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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

20
Jan20

Britt-Marie Esteve Aqui

Fredrik Backman surpreende uma vez mais com um livro repleto de ternura, de episódios cómicos, e de vida real com que facilmente nos identificamos e nos sentimos parte da história.

Do mesmo autor:

A Minha Avó Pede Desculpas

Um Homem Chamado Ove

Numa escrita fluída, simples, Britt-Marie Esteve Aqui é uma história que nos encanta e toca no coração. Quem leu os anteriores, facilmente se recorda da vizinha chatarrona, que implica com tudo e todos, de A Minha Avó Pede Desculpas. Recorda-se, certamente, de como esta personagem tinha uma história de vida que acabava por justificar uma boa parte dos seus comportamentos... e se calhar não era assim tão implicativa ou chatarrona como se julgava às primeiras vistas.

Britt-Marie ganhou protagonismo neste livro e ficamos a conhecer tanto dela: 62 anos, uma vida dedicada ao marido (infiel), uma vida dedicada aos outros, mais preocupada em agradar aos outros ou ao que pensam, a ir ao encontro das necessidades dos outros. Uma vida a esquecer-se de si. Até que...

"Uns anos transformaram-se em vários anos, e vários anos transformaram-se nos anos todos. Há uma manhã em que uma pessoa acorda com mais vida atrás de si do que à sua frente, sem perceber como é que isso aconteceu."

Britt-Marie dá um salto para o desconhecido. Para alguém que tem tudo sob controlo, que tem a sua vida rigorosamente organizada numa rotina onde não há margem para imprevistos ou surpresas, Britt-Marie tem um ato de coragem e loucura. E vai parar a um sítio improvável, faz amizade com pessoas improváveis, vive uma série de experiências improváveis (daquilo que seria suposto ser a vida de Britt-Marie). E se nos vamos rindo com as peripécias, também nos vamos comovendo com esta personagem que nos vai conquistando a simpatia. Ficamos rendidos. E na expetativa de ver o que vai acontecer a seguir. Que escolhas irá Britt-Marie fazer, mesmo quando a vida antiga, que ela tanto queria recuperar, lhe bate literalmente à porta... irá Britt-Marie voltar à vida que tinha, ou ter-se-á aberto dentro dela uma vontade enorme de continuar a dar o salto para o desconhecido? Terá encontrado Britt-Marie uma coragem que desconhecia ter dentro dela? Irá Britt-Marie pensar em si e naquilo que em tempos foram os seus sonhos?

Uma história de ternura, de amizade, de entrega e partilha. Uma história de vida e de segundas oportunidades. De coragem. Uma história que nos enternece, nos faz rir, nos faz ficar de lágrimas nos olhos. E nos dá esperança: nunca é tarde para ganhar coragem e saltar! 

Um autor a seguir, sem a menor dúvida! 

03
Jan20

A Questão Finkler: última leitura de 2019

Acabei ontem, confesso, mas como só faltavam as últimas páginas, vamos considerar ainda uma leitura de 2019. 

Foi penosa, confesso. Li a sinopse e achei interessante. Inevitavelmente criam-se expetativass, para depois levar com um balde de água fria.

É um suposto livro divertido, que aborda o tema dos judeus (religião, cultura, história) de uma formadiretaa, crua e humorística. Só que não. O humor é relativo. E a personagem protagonista é tão chata que dói. Um tipo com 49 anos, que não fez nada de especial na vida a não ser viver obcecado com os judeus, querendo ser judeu a todo o custo. Ao passo que os seus amigos, judeus de nascimento, não fazem propriamente questão de afirmarem a sua identidade judaica, sendo que um, famoso filósofo, até se auto intitula como um judeu envergonhado. E judeus para aqui e judeus para ali, e nada, absolutamente nada contra os judeus, mas toda a obsessão que o protagonista mostra em relação aos judeus, o seu endeusamento, como se ser judeu fosse a porta para a suprema inteligência e felicidade eterna, é só, a meu ver, uma valente seca.

Um livro de filosofia rasca, com um humor muito fraquinho, procura mostrar as várias abordagens ao judaísmo (os crentes fervorosos, os antissemitas, a história do povo, o conflito na Faixa de Gaza, como o mundo vê os judeus, como os judeus se vêem a si próprios, e como acham que o mundo os vê, o peso do Holocausto na sua história enquanto povo), só que é tão aborrecido e confuso que torna a leitura penosa e pouco ou nada agradável. 

Teimosa que sou, li até ao fim... e o fim é ridiculamente parvo: o protagonista que vive obcecado em ser judeu, depois de (quase) o ter sido, volta à sua insignificante vidinha e é o literal "dar uma volta de 360º" - andou, andou, andou e voltou ao mesmo sítio. Afinal, aquilo que tanto ambicionava e idealizava, não correspondeu de todo às suas elevadas (e irrealistas) expetativas. 

Um livro tão aclamado e eu aqui a achar que foi só uma perda de tempo. 

 

30
Dez19

Leituras em 2019

Leituras_2019.jpg

Balanço 2019: 15 livros lidos. Mais um que em 2018

Manteve-se a preferência pelos thrillers, continuando a saga Sebastian Bergman no topo das preferências. Este ano mais três volumes lidos (devorados sofregamente), e só não há mais porque aguardo a publicação do próximo volume da série (VICIANTE).

Experimentei Murakami e não me encantou. Não sei se repito, pois não é de todo o meu tipo de leitura preferido. 

Desilusões deste ano (além de Murakami): A Primeira Mestiça, Reino de Feras e, de certa forma, A Questão Finkler (não correspondeu às expetativas que a sinopse deixou). Fica a minha resenha para breve. 

Grande orgulho deste ano: o livro do meu querido amigo e companheiro do curso de escrita criativa, Carlos Musga e o seu O Homem que Matou o Esquecimento Global. Aguardo o romance, ó Carlos 

Dada a lista de livros em espera, 2020 promete boas leituras. A ver se ultrapasso o número deste ano. A ser realista: um livro por mês. Se conseguir mais, tanto melhor. O importante é não perder o ritmo de leitura, mesmo nos dias em que me sinto mais cansada e prefiro estar a vegetar no Instagram. Dar prioridade à leitura e deixar as redes sociais e as suas falácias, que não interessam nem ao menino Jesus nas palhinhas deitado, nas palhinhas estendido. Portanto o mote para 2020 vai ser:

Ler é viajar sem sair do lugar...

Voar sem ter asas...

Caminhar sem tirar os pés do chão...

Navegar num mar de palavras, usando só a IMAGINAÇÃO.

 

03
Dez19

Leitura de novembro: Reino de Feras

Já acabei este livro há sensivelmente duas semanas. Ainda não falei dele basicamente porque não gostei, foi uma leitura difícil, aborrecida e que não me prendeu nem me deixou sem fôlego, como preconizavam algumas opiniões que li.

Devo dizer que este livro veio como oferta numa encomenda da WOOK que fiz há uns tempos. Fui espreitar a sinopse, as opiniões, e apostei na sua leitura contando que estaria na presença de um bom thriller. Só que não. Para mim, e isto é meramente opinião e gosto pessoal, achei o enredo aborrecido, estupidamente descritivo, pouca ação. De louvar, sim, a capacidade de raciocínio e cálculo de riscos de uma mãe que regressa aos seus instintos mais primitivos para, mais do que sobreviver, proteger a vida do seu filho. E porquê? Porque num banal dia em que, como tantas vezes acontecia, passa pelo pequeno zoo da cidade com o filho para ele brincar e ver os animais antes de regressar a casa, o zoo é invadido por uns homens (mais tarde percebe-se que são uns adolescentes na casa dos 18, pelo que percebi... é vago) que desatam aos tiros, como se estivessem numa caçada, e matam indiscriminadamente pessoas e animais. 

Um tema atual, este de "sociopatas" que desatam a matar pessoas em locais públicos como que para provarem alguma coisa, quanto mais não seja o sentirem-se vistos e tornarem-se inesquecíveis. 

A descrição está totalmente centrada nesta mãe e em todas as suas ações, escolhas e pensamentos para manter o filho a salvo, algumas das quais podem ser questionáveis moralmente, encaradas até como egoístas, mas numa situação limite de luta pela vida, vem ao de cima o puro instinto animal de proteger o seu filho. Tudo o resto passa para plano secundário, como ajudar outra pessoa que vê passar em apuros, ou deixar ficar no caixote do lixo um bebé que encontrou (ironia ler isto quando nas notícias tanto se falava do bebé abandonado no ecoponto), assistimos aos seus conflitos morais e aos pensamentos dela que passam à velocidade luz, a questionar o porquê daquele bebé ali estar (abandonado pela mãe à sua sorte, ou terá sido a forma que encontrou de o manter escondido dos atiradores?). A dura opção que fez e em como isso a incomoda, mas a prioridade é o seu filho. É a sua luta. A sua guerra. 

Aqui há bons ingredientes para efetivamente ser um bom thriller psicológico. Mas falha em tantos aspetos que, para mim enquanto leitora, seriam importantes para perceber o enredo. Não se fica a saber como está a polícia a atuar (aliás, durante demasiado tempo até parece que a polícia nem está presente), a certa altura deixamos de saber do marido/pai que está a caminho do zoo para salvar a mulher e o filho (em parte porque o ponto de contacto era o telemóvel dela que ela usou para despistar os atiradores e foi destruído, mas mesmo assim, não apareceu mais no relato, nem no desfecho, quando finalmente percebemos que a polícia está presente e consegue entrar para resgatar os sobreviventes e ajudar os feridos), e mesmo os atiradores, a sua identidade e os motivos são relegados para um plano tão insignificante que me deixaram com uma sensação de faltar ali algo que desse substância a toda esta história. 

No geral não gostei. Não me senti arrebatada, não sustive a respiração... aliás, era ótimo para me dar sono e dormir mais cedo, tal era o nível de aborrecimento.

 

02
Dez19

Black Friday, Cyber Monday, Bookaholic in any day of the week

Em que perdi a cabeça mesmo?!

Livros_Wook.JPG

Na Campanha de Natal 2019 da WOOK

Quatro livros a caminho, todos novidades, todos com desconto, e ainda deu para juntar um vale do cartão WOOKMAIS.

Dinheiro em livros nunca é dinheiro mal gasto. E não, já não prometo que me vou portar bem e não comprar até ler o que tenho na "prateleira da vergonha" à espera. É que depois a WOOK vem com estas campanhas, acena-me assim à frente do nariz e eu, fraca, fraquinha, cedo e caio em tentação. 

Há pecados que valem a pena. Este é um deles. 

 

08
Nov19

Leitura de Outubro

Depois de uma leitura voraz do último livro da saga Sebastian Bergman, fui à minha "prateleira da vergonha" ver qual seria o seguinte. Para garantir que não me desiludia, missão quase impossível depois de mais uma incursão intensa no universo de Sebastian Bergman, escolhi O Último Papa de Luís Miguel da Rocha.

É de lamentar que um escritor português tão promissor nos tivesse deixado tão precocemente. Tem uma escrita muito cativante, na sua obra demonstra um interesse particular pelo Vaticano e todos os segredos escondidos ao longo dos séculos, teorias da conspiração e o recurso a meios muito duvidosos que justificam o fim de manter a Igreja e os seus dogmas intactos. 

Pelo que percebi eu comecei pelo último livro do que parece ser uma saga (pelo menos tem personagens transversais e há uma certa linha cronológica). Comecei pel' A Filha do Papa, que parece ser o último (publicado) desta sequela. Como gostei, regressei ao autor e ao que será o primeiro livro da saga.

Neste livro é explorada uma teoria sobre a morte misteriosa e repentina do Papa que foi Papa durante 33 dias, ficou conhecido pelo Papa do Sorriso e foi o primeiro a escolher dois nomes: Papa João Paulo I. Conspirações, sociedades secretas que não olham a meios para atingir os seus fins, os jogos de interesse, poder de influência e corrupção são ingredientes que podemos encontrar neste enredo muito bem desenvolvido entre dois tempos cronológicos: 1978 o ano do Papa João Paulo I e 2006, quando surge uma lista que pode pôr a descoberto toda uma teia de corrupção, lavagem de dinheiro e assassinatos que envolvem o Vaticano, bem como pode derrubar poderosos nomes das mais variadas áreas (política, jurídica e eclesiástica). 

É neste livro que conhecemos uma perspicaz jornalista portuguesa e um misterioso agente secreto do Vaticano, protagonistas deste complexo enredo que explora de forma muito inteligente e verosímil uma série de "podres" que se passam nos bastidores que o grande público não conhece, nem desconfia que possam existir. As aventuras que passam juntos são de tirar o fôlego em várias páginas, sendo o ritmo de leitura tão intenso como é intensa a descrição dos acontecimentos, da ação, que quase somos transportados para o meio daquelas perseguições alucinantes, sentimos a adrenalina daquela fuga e luta pela sobrevivência.

Sem dúvida que é uma escrita que me cativa, e a forma como são exploradas estas teses relativas a alguns dos grandes mistérios relacionados com o Vaticano deixam-me curiosa pelos que ainda não li. Leituras para 2020, com toda a certeza.

 

01
Out19

Ora, comecei a 24 de setembro, acabei a 30, e pelo meio não lhe peguei durante dois dias!

Portanto foram 5 dias para ler o sexto volume da saga Sebastian Bergman. 528 páginas devoradas em 5 dias 

Acho que vou criar uma tag só para Sebastian Bergman, porque eu estou viciada nesta série. E agora tenho de aguardar pelo próximo (vai haver um próximo volume, TEM de HAVER) numa espera que aumenta as expetativas sobre o que está para vir.

O sexto volume foi muito ansiado e aguardado, dada a forma como termina o volume anterior. E este é uma das características, entre outras, destes autores: conseguem prender-nos até à última página, sendo que essa última página deixa uma espécie de "to be continued" que nos deixa em ânsias. 

Este volume pode, e percebo que assim o seja, desiludir um pouco os fãs, como demonstra esta opinião, que está muito bem fundamentada e portanto não vou acrescentar muito mais. Ainda assim, eu estou crente que este volume é uma espécie de transição para o grande drama que se aproxima e que vai pôr à prova toda a equipa de Torkel. 

Neste volume temos um violador em série, cuja personalidade demonstra ser bastante organizada e perseverante na missão que, na sua própria voz que vai surgindo ao longo da trama, percebemos que há uma vingança que está a levar a cabo, ligando assim as vítimas num mistério pararelo, que vai pôr a equipa da Riskmord, liderada por Torkel, em cheque e às voltas cegas, sem pistas, sem suspeitos, sem apanhar um fio à meada para começar a destrinçar a trama.

Neste livro vemos a atenção mais focada na vida e desenvolvimento pessoal dos nossos protagonistas, as mudanças que a vida operou em cada um, a evolução de uns, a mudança de outros, e vemos um Sebastian que anda mais desconcentrado, distraído, meio perdido no seu drama de querer conquistar a filha que descobriu ter e consertar todos os erros cometidos por ela, revivendo continuamente o trauma da perda da mulher e da filha Sabine no tsunami. Talvez por isso foi ludibriado pelo criminoso (que mais uma vez, ainda que não seja uma mente brilhante do crime, como vilões em casos anteriores, não deixou de ser uma grande surpresa).

Tenho em mim, mera opinião, vale o que vale, que este volume é uma transição, uma preparação para o que aí vem. As expetativas para o sétimo volume estão muito elevadas. A equipa da Riskmord está em vias de sofrer o seu maior desafio, que trará consequências a todos, a nível profissional e pessoal. Resta saber (e esperar) como vão os autores trabalhar este enredo, do qual têm vindo a deixar pistas cada vez mais claras, desde o primeiro volume até ao atual. Sebastian já percebeu que há algo de errado, de muito errado e preocupante. Perceberão os outros? Até onde vão aguentar o golpe que se adivinha?

Expetativas altas. Oh se estão. Enquanto isso, sofre leitora viciada na saga, porque o sexto volume acabou de sair, portanto o sétimo só lá para 2020 ou 2021. 

 

24
Set19

A Primeira Mestiça

Quem por aqui me vai acompanhando sabe que sou daquelas leitoras com algumas manias, a saber:

  • só leio um livro de cada vez (já bastou os anos de faculdade em que tinha de ler vários em simultâneo);
  • não desisto da leitura, por mais desinteressante que esteja a ser, por mais sono que dê, por mais vontade de espetar com um prego ferrugento nos olhos, não desisto. Comprei o livro é para ler até ao fim. Esta teimosia já me valeu uns quantos desgostos literários, tempos infindos a protelar, a ruminar a leitura e a deixar de lado outras, promissoramente mais interessantes. Confesso que só desisti de um livro. Por duas vezes. O mesmo. Não consigo. E nem vale a pena vir insistir que não vou tentar uma terceira. Memorial do Convento de Saramago... 

Vi a sinopse deste livro de Álvaro Vargas Llosa e fiquei com saudades da fase em que devorava romances históricos. Ainda por cima este focava uma época que também foi explorada num romance de Isabel Allende. E eis o problema: as expetativas. Sabia que ia ler um romance histórico, com forte cariz biográfico: a história da primeira mestiça, filha de uma princesa inca com um dos primeiros conquistadores e governadores espanhóis aquando da conquista do Perú. 

Mas... a escrita é aborrecida. A dita personagem principal afinal aparece de quando em onde, muitas das vezes como uma referência quase poética a uma menina com uma enorme herança e um futuro de grandes feitos. Só que não. A história desenvolve-se muito em torno da conquista do Perú, das guerras, entre espanhóis e índios, depois entre os próprios espanhóis, fruto da ganância de riqueza e poder. Só quase no final é que a protagonista da história aparece com alguma relevância, mas foi assim um relato relâmpago. Imaginem aquelas novelas que andam 237 episódios a engonhar e nos três últimos é que tudo acontece e se sabe? Pronto, é mais ou menos o que achei deste livro.

Assim, e dada a desilusão, vou voltar ao meu adorado Sebastian Bergman e o mais recente volume, na esperança que não seja o último e, na pior das hipóteses, vou ter de esperar um ano pelo próximo. 

 

27
Ago19

Leituras de verão

Na segunda quinzena de julho, depois de ler O Boneco de Neve, escolhi outro thriller de uma autora de quem já tinha lido um livro. 

A Mulher Desaparecida, de Sara Blaedel (considerada a rainha dinamarquesa do thriller?) é um thriller razoável. Faz lembrar um episódio de uma série policial, onde investigação de um crime se mistura com a vida pessoal dos protagonistas. Não foi mau, mas também não foi nada que me causasse aquela sensação de wow, por esta é que eu não esperava.

O enredo está bem construído, a determinada altura há ali um pequeno twist, bem conseguido por sinal, que conduz à revelação do assassino. O contexto da trama é um tema polémico que volta e meia está na ordem do dia da discussão pública: o direito à eutanásia. Tema que poderia ter sido melhor explorado, na minha opinião. O assassino não é um cruel e impiedoso serial killer ou psicopata, é antes um assassino passional, pois move-o um sentimento (irracional) de vingança provocado pela dolorosa perda de uma pessoa que muito amava. 

Tem uma escrita fluída, não se perde em muitos detalhes e pormenores, conduz bem a narrativa, e sim, vale a pena ler. Da mesma autora já tinha lido Raparigas Esquecidas que, mais uma vez, não sendo um thriller inesquecível, também não é daqueles que considero pura perda de tempo. 

Se vou ler as outras obras da autora? Provavelmente. Pelas sinopses, a personagem protagonista é um investigadora policial, portanto estamos perante uma saga (espécie de série policial), o que não me desagrada de todo. Como thrillers, pelos menos os dois que li, pode-se dizer que são relativamente softs. Não são daqueles quebra cabeças, constantemente a mudar a direção das pistas, e por conseguinte, dos suspeitos. Por vezes também é bom ler algo mais policial e menos profiler. Eu, pessoalmente, gosto dos mais complexos, que envolvem perfis psicológicos, uma caça a um criminoso que pode ser qualquer um, pois as pistas estão em constante mudança de direção. E obviamente gosto de ser surpreendida no fim, embora também me sinta toda contente quando "descubro" quem é o assassino. 

Bem, não consegui acabar de ler antes de ir de férias, pelo que ainda me acompanhou na mala de viagem. Acabei de o ler em viagem (sim, eu leio no carro e sem qualquer "problema", há quem não consiga, a mim não me faz confusão).

Para as férias tinha escolhido o Kafka à Beira-Mar, versão livro de bolso que comprei por uma pechincha na Feira do Livro. 

Ora, este livro andou nas bocas do povo há uns bons tempos. Ficou-me na ideia um dia lê-lo. Deixei passar a febre. Haruki Murakami é um aclamado e consagrado escritor da atualidade. Iniciei-me agora na sua obra. E não, não me seduziu. Aborrecido. Tanto que cheguei a adormecer na praia com o livro aberto em cima da barriga (e fiquei um dia com a marca de um quadrado, coisa linda, sóquenão). Esmiuçando, a história tem tanto potencial, mas perde-se em tanta fantasia, o que é sonho, realidade, universos paralelos (e sei que é cultura oriental esta história de projeção de espírito e cenas que tais). Houve umas quantas histórias que ficaram sem um fim, uma resposta, por exemplo, o que aconteceu com aquele grupo de crianças e porque ficou Nakata assim? E aquela história que a professora conta, e fica ali um capítulo solto, sem qualquer ligação, explicação ou lógica, sem acrescentar mais valia no enredo geral. A velhinha história da transição entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Há ali, em termos estruturais, a recriação do que seria uma tragédia grega, as profecias, a fatalidade do destino, do qual não se pode fugir, há na voz de uma das personagens, Oshima (muito interessante, por acaso), aquilo que seria o coro da tragédia grega, a voz da razão, da consciência, da sabedoria. A voz que avisa das consequências das ações e escolhas, e tenta mostrar o melhor caminho a seguir, sendo que a decisão de acatar ou não o conselho é sempre do outro.

Há partes interessantes no livro. Reflexões que nos ficam cá dentro, nos ficam a martelar na cabeça. Há lições de vida que emergem das subtis entrelinhas dos relatos fantasiosos, onde é difícil distinguir o que é real do que é sonho. 

Pode ser um tipo de escrita muito interessante para umas pessoas. A mim, confesso, não me prendeu. Aborreceu-me. Senti-me muitas vezes confusa nas várias histórias, nas passagens de tempo e realidades paralelas. Há personagens que são fascinantes pela sabedoria que apresentam, outras que dão ali um cunho mais comum, cómico, realista, há personagens sem interesse, como por exemplo, Saeki-san, que a dada altura parece ser o centro de todo o enredo, a origem das premonições e desgraças anunciadas, mas afinal é apenas um fantasma vivo, com uma história de amor, daquelas eternas e intemporais, que acabou de forma abrupta, mergulhando-a num sofrimento mais atroz que a própria morte. 

O percurso de Kafka Tamura faz-me lembrar a viagem de Dante ao inferno. E talvez, no meio deste enredo tão complexo e cheio de artifícios, seja exatamente isto: a viagem de um adolescente de 15 anos em busca de si mesmo, um adolescente que se sente sozinho no mundo, abandonado pela mãe e rejeitado pelo pai.

E pouco mais tenho a dizer. Efetivamente, a escrita de Murakami não me seduziu ou conquistou por aí além. Não sei se darei outra oportunidade, porque até estou minimamente curiosa com o 1Q84. Talvez. Mas não já. 

Por ora, vou voltar a uma antiga paixão: romance histórico, com um travo a biografia

E isto porque o sexto volume da saga Sebastian Bergman só será lançado a 3 de setembro. Sim, já está encomendado. Portanto, enquanto chega e não chega, vou entreter-me com um romance histórico. 

 

Nota: decidi, sei lá que raio de bicho me mordeu, abir conta no Goodreads. Tenho estado a adicionar os livros que tenho na estante e já li. Mas há tantos que eram do meu pai e com ele ficaram, outros que me foram emprestados, outros lidos da biblioteca da escola. Vai ser impossível registar a totalidade de leituras da minha vida. Ainda ando a explorar a aplicação. Ainda estou na fase do "não percebo nada disto, para que raio estou a ter este trabalhão?". Mas pronto, agora que comecei e estou quase, quase a ter em dia, pelo menos a estante de casa, não vou desistir. Seria morrer na praia. 

 

17
Jul19

O Boneco de Neve (ironicamente lido no suposto verão)

 

Primeira quinzena de julho e despachei o thriller que tornou Jo Nesbo conhecido do grande público: O Boneco de Neve. 

Percebi logo que este livro não é o primeiro de uma saga (parece que é o sétimo). O protagonista, o detetive Harry Hole, tem toda uma história passada, que não sendo difícil de perceber ou acompanhar, o certo é que acredito que, para quem não leu os anteriores livros, há detalhes e pormenores que passam ao lado. Nada que seja determinante na compreensão do enredo, mas para quem gosta, como eu, de conhecer os ínfimos detalhes, confesso que fiquei ali um pouco curiosa e inquieta por saber mais.

Adiante. O Boneco de Neve é um thriller (nórdico) que prende o leitor. Impressiona pelas descrições gráficas e sem eufemismos. Um assassino verdadeiramente assustador e impiedoso, que mais parece um fantasma, dada a escassez de pistas que deixa à polícia, num jogo macabro de psicopata inteligente que finta tudo e todos. 

Confesso, e não estou a armar-me aos cucos, que desconfiei relativamente cedo de uma personagem como sendo o verdadeiro psicopata assassino. Não me enganei. E se houve um sentimento de orgulho de "yes, acertei", também houve aquela pequena desilusão de não ser verdadeiramente surpreendida. 

Há várias histórias paralelas, num emaranhado que se vai desenrolando a cada capítulo. Há descrições verdadeiramente impressionantes, excessivamente gráficas, difíceis de tirar da cabeça. Há momentos de suster a respiração. Há momentos de franzir o sobrolho e pensar que há ali qualquer coisa que não está bem. E sim, há algumas surpresas que apanham o leitor desprevenido. 

No geral, gostei. Talvez volte a ler Jo Nesbo. 

Agora, estúpida e burra que nem uma porta foi ter lido o livro e querer ver o filme. Na minha ingenuidade pensei: ah, esta história não é assim tão difícil de passar para filme sem haver mudanças e alterações. Puro engano. Logo no início, logo na primeira cena percebi que tinham alterado o enredo. Um grande foda-se aos guionistas que supostamente escrevem guiões de filmes baseados em livros. Dá vontade de lhes pregar com um chapadão na cara e perguntar se no mínimo leram a obra original. Fiquei logo tão piursa com o início do filme, que me deixei adormecer. Acordei nas últimas cenas, e, mais uma vez, pouco, muito pouco a ver com o que está escrito na obra original. 

Perguntei ao Gandhe se tinha gostado do filme (ele não leu o livro). Sim, gostou e contou-me algumas cenas, perguntando se era assim no livro (eu já lhe tinha falado do livro e feito assim um resumo alargado, sem desvendar a identidade do assassino). Ora, algumas dessas partes que ele contou do filme fizeram-me desfiar um rosário de palavrões feios porque essa merda nem no livro está. Ainda bem que não vi o filme todo. E nem quero. 

Já estou numa nova leitura, mais um policial, desta vez de uma escritora considerada "a rainha dinamarquesa do thriller". Já li um livro dela, e não sendo dos thrillers que mais gostei, decidi dar uma nova oportunidade a esta autora. Confesso que este livro está a agarrar-me mais que o outro.

Tenho até ao fim do mês para ler, porque o livro para levar comigo de férias está escolhido, é em formato livro de bolso precisamente para isso: férias sem pesar no saco de praia. 

 

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