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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

25
Jul19

Nuvens dissipam-se devagarinho

Há uma coisa que vou repetindo a mim mesma nos momentos de crise, aqueles em que o mundo parece que desaba sobre os nossos ombros e nos esmaga: por vezes o melhor sítio para se estar é no fundo do poço, porque dali só para cima.

E é isto. É tão isto que há em mim. Vou suportando até não aguentar mais. Entro em queda livre e bato no fundo do poço. Às vezes é um fundo falso, porque cai mais um bocadinho, e mais um bocadinho e quando acho que já lá cheguei, ainda não.

Já por aqui escrevi e desabafei, lê quem tem paciência, quem quer, que o primeiro semestre deste ano foi negro, numa espiral descendente. Um acumular de tanta coisa, outras tantas à minha volta que me afetavam e me absorviam toda e qualquer energia.

E chegou aquele dia do BASTA! Do atirar-me da ponte e vai dar onde tiver de ir dar.

Há umas semanas acabei com o Gandhe. Foi um término de horas, diga-se... mas não deixou de ser aquele murro na mesa, ou no estômago, ou no cérebro. Aquele balde de água bem fria para ver se acorda. Foi um tudo ou nada. Sendo que eu acreditava que era o nada.

As horas que se seguiram depois que dei por terminada a relação foram incomensuravelmente dolorosas. Uma angústia enorme, um vazio... curiosamente não era o medo do que ia fazer sozinha à minha vidinha (não tenho família que possa ser apoio ou porto de abrigo, e nestas alturas... os amigos estão muito ocupados com as suas vidas, e tudo bem, não condeno) que me atormentava e doía. Era este amor que está cá dentro e a sensação de derradeira derrota de não termos sido capazes de resolver o que estava mau, e fomos deixando piorar e piorar e piorar. Uma relação não vive só de amor. Há tantas gotinhas de água que vão regando a relação e mantendo-a viva.

Genericamente o nosso problema foi o desgaste de anos juntos. Chegar àquele ponto em que a vida é apenas e só uma rotina de horários e picar uma lista de tarefas. Muitas chatices, discussões houve à volta deste tema, e a cada uma haviam promessas de mudanças. Não se concretizaram. Havia um comodismo. Um deixa andar. Eu, por mim falo, usava a técnica da avestruz: enfiava a cabeça na areia, ia vendo o que ia acontecendo, até haver nova explosão. Foi-se tornando demasiado frequente. Desgastante a vários níveis. 

Acabei.

E horas depois está ele a dizer-me que não quer desistir. Que podemos, juntos, trabalhar para que a nossa relação melhore no que tem de melhorar, o que a bem dizer, não é nada que já não tivesse existido, mas foi-se perdendo nas rotinas e no comodismo.

Work in progress. Bati no fundo e ele deu-me a corda para eu voltar à tona. Estamos a trabalhar em conjunto. Juntos. Porque não é só um ou só o outro que tem de mudar ou melhorar. Somos os dois, cada um nas suas coisas.

E foi assim que esta semana atingimos os 15 anos de relação. Muito tempo, não é? Pois. Não é fácil. Não é tudo cor de rosa com unicórnios a voar deixando um rasto brilhante. Não é o "felizes para sempre" das princesas da Disney (já repararam que a história termina sempre no dia do casamento, ninguém conta o depois?).

Entretanto também eu precisei de fazer o meu detox. Afastei-me uns tempos. Apesar de saber que tenho amigas a passar por problemas, eu precisei afastar-me. Recuperar a minha boa energia, a minha calma, o meu equilíbrio. 

É uma equação muito simples: se eu não estiver bem comigo e para mim, não vou estar bem com mais ninguém nem para ninguém (aqui incluo também o Gandhe, que verdade, também não lhe tenho facilitado a vida no último ano).

E sim, podia, como ainda recentemente indiquei, procurar um psicólogo. Sim, podia, ainda não está fora de questão. Mas por ora quero ser eu a reerguer-me. E estou em metamorfose.

Tenho-me dedicado àquelas pequenas coisas que gosto e que fazem toda a diferença no meu bem estar. A dança tem sido o meu antidepressivo e ansiolítico. Ando com os pés feitos num oito, doridos, cansados, mas a alma anda leve. O sorriso voltou. A energia também, ainda que o corpo esteja a precisar de férias para repousar. Eu, pelo menos, fico totalmente esgotada mais por questões a nível emocional, do que por cansaço físico.

Concentrei-me no trabalho, nas minhas funções, estabeleci os meus limites para não me deixar arrastar pelo stress. Foco. 

E estou a regressar aos poucos à superfície. 

Se estou totalmente a 100%? Ainda não. Mas estou mais confiante. Mais crente. Mais forte. Mais equilibrada. 

E para marcar esta fase estou seriamente a pensar em fazer uma tatuagem (ai o pânico das agulhas) de uma fénix. Porque é assim que me sinto: consumi-me em fogo ardente e renasço das cinzas. Está escolhido o desenho, o sítio, já tenho tatuador de referência... só falta mesmo o empurrãozinho de coragem para ir fazer. Mas agora também não é a altura ideal, sol e mar e praia (ainda não pus lá os pés, mas está quaseeeeee)... portanto deixemos para o outono/inverno.

As nuvens vão-se dissipando, o turbilhão à minha volta acalmou, ou pelo menos eu afastei-me do seu centro para poder serenar, e os dias vão correndo a uma velocidade de cruzeiro. Com calma. 

E o que desejo é ter sabedoria e serenidade para continuar com esta metamorfose. Não perder a coragem de ir trepando pela corda para vir à superfície do poço e sentir-me novamente em sintonia comigo mesma. E com o mundo/pessoas que me rodeiam.

Ora, há quem faça detoxs para caber nos vestidos de verão ou nos biquínis. Eu precisei de um detox à alma. Assim como assim, este ano tenho fatos de banho, sa lixe o six pack que não tenho (e pensar em todas as séries macabras de abdominais a que fui sujeita...).

E por ora estou assim, em ritmo de dança, solta, leve, deixa correr, deixa acontecer, dar as voltas que tiver de dar mantendo o equilíbrio e a leveza. 

Peço desculpa pelos recortes, só que por questõs de manter a privacidade e anonimato das outras pessoas, e o meu rosto não é totalmente visível/reconhecível, partilho estas ilustrativas e recentes fotos. 

Não prometo voltar à escrita com frequência. Vai depender dos dias, do que me apetecer. Perdoem-me, mas estou ao sabor da maré e a aproveitar isso. Não me sinto à deriva. Só que também não estou com um mapa traçado num trajeto sem desvios.

 

2 comentários

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    Clara Costa

    26.07.19

    E vai em frente com a tatuagem: quando fiz a primeira, houve um recém-tatuado que, sentadinho a saborear um cigarro, disse o seguinte (estava eu já para desistir da minha, (des) inspirada pelo barulho das agulhas): "A "dorzinha" de uma tatuagem em nada se compara às profundas feridas emocionais que cada um de nós carrega." Com esta me fiquei, entrei no estúdio e a dor soube-me a morangos.
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