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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

01
Jul19

Pensamento do dia (e uma espécie de balanço do primeiro semestre)

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Dia 1 de julho. Metade do ano já se foi. Anseio pelo verão que poucos sinais ainda deu de si. A única coisa que já fui fazer à praia foi ir até à esplanada, um dia chovia, no outro estava um vento frio que não se podia. Quando daqui a exatamente um mês for de férias continuarei com esta cor de posta de pescada cozida, porque os fins de semana de julho já estão todos preenchidos na agenda, e pouco ou nada resta para uma fugida até à praia, só para estender a toalha e apanhar uma cor. Em boa verdade se diga, olho pela janela e mais parece que vai chover. Continuo a usar roupa meia estação e dias há que rapo frio. 

O primeiro semestre do ano resume-se a duas simples e curtas palavras: uma merda!

Têm sido golpes atrás de golpes. Doenças, mortes, acidentes, chatices, frustrações ao rubro, revoltas engolidas que agora se soltam num vómito descontrolado.

Sinto-me totalmente esgotada. Sem paciência para nada nem ninguém. Alguém, por favor, me leve para uma ilha deserta?! Se bem que no estado em que estou, nem a mim me aguento, portanto façam-me uma sono-terapia. Três meses a dormir. Mas vá, só depois do verão, se é que ele vai, finalmente, chegar. É que eu gosto do verão. Muito. E portanto acalento esta pequenina esperança de agora arrebitar um pouco o estado de espírito.

Sinto-me sozinha. Em parte mea culpa, que tenho esta mania que sou durona e aguento os golpes, que consigo suportar o mundo dos outros às costas, absorver no meu íntimo as suas dores e angústias e preocupações, ter sempre uma palavra, um ombro, uma mão estendida, a opinião que me pedem ou ideias que precisam. E depois as minhas dores, onde ficam? Entaladas na garganta, embrulhadas no estômago. E quando tenho um pouco a coragem de falar levo com respostas que, até pode ser o que preciso ouvir, mas foda-se, um abraço e um "vai correr tudo bem, vais ficar bem, estou aqui" também era bom. Não há quem me ouça, ou queira ouvir. Todos vivem os seus dias, os seus problemas. A sua vida. Eu entendo. Resigno-me.

Sinto-me perdida. Aquilo que acho que sei, que aprendi, que evolui, afinal parece que não, que estava enganada, que nada sei, nada aprendi, nada evolui. Deixo (outra vez) que me façam sentir uma porcaria sem qualquer valor. E sim, à la Gustavo Santos e os seus clichés, eu SEI que sou a primeira pessoa que tem de gostar de si, de se valorizar, de confiar em si e nas suas capacidades. Mas fica difícil com tanta coisa e tanta gente à volta a derrubar, a mandar ao chão, a virar as costas porque não tem tempo, não quer saber, tem mais em que pensar. Ou simplesmente nem se lembram que existo.

Sinto-me sem forças. Já só quero ficar quieta no meu canto, gritar ao mundo:

Não: não quero nada

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

(...)

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

(...)

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! *

* Álvaro de Campos, LISBON REVISITED (1923)

Metade do ano foi-se e eu estou feita em cacos. 

Vamos ver como corre a outra metade. Como chegarei daqui a seis meses. Parecem uma eternidade de tempo, e no entanto passam assim, num estalar de dedos.

As coisas estão a acalmar, é certo. Só que pelo sim, pelo não, ainda não me sinto capaz de respirar fundo, serenar e olhar o horizonte com a coragem e a esperança de que vai ficar tudo bem. De que vou ficar bem.

 

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