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Estórias na Caixa de Pandora

Entre a sombra e a luz, as estórias que me habitam

Estórias na Caixa de Pandora

Entre a sombra e a luz, as estórias que me habitam

05
Dez25

Onde o Corpo Habita o Tempo

Vivemos grande parte do tempo em desfasamento. O corpo está num lugar, mas a mente vagueia em universos paralelos. Ora regressa ao que foi, ora antecipa o que ainda não aconteceu. Saltamos entre passado e futuro como quem atravessa pontes invisíveis, esquecendo-nos, muitas vezes, do único lugar onde a vida realmente acontece: o agora.

O corpo, esse, nunca sai daqui.

O corpo vive sempre no presente. Ele respira agora. O coração bate agora. A pele sente a temperatura agora. Mesmo quando estamos presos em memórias antigas ou em ansiedades futuras, é o corpo que continua aqui, ligado ao instante efémero do agora.

O corpo é a nossa âncora.

É nele que a vida acontece em tempo real.

É através do corpo que sentimos, que percebemos, que experienciamos. É no corpo que a vida acontece. Agora.

Tomar atenção ao corpo é regressar e ancorar no agora.

Quantas vezes o dia começa com a mente acelerada antes mesmo dos pés tocarem o chão? Quantas vezes comemos sem saborear, caminhamos sem sentir os pés, respiramos sem perceber que respiramos? Vivemos por hábito, por automatismo, por sobrevivência. E, nesse ritmo, perdemos-nos de nós. E a vida escapa-se entre o passado que foi e o futuro que poderá vir a ser.

Beber uma chávena de chá ou café pela manhã. E em vez de estar a revisar a agenda do dia, que tal sentir a chávena quente nas mãos? Cheirar o aroma que se liberta? Saborear, gole a gole, e sentir o liquido percorrer o nosso corpo até se alojar no estômago. Sentir o prazer de uma bebida quente pela manhã, como nos aquece o corpo. E conforta a alma.

Sentar, cinco minutos que seja, e simplesmente observar. Observar o movimento de pessoas. Ou a paisagem - árvores, flores, relva, casas, nuvens, o que seja que esteja à frente dos nossos olhos. Fechar os olhos e apurar o sentido do ouvir. Perceber os sons à nossa volta. E os cheiros. O cheiro da terra molhada da chuva. Ou a café acabado de fazer. A torradas. A pão acabado de cozer. Ou outro aroma que nos faça salivar. 

Permitirmo-nos a vulnerabilidade de sentir o que nos rodeia com os nossos cinco sentidos. E estar conscientes das sensações que surgem no nosso corpo. O arrepio na pele. O palpitar do coração. 

É no corpo que regressamos quando nos perdemos. Quando a mente corre demais, quando o coração pesa, quando a vida aperta. Voltar ao corpo é voltar a casa.

Um pé no chão. Um suspiro mais fundo. Um alongar de braços. Um bocejo sem pressa. Pequenos gestos que nos devolvem ao agora.

O corpo não guarda conceitos nem projeta futuros. Ele sente. Ele vive. Ele sabe quando estamos a fugir de nós e quando estamos, finalmente, a chegar.

Estar no aqui e agora não é uma meta distante, nem um estado permanente de calma. É um treino diário. Um regresso constante. Uma escolha que se faz muitas vezes ao dia: sair da cabeça e entrar no corpo.

E, no fim,  talvez seja isso que significa estar vivo de verdade — habitar o instante com tudo o que ele traz. Sem fugir. Sem antecipar. Sem adiamentos.

Apenas aqui. Agora. Com o corpo como âncora.

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
28
Nov25

É no simples que está o belo!

O mundo está repleto de simples milagres. 

Um campo de flores que se abrem em múltiplas cores, polvilhando a terra de vários tons.

Folhas dançando ao vento, como notas de uma sinfonia celestial.

Florestas onde cada árvore carrega a sua própria história.

O mar, com a sua força selvagem e indomável, trazendo força e calmaria ao mesmo tempo.

A chuva que cai, molhando a terra e renovando a vida que dela brota.

A lua cheia iluminando o céu à noite.

Tempestades que rasgam o céu, relâmpagos que cortam a escuridão.

Estrelas surgindo no céu infinito, lembrando-nos da vastidão e da magia que nos cerca.

Cada instante na natureza guarda o seu próprio milagre. Cada movimento, cada brilho, cada som é uma lembrança de que o mundo está vivo e pulsando. Basta abrir os olhos e sentir.

E cada um de nós faz parte deste mundo. Cada um de nós é, também, um milagre de vida. E será que conseguimos ou sabemos sentir esse milagre dentro de nós?

Em cada respiração. Em cada batimento cardíaco. Em cada olhar e movimento. Em cada sentir.

Sabemos apreciar este milagre de estarmos vivos? 

Fechar os olhos e sentir a vida a pulsar no corpo. Sentir o ar entrar e sair, como uma maré silenciosa que nos sustenta sem pedir nada em troca. Sentir o coração bater, firme, discreto, lembrando-nos de que há um ritmo interior que nos mantém aqui, presentes, vivos, mesmo nos dias em que nos esquecemos de nós, de como respirar. Ou nos dias em que nem damos pelo nosso próprio coração a bater, bombeando o sangue que nos corre pelas veias.

É fácil admirar o milagre que acontece fora de nós - o mar, a lua, as árvores, o céu que se rasga e abre em cores. Difícil é reconhecer que a mesma beleza que vemos lá fora também habita dentro de nós. Que somos feitos do mesmo movimento, da mesma energia que faz uma flor desabrochar, uma estrela brilhar, um rio seguir. Quão desligados estamos para nos esquecermos de que também somos um milagre da vida?

A verdade é que, muitas vezes, demasiadas vezes, vivemos tão ocupados, tão sobrecarregados, tão acelerados, que deixamos de notar. Deixamos de perceber. Deixamos de SENTIR. E o milagre que somos fica à espera de que lhe prestemos atenção. Fica à espera de ser visto. Reconhecido. Valorizado.

Acredito que a natureza nos ensina - e nos lembra - todos os dias a importância de abrandar, de observar. De sentir.

Sentir que somos parte do todo.

Sentir que viver é um milagre extraordinário.

A vida, na beleza das coisas simples, é um espanto constante.

E ao reconhecermos os milagres do mundo, abrimos espaço para reconhecer também o nosso próprio milagre.

Talvez o maior milagre seja este: a capacidade de reconhecer a vida enquanto ela acontece. Perceber que o propósito de vida não é um destino a alcançar, é o percurso em si mesmo.

E que, mesmo no caos, no automatismo, no cansaço, temos sempre a possibilidade de voltar a nós. De regressar ao corpo. De respirar fundo e reencontrar o fio que nos liga ao que é simples, belo e essencial.

É isso que a vida nos pede: menos pressa, mais presença.

Porque, quando abrandamos, percebemos que o simples não é pequeno — é onde tudo começa.
É onde a vida sussurra.

É onde o milagre acontece. 

E, no simples, encontramos sempre o caminho de volta a nós.

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
14
Nov25

Sentir o Corpo: mergulhar nas camadas e flutuar na presença

Mergulhar no trauma é rasgar camadas. Tantas quantas foram sendo criadas para proteção, capa, armadura. Sobrevivência.

Mergulhar no trauma é permitirmo-nos ir a um espaço onde o tempo é uno, sem passado, presente ou futuro.

Mergulhar no trauma é calar a mente e deixar o corpo guiar-nos. Sentir tudo o que vier. Deixar vir. E só observar, sem julgar, sem contrariar. Sem fugir ou esconder.

O corpo agita-se. Treme. Arrepia. Contrai. A respiração pesa, encurta. As lágrimas soltam-se. A garganta aperta. 

Respirar fundo. Devagar. Expirar, como quem se esvazia. É a respiração consciente que nos mantém ligados. E seguros.

Quanto mais profundo nos deixamos ir, maior é a sensação extracorpórea. Como se pairássemos entre dimensões. E o tempo se dissolvesse.

Sentimos o corpo expandir-se e encolher-se ao mesmo tempo.

Tudo é apenas sensação. Apenas presença.

Inspira profundo. Expira e solta.

E então, numa brecha, surge o espaço entre os acontecimentos e a nossa respiração.

O trauma deixa de ser só dor. Torna-se mapa. Mapa de quem fomos, de quem somos, de quem podemos ser.

O corpo aprende a dialogar consigo próprio, sem pressa, sem resistência.

Mergulhar no trauma não é afogar-se. É aprender a flutuar dentro de nós mesmos. É reconhecer as camadas que nos protegeram, agradecer-lhes, e suavemente deixá-las ir.

No fim, quando voltamos à superfície, há calma. Há um silêncio nutrido pela consciência. Permanecemos no espaço silencioso entre respiração e presença. Mesmo que ainda reverbere um arrepio que percorre o corpo, e lágrimas ainda caiam. O trauma torna-se parte do nosso mapa interior.

As camadas rasgadas descansam. O corpo aprende a dançar com a própria memória. E no fio ténue entre dor e consciência, descobrimos que  podemos sentir-nos inteiros, vivos e presentes.

 

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
06
Nov25

Metamorfose: entre o medo e a liberdade de ser

Sentir-me insuficiente.
Sentir-me não merecedora.
Sentir-me inadequada.
Sentir que não tenho lugar ou espaço. Para ser vista. Para ser ouvida. Para ser acolhida.
Ferida da rejeição. Ferida do abandono.

Fui a criança que se sentiu abandonada, sozinha, sem colo, sem proteção.
A criança que cedo desenvolveu os seus mecanismos de sobrevivência. Passar despercebida. Não se mostrar. Não chamar a atenção. Não dar trabalho. Não falar.  Não chorar. Não rir.
Em permanente estado de alerta. Em vigília.
Atenta aos mais ínfimos detalhes... o tom de voz, o bater da porta, o som dos passos, as micro expressões.
A criança que esperava a pancada, não o afeto ou carinho.
A criança que acreditou que se fosse perfeita, então seria aceite. Amada.

E a inadequação aumentava em igual proporção ao sentimento de insuficiência. 

Aprendi a calar-me para evitar críticas.
Aprendi a "andar em bicos de pés" para não provocar explosões de raiva.
Cheguei a acreditar que era uma maldição estar viva e só a morte seria a minha libertação. 

Hoje sou a mulher que quer viver. VIVER.
Sou a mulher que descobriu que tem muita alegria e fogo dentro de si.
A mulher que percebeu o peso da armadura que carregou durante anos para se proteger.
A mulher que toma consciência do seu desejo profundo de ser vista depois de ter crescido e vivido encolhida, quase invisível, com medo de ser vista, como se disso dependesse a sua sobrevivência.
Hoje, sou a mulher que descobre a sua luz e apazigua as sombras que foram a sua "casa" e proteção. 

Tem tanto de doloroso como de libertador.
O corpo ganha nova amplitude para se mover. Mais livre. Mais leve.
E, mesmo quando se encolhe e volta à sua zona segura, sinto agora uma confiança e força, antes insconscientes, para expandir novamente.
No corpo. E não só.

E neste movimento vou fluindo e ajustando-me a esta nova pele - sem armaduras nem couraças -, transmutando as minhas vulnerabilidades em força vital.
Rasgo as várias camadas de crenças, de traumas, e vou largando o tanto que carreguei e nunca foi meu. 

Assim, renasço.

Em cada dia, novas oportunidades, velhos desafios.
Em cada dia, nós que desato para me libertar da carga emocional que me pesa e bloqueia.

Em cada dia, curando as minhas sombras com o amor que emana da minha própria luz.

Hoje compreendo que a liberdade não está em deixar de sentir medo, mas em permitir-me ser, mesmo com ele.
Ser inteira, imperfeita, viva.
E, nesse movimento, continuar a renascer — uma e outra vez — em direção à mulher que, finalmente, se autoriza a existir.

A cura não é um ponto de chegada, é um caminho que se percorre com amor e consciência.
Cada passo, mesmo os mais lentos, é um retorno a mim mesma.
Entre o medo e a liberdade de ser, aprendo que a vida acontece no espaço que crio dentro de mim para acolher-me, exatamente como sou.

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
27
Mar24

Eu sou incrivelmente imperfeita

Eu não sou perfeita e nem pretendo ser.

Eu tenho inseguranças. Eu tenho ciúmes. Eu penso demais sobre tudo. Eu tenho problemas de confiança e há dias em que sinto que não sou boa o suficiente. 

Eu sou assim. E não tenho medo de o admitir.

Ao mesmo tempo, eu sou incrível em muitos outros aspetos. 

Eu tenho um enorme coração com muitas cicatrizes. Um alma que passou pelo inferno e voltou. 

Nem todos os dias estou no meu melhor. Há dias que estrago tudo, mas eu aprendo com eles. 

Eu quero crescer e ser a minha melhor versão. 

A vida é uma jornada e está tudo bem em ter falhas e imperfeições. Fazem de mim o que sou. E eu abraço ambas, as lutas e as forças que moldam o meu carácter. Eu estou em desenvolvimento, em constante evolução. E eu acredito que o autoconhecimento e a vontade para aprender e crescer são as chaves para me tornar melhor e mais resiliente.

Está tudo bem em não ser uma pessoa perfeita. É mais importante ser verdadeira e esforçar-me por crescer e melhorar-me. 

Abracem as vossas imperfeições como oportunidades para crescer e se descobrirem. Somos incrivelmente imperfeitos na nossa única maneira de ser, e é o que faz de nós humanos.

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.

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