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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

20
Abr20

Quarentena: dia 34

Sexta jantei sushi. Abençoado serviço de take away do restaurante onde habitualmente vou ao sushi.

Sádado foi dia de limpar e arrumar o "palácio". E também de andar de catalógo Ikea online numa mão e a fita métrica na outra. No carrinho de compras já constam alguns artigos... encomenda por submeter. Estamos em período de reflexão.

Domingo aproveitou-se o bom tempo e foi dia de churrasco com direito a caipirinha.

Vive-se dentro de portas, tentando trazer algum do mundo lá fora cá para dentro. Vai-se, assim, tentando fintar esta quarentena, este isolamento e distância social. Mas há sinais de cansaço. De desanimo também. Por aqui mantêm-se as regras de confinamento e lá fora parece que foi dada ordem de soltura, é só pessoas na rua, a passear ao sol, famílias de quatro elementos a irem para o supermercado, crianças sem máscara, encostam-se ao balcão da caixa, mãos, queixo, provavelmente boca (desabafo de uma pessoa amiga que trabalha num destes postos de trabalho e tem de ver coisas que custam a engolir quando se tem dois dedos de testa e um neurónio, no mínimo, a funcionar). Parece que as creches vão reabrir. Está tudo bem. As redes sociais cansam de tanto unicórnio e vidas de Barbie. Não imaginava que os portugueses viviam todos (quase) em casas com piscina, algumas com vista para o mar. Assim a quarentena até é um favor do universo para as pessoas gozarem mais as suas casas. E pululam padeiros e personal trainers. Toda a gente está exímia a fazer pão, bolos, petiscos vários. Isso e exercício físico. Tanto que nem vale a pena os ginásios voltarem a abrir portas. Está provado que não são precisos. Há quantidade absurda que me passa à frente dos olhos de exercício físico eu já tenho um six pack abdominal completo. Nas pestanas.

Desmotivo. Cumpro o meu horário de trabalho, que com reuniões quase diárias de 1h ou mais e em dias com muitas falhas de rede, acabo por esticar o dito horário para compensar na produtividade. Tenho dias que quando desligo o computador e penso que 20 minutinhos a fazer exercício seguindo um vídeo do Youtube até ajudaria a descomprimir, não fosse o cansaço ser muito, a cabeça gritar por sossego e mais depressa aterro um bocadinho no sofá antes de ir para o fogão, do que vou estender o tapete e pôr-me a malhar o corpinho que grita por descanso horizontal. 

Sinto-me moída, dormente. 

Uma amiga teve um ataque de pânico e crise de ansiedade. A falta de ar levou-a às urgências de um hospital privado que a pôs na rua e recusou-se atender. Foi ao público. Foi muito bem atendida. Está novamente em casa, sozinha, a tentar recuperar, com medicação SOS. Posso pegar no carro e ir lá ter com ela, tomar um café, dar-lhe um abraço e conversarmos cara a cara e não por vídeo chamada? 

A parte invisível da quarentena, aquela que não é vistosa e bonita de publicar nas redes sociais. A solidão, o medo, as dificuldades financeiras, as preocupações, a tentativa vã e o esforço hercúleo de criar uma nova rotina e realidade e "fingir" que está tudo bem e vai ficar tudo bem. Estou cansada, posso?! Cansada das tretas otimistas. Cansada dos egoístas e estúpidos que põem em causa todo o sacrifício que outras pessoas estão a fazer para controlar o contágio. Cansada da falácia das redes sociais que, mesmo neste momento que vivemos, continua a mostrar um lado paradisíaco e idílico de uma vida em quarentena, em que estão todos muito pró ativos, muito bem emocionalmente (quem vê a enxurrada de figuras tristes no tik tok não diria que é gente sã de espírito)... de repente tudo faz e come pão, aquele inimigo da dieta e bem estar que até há bem pouco tempo atrás toda a gente era alérgica. Só que não. A covid curou a doença celíaca de milhares de pessoas. Milagre, milagre! Haja pão. E vinho. E muito fit e yoga e merdas, já vomito pelos olhos tantas dicas de treinos em casa. Biquíni só para 2021, ok?! 

Cansaço. Íssimo íssimo íssimo cansaço. 

 

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