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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

24
Jun15

Outras vidas

Eu, pouco católica que sou, acredito nessa coisa das vidas passadas. Sim, acho que vamos e voltamos, e vamos e voltamos, e somos assim um acumular de vidas, sob as mais diversas formas. 

Adiante, que não me apetece, a esta hora, explicar coisas complicadas. 

Noutras vidas eu acredito que fui:

- bruxa e com gato preto;

- padre (irónico);

- divã (podia dizer Freud, mas ná, acho que fui o divã de Freud).

Em algum momento fui isto tudo em simultâneo, o que me dá agora uma imagem de um certo erotismo dantesco: uma bruxa, um padre e um divã... sem esquecer o gato preto na janela, e o pio da coruja ao luar.

Agora a sério, sempre tive esta aura de confidente: não sei o que emana de mim, que luz ou energia, que é frequente ouvir os desabafos de pessoas mais ou menos íntimas, com maior ou menor confiança/intimidade. E se isto acontece assim, naturalmente, acredito que há mesmo algo em mim que aproxima as pessoas e as faz abrirem-se. E eu gosto. Ouço, falo, acalmo, vou colocando questões, fazendo as pessoas pensarem sobre o que elas próprias estão a dizer, a sentir, vou fazendo rir, para descontrair e relaxar quem está num caótico estado de nervos. Acho que tenho este dom para divã freudiano. 

Mas sou humana. Tão humana como qualquer um que vem falar comigo. Tão cheia de sentimentos, e angústias, e medos, e desilusões, e fracassos, e dúvidas... E se ouvir os outros faz-me abstrair de mim, ao mesmo tempo tem alturas que me esgota. Literalmente. Como se toda eu fosse como que sugada e ficasse sem ponta de sangue, de energia, de força. E é assim que me sinto nos últimos dias: um divã que perdeu a forma, que está amarrotado pelo uso excessivo, como se as consultas de psicanálise fossem em horário contínuo, num entra e sai de problemas e dramas das outras vidas que ali se sentam, em mim. E numa gaveta ao lado, a minha alma trancada, com os seus sentimentos, angústias, medos, desilusões, fracassos, dúvidas...

E no fim do expediente, tranca-se a gaveta, para garantir que nada se perde até que tenha energia para olhar o seu conteúdo e tratar dele, como andei a tratar dos outros.

 

 

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