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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

13
Mar20

Escrevi... feito!

Não entrei em histerismo. Não ando de máscara. Não fui ao supermercado comprar este mundo e o outro como se fosse ficar um ano fechada num bunker. Estou mais alerta, sigo as medidas preventivas divulgadas pelas entidades e órgãos competentes, até porque começam a ser implementados em todo o lado, inclusivamente nos locais de trabalho, planos de contingência de forma a prevenir e minimizar os riscos de contágio. Ontem e hoje recebi mensagens das atividades que frequento a avisar da suspensão das mesmas até ao fim do mês de março, reavaliando a situação no início de abril. Não só concordo como já tinha decidido por mim, para meu bem estar e dos outros, cumprir o meu papel social no combate a esta pandemia Covid-19, e que passa por evitar ao máximo ir a locais públicos e estar em contacto com aglomerados de pessoas.
As recomendações da OMS e da DGS passam por um isolamento voluntário de todos nós, saindo apenas e só para o essencial e imprescindível. E assim nasce o movimento #euficoemcasa.
Eu também ficaria de bom grado, a trabalhar a partir de casa, contribuindo ativamente para o controlo da propagação do vírus, protegendo-me a mim, aos meus e a todos os outros. Mas eu vou aderir ao movimento #eunaoficoemcasaporquenaopari. É que a empresa onde trabalho só deu à escolha ir trabalhar ou ficar em casa sob teletrabalho quem tem filhos. Os outros, como eu, que não procriaram, podem continuar a andar na boa, expostos, se formos infetados e morrermos, não deixamos órfãos. Deve ser isto!
O que me fode é esta distinção, esta diferenciação. Num problema que atinge TODOS, só a uns é dado o privilégio de escolher ficar em casa resguardados, como recomendam as autoridades de saúde, ou ir trabalhar como é habitual. O critério de seleção? Filhos.
Tema sensível, porque obviamente as escolas fecham, as crianças devem estar protegidas e sob vigilância, e para isso ser possível, os pais têm de ir para casa. A ser coerente, devem ir os dois, porque ser só um a ficar em casa e o outro continuar a sair na sua rotina "quase" habitual, vai dar merda na mesma.
Então mas os que não têm filhos são o quê? Carne para canhão? Não têm sequer o direito de dizer: também quero trabalhar a partir de casa (o que der, como é evidente) ou dizer que não, que se continua a fazer o trajeto para o trabalho e a levar a vida como até aqui se levava antes do Covid? Sinto-me revoltada. Porque não sou das que olha de lado ou aponta o dedo quando colegas mães têm de sair porque os filhos ficaram doentes, têm de faltar porque os filhos têm febre e viroses, não sou das que atira para o ar que a licença de maternidade é férias e bem bom em casa. Sem ser mãe sou das que defende que a licença de maternidade devia ser, no mínimo, um ano. Mas por não ser mãe vejo-me privada de direitos que pelos vistos só cabem aos que gozam do estatuto de parentalidade.

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