeiro pânico e histerismo, outros fazendo um esforço para manter alguma calma e serenidade, apelando ao bom senso de todos para o bem estar comum. Este inimigo chegou sem ser convidado e mudou os nossos dias como os conhecemos, as rotinas que tínhamos como adquiridas e inabaláveis. Mudará, com toda a certeza, o nosso futuro a curto e médio prazo. Nós adaptamo-nos. Como sempre fomos capazes de o fazer ao longo da história da humanidade. Acreditemos mais em nós, na nossa capacidade de resiliência e luta.

Vivem-se tempos difíceis. E de tempos de crise reza a história. Portanto sejamos corajosos para enfrentar este momento, que cada um cumpra o seu papel, social e humano, para juntos controlarmos e superarmos este inimigo invisível. 

Hoje é o meu primeiro dia de quarentena. Estou em regime teletrabalho. Um desafio. Já estudei muito em casa, já preparei muitos trabalhos em casa, já dei explicações em casa, já fiz formações em regime e-learning. Foi possível. Portanto agora também será. Dizem que devemos manter as rotinas. Acordei apenas 20 minutos mais tarde, uma vez que não preciso do habitual tempo para me arranjar e maquilhar, mais o tempo de deslocação. O resto, tudo igual até ao dia de ontem. 

Que este período de reclusão forçada seja um sacrifício que valha a pena para todos nós, porque estamos todos juntos nesta luta. 

Coragem para nós! 

 

Sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pela estória de:

Blog Afiliado

Sugestões

Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D